Já me perguntaram como pode um professor de Filosofia não ser de esquerda. A pergunta supõe que o diploma veio com ficha de filiação.

Voltei a essa pergunta ao ler, no Intercept Brasil, a análise de Camila Galetti sobre as antifeministas eleitas no domingo. Seis eleitas do PL somaram mais de 6,5 milhões de votos. A mulher mais votada para a Assembleia Legislativa paulista, com quase 2 milhões, se define como antifeminista. A autora resume o incômodo: “a explosão de votos ficou com candidatas que atacam justamente o movimento que abriu a porta para elas entrarem na política”. Li ali uma suspeita da mesma família da pergunta que me fizeram: quem pensa fora do esperado precisa de uma explicação que venha de fora.

Há verdade no incômodo. Melhor dizê-la antes de discordar: sem a luta sufragista não haveria voto feminino; sem voto, não haveria candidata. O texto, além disso, tem cuidados que eu não esperava. Reconhece que elas “têm o direito de discordar do feminismo” e chama de incompleta a leitura de que as eleitoras “estão votando contra si mesmas”.

O argumento central vem em duas frases: “Elas usam a própria presença como prova de que o feminismo é desnecessário. A existência delas, porém, só é possível por causa do que o feminismo conquistou”. Contra quem usa a presença como prova, procede. A genealogia, porém, não decide nada sobre o que elas defendem agora. Usar um direito não obriga a concordar com quem o conquistou: o título de eleitor não traz cláusula de reconhecimento de dívida; a liberdade religiosa, conquistada por crentes perseguidos, serve hoje ao ateu sem que lhe exijam o batismo.