
A eleição de 1989 foi histórica no Brasil. Era a primeira eleição direta, na recém-estabelecida democracia, depois de mais de 20 anos de ditadura militar. Aquela eleição marcou o fim de uma era e o início de um arranjo de poder que durou até este domingo.
Lá em 1989, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) elegeu 120 deputados, capturando o espírito daquele momento e inaugurando uma nova quadra política. Ali, no amanhecer da Constituição de 1988, nasceu um arranjo político-partidário que deu fim ao bipartidarismo da ditadura militar e durou até 4 de outubro de 2026.
Era um arranjo que tinha o PT na esquerda, uma esquerda sindical e universitária, artística e intelectual (que Roberto Campos chamaria de “o partido dos trabalhadores que não trabalham, dos estudantes que não estudam e dos intelectuais que não pensam”). O PTB e o PDT, herdeiros de Getúlio Vargas e Leonel Brizola, disputavam o sindicalismo e completavam a esquerda trabalhista. O PSDB incorporava uma dissidência de centro-esquerda social-democrata. O PMDB era o centro por excelência. Para a direita, o PFL ocupava o espaço da centro-direita e o PDS (depois PP) herdava da Arena a representação de direita.
O PL elegeu 121 deputados. Mais do que o PMDB em 1989. É uma vitória tão acachapante que marca, como aquela marcara, o fim de uma era e o nascimento de outra
Pois esse arranjo já vinha se esfarelando no Brasil. O PFL acabou; o PP virou um partido de Centrão, com uma característica no Nordeste e outra totalmente diferente no Sul e Sudeste; o PMDB, agora MDB, definhou aos poucos; e o PSDB acabou com Aécio Neves e, depois, com João Dória. Surgiram o PSD e o União Brasil, engrossando o Centrão que Gilberto Kassab definiu como “nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”.
Neste domingo, o PL elegeu 121 deputados. Mais do que o PMDB em 1989. É uma vitória tão acachapante que marca, como aquela marcara, o fim de uma era e o nascimento de outra.
O PL virou o grande partido de direita do Brasil. Se até domingo ele era um híbrido do antigo PL de Valdemar Costa Neto (que dera o primeiro vice-presidente de Lula, José Alencar) e do novo de Jair e Flávio Bolsonaro, após a eleição não há dúvidas: o PL que venceu é o que tem posição ideológica, que escolheu um lado e que defendeu posições de direita. Valdemar, outra vez, será capaz de se transformar e de se adequar para não perder o poder sobre a própria legenda, mas ela terá um novo equilíbrio interno.
Inicia-se um novo ciclo político no Brasil, que terá um novo arranjo. Por quanto tempo durará, ainda não se sabe. Ao menos em seu início, a esquerda ainda é concentrada no PT, mas com o Psol assumindo a vanguarda junto à juventude, já que o envelhecimento do discurso sindical petista deu espaço para a nova esquerda woke das pautas sociais radicalizadas.
Pela direita, o PL conseguiu amalgamar o bolsonarismo, sim, mas não só ele. Há um erro de análise cometido pela esquerda e pela mídia quando consideram que “o bolsonarismo” venceu a eleição. Na verdade, o bolsonarismo é parte, mas não o todo, dessa direita que foi às urnas no domingo.
A ele se somam eleitores de direita que não se consideram bolsonaristas, e que talvez até preferissem outro candidato para o campo político – mas que preferiram votar em Flávio a correr o risco de ver Lula vencer o primeiro turno. Somam-se também eleitores que, sem identificação ideológica clara, escolheram pôr fim à era PT, por insatisfações variadas e amplas (desde a promessa da picanha até o endividamento das famílias).
De todo modo, o PL conseguiu tornar-se o grande centro gravitacional da oposição ao PT. A essa direita nova, e à esquerda transformada, soma-se o Centrão de PSD, MDB, União Brasil e PP.
Se não houver um novo governo, teremos um presidente da República da era passada, um Congresso em transformação, e um Judiciário em retrocesso
O país verá, portanto, por um bom tempo, um espectro político reorganizado entre direita, esquerda e Centrão. Este último operará como fiel da balança, e aderirá ao governo sempre, em qualquer circunstância, mas não a qualquer preço. Custará caro, como sempre. O país pagará alta conta – orçamentária, digo – para ter uma maioria plena e consolidada na Câmara, já que os 121 deputados do PL, embora sejam um número histórico, não são suficientes para chegar à maioria parlamentar necessária para aprovar as reformas de que o país precisa.
A eleição de 25 de outubro, portanto, é a que mais importa. Dela resultará a continuidade de um projeto ou a possibilidade de que um novo governo, atendendo ao chamado do seu tempo, possa reformar o Brasil. Esse foi, acima de tudo, o recado das urnas no domingo passado. Os brasileiros querem um novo tempo. Votaram dizendo isso. Se no dia 25 essa tendência se confirmar, estaremos diante de uma nova era para a política brasileira.
Se não houver um novo governo, teremos um presidente da República da era passada, um Congresso em transformação, e um Judiciário em retrocesso. Uma receita que nunca pode acabar bem. De novo, e ainda bem, o destino do país está nas mãos dos eleitores.

















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