Em 3 de dezembro de 2025, o deputado federal Guilherme Derrite (PP), então recém-saído da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, foi recebido para uma homenagem na casa de um empresário de 38 anos. No dia seguinte, o anfitrião publicou no Instagram que o gesto reconhecia a “prudência” do parlamentar e recorreu a Aristóteles para defender que o país precisa de “aristocratas no sentido original: os mais aptos, os mais virtuosos, os que têm condições reais de transformar a realidade através da decisão correta, mesmo quando não são populares”.
O anfitrião era Tallis Gomes, que apoiou Jair Bolsonaro (PL) em 2022 e cobra publicamente de outros empresários a mesma disposição: deixarem de lado o medo de se expor e apoiarem abertamente agentes públicos que considera capazes de construir boas políticas para o Brasil. “Eu tenho um papel de conselheiro do Flávio. Desde antes de ele anunciar a campanha dele, eu tenho agido ali como uma espécie do que o Elon Musk foi para o Trump”, afirmou ele, em entrevista à Gazeta do Povo, referindo-se ao senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República.
Nascido em Carangola (MG), Gomes foi criado pela avó, empregada doméstica aposentada — episódio que cita com frequência para explicar a formação dos valores que carrega. O empresário fundou o Easy Taxi em 2011, expandiu a operação para mais de 35 países e, depois da fusão do aplicativo com a Cabify, em 2017, migrou para novos negócios.
Entre eles, a Singu e o G4, plataforma de mentoria e soluções corporativas para pequenas e médias empresas que hoje é seu principal empreendimento — e a base de onde migrou para os bastidores da política.
VEJA TAMBÉM:
-

Lula procura se afastar de Moraes enquanto investe em enfraquecer Mendonça
Tallis Gomes caracteriza “Brasil peronista” em eventual 4º mandato de Lula
O empresário nega vínculo formal com qualquer campanha, mas admite ter se tornado um articulador entre empresários conservadores paulistas contrários à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele sustenta que um quarto mandato de Lula levaria o país ao que chama de “Brasil peronista” e cita projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que a dívida bruta do governo geral chegará a 100% do PIB em 2027.
“A gente deve fechar o governo Lula com basicamente 100% do PIB em dívida. Vai ser muito parecido com o que aconteceu com a Argentina peronista. A gente começa a ver a catástrofe acontecer no Brasil exatamente como aconteceu com a Argentina”, compara.
O trânsito político dele se apoia em três ativos: uma empresa, uma audiência e uma rede de relações. De acordo com o empresário, a receita do G4 saltou de R$ 132 milhões em 2022 para R$ 508 milhões em 2025, e a companhia soma cerca de 100 mil empresas-clientes, que empregariam 16 milhões de pessoas.
A audiência vem das redes sociais. De acordo com o empresário, o perfil no Instagram gera 214 milhões de visualizações por mês. A terceira camada é a mais discreta e a mais decisiva. Tallis Gomes mantém amizade pessoal com Guilherme Benchimol, fundador da XP, e relacionamento com André Esteves, do BTG Pactual.
É o tipo de circulação que transforma um empresário de tecnologia em interlocutor de um círculo em que decisões de campanha e desenhos de política econômica são discutidos longe do palanque.
“Não tenho absolutamente nada contra o Renan [Santos] (Missão), não tenho absolutamente nada contra o [Ronaldo] Caiado (PSD), absolutamente nada contra o [Romeu] Zema (Novo). Só sei que não pode ser o Lula”, diz. “Como o único candidato possível é o Flávio, é por isso que eu falo muito dele”, responde o empresário.
Ele admite que sua preferência pessoal seria outra. “Eu adoraria votar no Tarcísio para a Presidência”, afirma, referindo-se ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a quem chama de “o melhor político do Brasil”. Votar em candidaturas sem viabilidade no primeiro turno, na avaliação dele, equivale a favorecer o petista. “Pregar voto nulo é pregar voto no Lula, dá na mesma”, pontua.
A articulação não se limita à corrida presidencial. O empresário declara apoio ao deputado federal Ricardo Salles (Novo), candidato ao Senado por São Paulo, e à chamada “bancada do livre mercado”, grupo de candidatos que assumem compromissos públicos de não aumentar impostos e promover cortes de gastos.
VEJA TAMBÉM:
-

Mirabolante? Presidenciáveis propõem extinção de cidades, R$ 1 mil por bebê e políticos obrigados a ir no SUS
Plano propõe levar o Brasil da 10ª para a 6ª maior economia do mundo em oito anos
O empresário diz ter elaborado um plano próprio — o “Plano Brasil top 6” — e apresentado a proposta a integrantes do círculo econômico de Flávio Bolsonaro. Tallis Gomes evita caracterizar o documento como uma entrega oficial e não antecipa o que teria sido aceito. “É uma proposta minha e foi apresentada para uma turma aí, algumas pessoas do time. Estamos em conversa”, comenta.
Sem entrar em detalhes, afirma que tem conversado com Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, com o economista Adolfo Sachsida, coordenador da equipe econômica da campanha, e com Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central.
Afirma ainda ter discutido as medidas com Federico Sturzenegger, ministro da Desregulamentação e Transformação do Estado da Argentina e principal autor das reformas liberais do governo de Javier Milei, presidente do país vizinho. O objetivo central é levar o Brasil da 10ª para a 6ª maior economia do mundo até 2034, atraindo um trilhão de dólares em novos investimentos ao longo de oito anos.
Ele situa a meta num cenário global, sob um cálculo de que cerca de US$ 7 trilhões devem ser investidos em infraestrutura de inteligência artificial no mundo nos próximos cinco anos, e o plano miraria capturar um sétimo desse total. Entre as medidas que descreve, estão:
- pacote de incentivos para atrair data centers e infraestrutura de inteligência artificial, com zonas de processamento, descontos de energia e uma lei do investidor de longo prazo, capaz, na estimativa dele, de trazer “centenas de bilhões” adicionais;
- voltar a captar cerca de US$ 125 bilhões por ano em investimento estrangeiro direto — proporção equivalente à registrada em 2011 —, que ele considera a peça central da meta;
- leilões de terras raras, lítio, grafite e outras concessões;
- “tesouraço”: corte de gastos que estima entre R$ 105 bilhões e R$ 143 bilhões por ano, vindo do fim do “novo Refis”, do combate a fraudes no INSS, da redução do número de ministérios e do fim da progressão automática de carreira no funcionalismo, entre outras medidas — sem mexer em salário, aposentadoria ou Bolsa Família.
Ao pacote, o empresário associa outras metas: levar a Selic a 10% em dois anos e a 8,8% até 2030; criar o “Dividendo Brasil”, pagamento anual a quem ganha até dois salários mínimos, financiado por dividendos de estatais e privatizações; e o programa “Nasce Livre”, que isentaria pequenas empresas de impostos nos dois primeiros anos de operação.
Procurada, a assessoria de imprensa da campanha de Flávio Bolsonaro não confirmou o recebimento das propostas até a publicação deste texto. O espaço segue aberto para manifestação.
VEJA TAMBÉM:
-

Eleitor cansado e sem partido deve decidir a eleição de 2026, apontam analistas
-

Ecossocialista do PSOL e militante do PT assumem Senado se Marina e Tebet forem eleitas e deixarem cargo

















Leave a Reply