Os três estados em que governadores do PT foram reeleitos no primeiro turno — Bahia, Ceará e Piauí — representam os principais redutos do lulopetismo no Nordeste.
Os números da eleição mostram que, apesar do avanço de Flávio Bolsonaro em todos os estados nordestinos e do acirramento da disputa na região, o enraizamento da base petista nos três estados permanece profundo.
Com características específicas em cada um, o fenômeno vai além da memória dos benefícios sociais e reproduz relações de clientelismo que ajudam a explicar a falta de alternância de poder.
André Mota, cientista político, parte da análise dos benefícios sociais. “As políticas públicas implementadas foram a condição inicial que abriu portas a partir de 2006, com o Bolsa Família atingindo quase metade das famílias nordestinas e criando um vínculo direto entre o eleitor mais pobre e o governo federal petista”, afirma.
Além disso, segundo ele, existe o fator Lula. “No Nordeste, o voto é lulista antes de ser petista. É uma identificação de origem e trajetória nordestina com a avaliação pessoal de Lula.”
Essa dimensão de identidade e memória social cria, segundo Paulo Ramirez, professor da ESPM, uma “dívida eleitoral”. “A memória e a identidade permanecem no imaginário do eleitorado”, diz. “Existe uma dívida ‘simbólica’ do que representa um político para a vida de um indivíduo que, de repente, começou a ter água encanada, acesso à alimentação.”
Adriano Oliveira, professor e analista eleitoral da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), destaca outros fatores. “São redutos fortes, são redutos fortes do petismo, mas tem algo a mais”, diz.
Para ele, a permanência do PT no poder contribui para a construção de estruturas políticas capazes de perpetuar sua base eleitoral. “O governo do PT está há muito tempo no poder. Quando isso acontece, ele constrói estruturas que permitem a estabilidade e a conquista do eleitorado. O cenário acaba cristalizado”, explica.
Bahia: hegemonia petista consolidada
Na Bahia, a hegemonia petista chega ao sexto mandato consecutivo no governo estadual, que o partido comanda desde 2007. Jerônimo Rodrigues (PT) foi reeleito no primeiro turno com 4,62 milhões de votos, ou 55,79% dos votos válidos, contra 3,62 milhões de ACM Neto (União Brasil), que obteve 43,72%, uma diferença de 12,07 pontos percentuais.
A disputa foi mais acirrada do que nas eleições anteriores. Depois de perder para Jerônimo Rodrigues em 2022, o ex-prefeito de Salvador apostou no desgaste de quase duas décadas de governos do PT, concentrando os ataques na gestão estadual e, sobretudo, na segurança pública.
A vantagem de Jerônimo ainda foi menor do que a obtida por Rui Costa (PT) em suas duas eleições para o governo. Em 2014, Rui venceu Paulo Souto (então filiado ao Democratas) no primeiro turno com 54,53% contra 37,39%. Quatro anos depois, Costa ampliou a margem e chegou a 75,50% dos votos válidos, contra 22,26% de Zé Ronaldo (Democratas).
Já em 2022, Jerônimo precisou do segundo turno: terminou a primeira etapa com 49,45%, contra 40,80% de ACM Neto, e venceu a disputa com 52,79% contra 47,21%.
Para o professor da ESPM, a Bahia é um dos melhores exemplos da construção dessa rede política pelo PT. “Considerando a região, as regiões mais pobres também, houve mudanças significativas no nível de vida”, afirma. Ao mesmo tempo, segundo ele, o fato de muitas cidades serem menores favorece um contato mais próximo e direto entre os políticos e seus eleitores.
Ramirez relaciona a perda desse contato com a periferia e com os grupos de base social ao enfraquecimento do próprio PT em outras regiões. “Na Bahia, essa proximidade contribuiu para preservar a força eleitoral do partido”, diz. “São políticos mais presentes no cotidiano do eleitorado.”
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Caso Master não abalou força eleitoral
O caso do Banco Master acrescentou uma nova frente à campanha baiana ao atingir os dois grupos: Jaques Wagner (PT) e integrantes de seu entorno foram colocados sob pressão pelas investigações.
Por sua vez, ACM Neto passou a ser questionado pelos R$ 3,6 milhões recebidos do banco e da Reag por sua empresa, pagamentos que afirmou serem legais e referentes a serviços de consultoria. Wagner também negou qualquer irregularidade.
A temperatura da disputa foi alta. ACM chegou a aparecer numericamente à frente em pesquisas de setembro, mas não conseguiu capitalizar o desgaste.
Rui Costa e Jaques Wagner foram eleitos para as duas cadeiras na disputa ao Senado. Rui recebeu 4,33 milhões de votos, 30,06% dos válidos, e Wagner, 3,99 milhões, 27,65%. Os dois ficaram à frente de Angelo Coronel (Republicanos), com 20,11%, e João Roma (PL), com 19,97%.
Ceará tem especificidade com Ciro Gomes
Entre os três estados, o Ceará teve a disputa mais apertada. Elmano de Freitas (PT) foi reeleito no primeiro turno com 53,19% dos votos válidos, contra 46,22% de Ciro Gomes (PSDB), uma diferença de 6,97 pontos percentuais. Com o resultado, o PT chega ao quarto mandato consecutivo no governo estadual.
A eleição, porém, esteve longe de ser tranquila para o grupo petista. Ciro voltou ao estado onde construiu sua carreira política após quatro derrotas em eleições presidenciais e reuniu uma frente de oposição com União Brasil, PP e PL.
No primeiro Datafolha após as convenções, Ciro aparecia com 52% das intenções de voto, contra 33% de Elmano. A vantagem caiu para nove pontos no início de setembro e chegou a sete na pesquisa divulgada em 23 de setembro, com Ciro em 47% e Elmano em 40%.
Na reta final, Elmano conseguiu virar a disputa. A associação com Lula foi um dos elementos da campanha petista, enquanto Ciro concentrou parte de seus ataques na segurança pública. O resultado também expôs a força da estrutura política construída pelo grupo que governa o estado há 12 anos.
Para Paulo Ramirez, professor da ESPM, o Ceará tem uma particularidade justamente por haver outras forças políticas tradicionais, como a família Gomes. “Mas a gente viu a derrocada do Ciro Gomes, talvez por alguma aliança um tanto tímida com grupos mais conservadores. Eu chamaria atenção mais para essa especificidade cearense”, diz.
Para Adriano Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o cenário é tão cristalizado quanto o da Bahia. “O grupo governista chegou à eleição depois de 12 anos no comando do estado, além de manter influência sobre a política de Fortaleza.”
O resultado para o Senado também mostrou a força de Cid Gomes, irmão e adversário de Ciro. Cid foi reeleito pelo PSB com 31,22% dos votos.
Piauí: caso emblemático de “partido-estado”
Para André Mota, o Piauí representa o exemplo mais acabado da estrutura política construída pelo PT nos estados. Rafael Fonteles (PT) foi reeleito no primeiro turno com 70,90% dos votos válidos, contra 27,54% de Joel Rodrigues (PP).
O resultado garantiu ao PT mais quatro anos no governo e o quarto mandato consecutivo do partido no estado desde 2015. Fonteles já havia vencido a eleição de 2022 no primeiro turno, com 57,17% dos votos.
Joel Rodrigues foi apoiado pelo senador Ciro Nogueira (PP), uma das principais lideranças políticas do estado. Mas a campanha não conseguiu transformar a disputa em uma ameaça real ao governador petista. Na última pesquisa Datafolha antes da eleição, Fonteles tinha 67% dos votos válidos, contra 28% de Joel.
Para Motta, o Piauí é o “caso mais puro de partido-estado”, em que a máquina pública e o instrumento eleitoral de um governo passam a formar uma estrutura única, capaz de perpetuar o grupo político no poder.
“É o estado mais dependente do Fundo de Participação dos Estados (FPE) no Brasil e não há uma elite econômica independente em Teresina capaz de financiar uma oposição”, diz.
Paulo Ramirez acrescenta outro componente, ligado à memória dos benefícios associados às administrações petistas. Ao comparar o Piauí e o Ceará, afirma:
“Piauí e Ceará foram estados que tiveram benefícios, né, com a transposição do Rio São Francisco, com os programas sociais, energia elétrica. Então, obviamente, esses benefícios garantem a perpetuação do poder”, conclui.
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