O governo federal criou, em maio, o programa Move Brasil com autorização para destinar R$ 30 bilhões em financiamentos para motoristas de aplicativo e taxistas comprarem veículos novos. Pouco mais de três meses após a publicação da medida provisória que criou o programa, no entanto, a iniciativa enfrenta dificuldades para avançar.
Gerenciado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o programa prevê que as linhas de financiamento devem ser fornecidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ou por instituições financeiras por ele habilitadas, que assumirão os riscos das operações, incluído o risco de crédito.
O financiamento pode cobrir até 100% do valor do automóvel, com carência de seis meses e juros limitados a 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres — menos da metade da taxa média praticada pelo mercado para esse tipo de operação. Ainda assim, o programa vem patinando.
Em declaração ao Valor Econômico, Uallace Moreira, secretário Ministério do MDIC, disse que em dois meses o Move Brasil levou à comercialização 40 mil veículos. O valor total liberado foi de R$ 4 bilhões liberados – apenas 13,3% do previsto.
Segundo o governo, o programa – que deve vigorar até 15 de setembro – esbarra em reprovações na análise de crédito, gargalos operacionais e baixo interesse por parte de bancos privados. A iniciativa também têm sido criticada por favorecer veículos importados, sobretudo chineses.
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A Medida Provisória (MP) 1.359/2026, que criou o Move Brasil, tinha como objetivo declarado “apoiar os trabalhadores de mobilidade urbana”. A meta era recuperar o apoio dos motoristas de aplicativo, uma categoria com a qual Lula não conseguiu avançar em uma de suas principais promessas de campanha de 2022: a regulamentação do trabalho nos aplicativos de transporte.
Mas a política de crédito subsidiado para a compra de veículos teve uma série de obstáculos. O programa começou a operar sem o Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), mecanismo que reduz o risco dos bancos nas operações. O fundo só entrou em funcionamento em 2 de julho, duas semanas após o início do Move Brasil, em 19 de junho. Segundo o próprio governo, o atraso gerou insegurança entre as instituições financeiras e contribuiu para dificultar a operação da linha.
Além disso, da forma como foi formatado, o programa tende a favorecer fabricantes chinesas. Apesar de não restringir a participação a carros importados, o regulamento também não exige produção nacional. Com isso, podem ser financiados tanto veículos importados prontos quanto modelos montados no Brasil a partir de kits trazidos do exterior, como fazem a BYD e outras montadoras chinesas.
Outro ponto é que embora o programa tenha sido associado à possibilidade de atender motoristas com dificuldades financeiras, a participação no Move Brasil não elimina a análise de crédito feita pelos bancos.
“O programa não funcionou da maneira esperada pelo governo por uma sequência de motivos. Podemos começar pela falsa crença gerada de que haveria crédito para quem tinha nome sujo, o que não foi prometido de maneira explícita em nenhum momento, mas se deu a entender em muitas campanhas do programa”, afirma Samuel Barros, professor de Finanças do Ibmec.
Havia maneiras de melhorar o desempenho da ação, diz Barros. “O governo poderia incentivar a participação dos bancos privados por meio capital de baixo risco; movimentar um programa de regularização de CPFs, melhorando o crédito do motorista para o perfil do programa; separar a elegibilidade ao programa da aprovação do crédito de maneira clara e objetiva, evitando gerar falsas expectativas ao motorista; e, por fim, levar um programa de garantias mais robustas e antecipadas para o agente financiador, permitindo que clientes de risco mais elevado de crédito também pudessem ser aceitos”, avalia.
Restrição no CPF deixa maioria dos motoristas de fora do Move Brasil
Representantes do governo federal têm criticado a postura dos bancos privados, que não estariam concedendo os pedidos de financiamento no volume esperado. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou.
Para tentar destravar o programa, no dia 18 o governo publicou uma portaria aumentando o valor permitido de financiamento, que agora alcança até R$ 200 mil e inclui novos tipos de híbridos entre os modelos elegíveis.
A medida, entretanto, não fará efeito, na avaliação de Eduardo Lima de Souza, presidente da Associação de Motoristas de Aplicativo de São Paulo (Amasp), que representa aproximadamente 44 mil trabalhadores.
“Enquanto os bancos mantiveram o critério de barrar quem não tem o nome limpo, o limite pode aumentar para R$ 1 milhão, e ainda assim a classe não será beneficiada. O programa ajuda apenas aqueles motoristas que não precisavam dele. Quem realmente precisa ficou de fora. São as pessoas que não conseguem acessar crédito e, para poder atuar, se submetem a valores astronômicos em locações veiculares”, diz.
Segundo o presidente da Amasp, 92% da categoria tem restrições no CPF.
“Governo só dialoga com sindicalistas”, questiona motorista
Souza diz que o governo Lula não mostra disposição real em dialogar com os profissionais. “Uma forma efetiva de ajudar seria abrindo uma linha de financiamento para inadimplentes com a inclusão de uma exigência de que o motorista apresente pelo menos seis meses de pagamento em locação em dia”, diz.
O presidente da Amasp disse que enviou a sugestão ao Guilherme Boulos – ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, que conduziu o grupo de trabalho dentro do governo para a regulamentação dos aplicativos de transporte – e solicitou um encontro, mas nunca foi atendido.
“O Boulos até fala com alguns motoristas, mas é esporádico. Quem dialoga com ele são sindicalistas, que não são motoristas e não são vistos como representantes da classe dos motoristas”, afirma Souza. “Ele diz que em suas redes sociais que está conversando com os motoristas, mas os reais representantes não conseguem acesso”, prossegue.
Procurados, o MDIC e a Secretaria-Geral da Presidência não se manifestaram.
Programa repete baixa adesão do Voa Brasil e sofre perda de interesse
A “derrapagem” do Move Brasil se assemelha, em partes, ao Voa Brasil, outro programa visto como promissor pelo governo, mas que não decolou. Lançado em julho de 2024, o projeto oferecia passagens com desconto para aposentados do INSS que não tivessem viajado de avião nos 12 meses anteriores.
A iniciativa atingiu cerca de 52 mil bilhetes vendidos até o início de 2026, o que representou menos de 2% da meta inicial de três milhões de passagens anunciada pelo governo federal.
A perda de força do programa também aparece nas buscas dos brasileiros. O Google Trends, ferramenta que mede o interesse relativo por termos pesquisados no Google, mostra que o interesse pelo termo “Move Brasil” disparou na semana de 13 a 20 de junho, justamente no início da operação do programa, quando o índice atingiu seu pico de 100. A procura também teve uma alta expressiva nas semanas imediatamente anteriores, mas perdeu força rapidamente após o lançamento.
Desde o fim de junho, o interesse se manteve em patamar bem mais baixo. Em julho e agosto, o índice ficou na maior parte do tempo próximo de 20 a 30, indicando uma queda de cerca de 70% a 80% em relação ao pico registrado em junho. O dado não representa o número absoluto de buscas, mas mostra a perda de interesse relativo dos brasileiros pelo programa ao longo dos meses.
** Esta reportagem faz parte de uma parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends. A apuração é de responsabilidade exclusiva da Gazeta do Povo, sem qualquer interferência editorial do Google.

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