
Ao recorrerem a insultos contra Nikolas Ferreira (PL-MG), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a primeira-dama Rosângela “Janja” Lula da Silva deram ao jovem adversário uma prova pública e definitiva do dom dele de irritar a esquerda no geral e o casal presidencial, em particular.
O deputado mineiro – mais influente parlamentar do país nas redes sociais – conseguiu levar Lula e Janja a dedicar uma parte da agenda de entrevistas e comícios da campanha eleitoral a responder às publicações dele. A reação, contudo, só transformou a Presidência em amplificador de quem a desafia.
O choque de lados opostos em trajetórias e formas de exercer influência política e partidária revelou também uma mudança no horizonte geracional do poder. Lula domina há décadas o campo progressista, escorado e escorando PT, partidos auxiliares, sindicatos, ONGs e máquinas de governo.
Nikolas é o mensageiro de uma emergente era, representando uma direita que constrói liderança pela comunicação direta nas plataformas digitais. Sua vantagem está em converter declarações polêmicas e desgastes de Lula, seu governo e aliados em mensagens simples, compartilháveis e mobilizadoras.
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Fala polêmica de Lula ajudou Nikolas a desgastar a imagem do presidente
A mais nova investida potente de Nikolas contra a imagem pública de Lula teve o seu estopim na comparação infeliz feita pelo presidente em Belém, na segunda-feira (28), ao tratar da resistência masculina ao exame de próstata, afirmando que as mulheres recebem toque “desde pequenas”.
A formulação abriu espaço para Nikolas explorar uma conotação sexual que o presidente negou. Segundo o petista, o contexto tratava da maior familiaridade das mulheres com exames preventivos. A declaração ocorreu durante um discurso em que o presidente defendia a prevenção do câncer de próstata e comentava a realização da primeira cirurgia robótica desse tipo no Pará.
Em Salvador, no dia seguinte, Lula chamou o deputado de “canalha”. Janja, por sua vez, o apelidou de “piá de b****”. Em Patos de Minas, o ofendido agradeceu o ataque da primeira-dama, visto como elogio.
O problema político dos xingamentos está no descompasso entre intenção e resultado. Janja tentou diminuir Nikolas, mas apenas lhe garantiu a reação que ajudou a prolongar a controvérsia e expôs o ponto fraco dos ofensores. Os palavrões geraram mais publicações e deram mais visibilidade às críticas.
A disputa também chegou à Justiça. Na quarta-feira (30), a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou tirar do ar a publicação de milhões de visualizações na qual Nikolas critica Lula, por considerar que ela descontextualizava a fala e vinculava o presidente a crimes contra crianças.
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Do Pix às ruas, o papel de Nikolas é transformar atenção em força eleitoral
A dimensão digital de Nikolas Ferreira, de 29 anos, deputado mais votado no país em 2022, com cerca de 1,5 milhão de votos, explica o incômodo de Lula e do PT com ele, que parece ter atingido o seu auge. O mineiro tem 22,3 milhões de seguidores no Instagram, contra 15,6 milhões de Lula.
Não é de hoje que a influência de Nikolas na internet é uma dolorida pedra no sapato dos petistas, particularmente do líder maior deles. Exemplo disso veio em janeiro de 2025, quando um vídeo do deputado sobre a fiscalização do Pix atingiu 300 milhões de visualizações e forçou Lula a revogar a medida.
Nikolas também transportou essa capacidade de mobilização para fora das telas. A caminhada de 240 quilômetros entre Paracatu (MG) e Brasília, em janeiro deste ano, para defender os perseguidos do 8 de janeiro, produziu uma série de acontecimentos para redes, combinando os mundos físico e digital.
Além de impor frustrações a planos de governo e expor contradições de Lula em vídeos virais de “fundo preto e camiseta preta”, Nikolas explodiu a irritação petista ao mobilizar a votação de seu estado para Flávio Bolsonaro (PL). “O presente é deles, o futuro é nosso”, diz o proativo mantra dele.
Aquele que já não se pode ignorar pode ter dado a vitória ao rival do presidente. Afinal, diz a lenda que as urnas mineiras definem o plano nacional. Para completar, Nikolas também segue trabalhando para eleger a sua própria bancada de deputados e senadores em todas as unidades da Federação.
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