
Uma cadeira vazia provocou o acontecimento mais relevante da vida pública brasileira nos últimos anos. A normalização de uma série de desvios pareceu, pelo menos por um momento, ter seu status quebrado. Não se sabe ainda se foi um despertar ou apenas um acidente de percurso.
A decisão que proibiu a TV Globo de mostrar o lugar vazio de Lula no debate entre os presidenciáveis é inédita. Em oposição ao que previam as regras do debate — assinadas por todos os participantes com a emissora —, a autoridade eleitoral decidiu que o púlpito sem o candidato do PT não poderia ser exibido durante a transmissão. E também não poderiam ser dirigidas perguntas pelos concorrentes a Lula — o que era igualmente previsto pelas regras assinadas, em caso de ausência de algum dos participantes.
A decisão da autoridade eleitoral seguiu outros princípios — no terreno da exposição abusiva do candidato ausente e da exploração da sua impossibilidade de defesa. Talvez fossem questões a se considerar no processo de elaboração das regras. Mas esse processo já estava concluído e assinado. Por considerar que a decisão da autoridade eleitoral feriu seus direitos, a TV Globo decidiu cancelar o debate presidencial.
A reação da chamada grande imprensa se deu em uníssono nessa mesma direção. E o resultado das urnas de primeiro turno também parece ter a ver com isso — quando se trata de reação a abusos institucionais. Seguem alguns dos termos utilizados pelos veículos da mídia tradicional para repudiar a decisão que atingiu a Globo:
“Intervenção judicial em regras do debate da Globo”. (G1)
“Ataque de juízes prejudica neutralidade da eleição”. (Folha de S. Paulo)
“A decisão de Estela Aranha proíbe que os candidatos façam perguntas a Lula, que estará ausente, interferindo diretamente nas regras estabelecidas”. (Metrópoles)
“Decisão de Estela Aranha que impôs censura em debate da TV Globo é inédita”. (O Globo)
“O último debate eleitoral no Brasil foi cancelado devido a ‘interferência indevida’ do Judiciário” (Agência EFE)
“Manobras no STF deixam recado: fechem o TSE; o que importa é ter ministro favorito”. (O Estado de S. Paulo)
“Sem liberdade não há debate”. (O Globo)
“Nosso dever é o de promover a democracia, mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais”. (TV Globo)
“Alas do STF e TSE escancaram decisões pró-Lula”. (CNN Brasil)
“Juízes fazem o diabo para ajudar Lula”. (O Estado de S. Paulo)
Como se pode notar, a imprensa não se limitou a noticiar em manchete o ocorrido. Não só recheou a notícia com a crítica, como não economizou na expressão do repúdio. Para uma mídia que, nos últimos anos, andou tratando crítica ao poder como “narrativa antiestatal”, não é pouca coisa.
Não foram poucos os momentos, na história recente, em que a imprensa confundiu repúdio a abusos de poder com ataque à democracia
Pois aí estão vários dos maiores veículos de comunicação do país diagnosticando como abusiva uma decisão de Estado que beneficia o grupo político governante. E alertando para o comprometimento da liberdade e da democracia.
Sem dúvida, um momento de altivez da imprensa brasileira. Só falta ela comparar o caso que considerou abusivo e perigoso para a democracia com tudo que o país tem vivido nesta década.

















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