
Quando começou a traduzir a Bíblia do grego para o português, o classicista Frederico Lourenço, professor da Universidade de Coimbra e tradutor da Ilíada e da Odisseia, previa dois finais possíveis para o trabalho. Ou se tornaria ateu, coisa que nunca tinha sido, ou voltaria à Igreja Católica, da qual se afastara em 1998. Quase dez anos e seis volumes depois, o trabalho o levou de volta à missa. Lourenço traduziu tudo sozinho, num mercado em que as Bíblias costumam sair de projetos coletivos, e usou como base do Antigo Testamento a versão grega lida pelos primeiros cristãos.
Em 2003, o jesuíta Johan Konings, coordenador da tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), contou cerca de vinte versões completas da Bíblia em uso corrente no país. Ele atribuiu a fartura a um hábito do catolicismo nacional, que nunca teve uma tradução padrão: o costume foi “cada editora ter a sua Bíblia”. A própria CNBB publicou uma tradução em 2001 e lançou outra, oficial, em 2018. A Sociedade Bíblica do Brasil apresentou em 2017 mais uma revisão do texto de João Ferreira de Almeida, do século XVII.
Quase todas essas Bíblias saem de comissões ligadas a igrejas. A Tradução Brasileira de 1917, a primeira feita no país, consumiu quinze anos de trabalho de um grupo de especialistas que teve Rui Barbosa entre os consultores. A de Lourenço tem um único tradutor e foi publicada por editoras comerciais, a Quetzal em Portugal e a Companhia das Letras no Brasil. Desde a introdução do primeiro volume, ela se apresenta como leitura sem propósito doutrinário ou confessional. O pesquisador Anderson de Oliveira Lima, que estudou a obra num pós-doutorado na USP, considerou esse perfil raro na história do livro e a chamou de “Bíblia laica”. O primeiro volume vendeu mais de 20 mil exemplares em Portugal em menos de seis meses, e o tradutor recebeu o Prêmio Pessoa de 2016.
A Bíblia que os primeiros cristãos liam
No Antigo Testamento, que católicos e protestantes traduzem a partir do hebraico, Lourenço preferiu a Septuaginta. Essa versão grega, feita por judeus de Alexandria a partir do século III a.C., serviu de Escritura às primeiras comunidades cristãs e é a fonte da maioria das citações do Antigo Testamento feitas no Novo. Ao jornal português Observador, ele afirmou que o cristianismo nasceu da Septuaginta e não da Bíblia hebraica, algo que, segundo ele, muita gente prefere ignorar.
No livro de Amós, a versão grega traz a palavra khristós (ungido) num versículo em que o hebraico não menciona figura messiânica nenhuma. A Septuaginta também inclui livros ausentes dos cânones atuais, como a Epístola de Jeremias e o episódio de Bel e o Dragão.
Ao verter Homero, Lourenço quis deixar o português o mais bonito possível. Com a Bíblia, abriu mão disso. Na avaliação dele, os Evangelhos já têm beleza própria, e os livros menos literários do Antigo Testamento ficaram como são. O objetivo era que um estudante de teologia com algum grego pudesse pôr o original ao lado e acompanhar frase por frase. O hoje cardeal José Tolentino Mendonça elogiou o primeiro volume ainda em 2016, enquanto o frade capuchinho Herculano Alves, professor de Sagrada Escritura na Universidade Católica do Porto, questionou que alguém sem formação teológica traduzisse o livro da fé de um povo.
Cinco da manhã, grego numa tela, hebraico na outra
Lourenço teve um único semestre de licença sabática desde 2016, quando começou a empreitada. Trabalha diante de um monitor grande, com o texto grego e o hebraico abertos ao mesmo tempo, embora admita não ser especialista em hebraico. As edições de referência, diz, qualquer um compra pela internet. Lima apontou que a usada para o Antigo Testamento foi a edição crítica de 1935, e não a revisão de 2006.
Lourenço começou pelos Evangelhos, passou pelo restante do Novo Testamento e abriu o Antigo pelos profetas, a partir de Amós, que considera o livro mais antigo da coleção. Os Salmos o decepcionaram, porque em grego lhe pareceram muito inferiores à versão latina de São Jerônimo, que ele continua preferindo. Josué, o livro de que menos gosta em toda a Bíblia, ele terminou de traduzir sem vontade de reler.
Natal de 2024, em Roma
Lourenço temeu virar ateu no meio do caminho, quando saiu desanimado do volume dedicado às cartas de Paulo e atravessou com dificuldade os livros históricos e sapienciais. O Pentateuco, que deixou para o fim, era a parte que mais temia, cheia de condenações à morte por infrações rituais. Obrigado a traduzir cada palavra de Levítico, Números e Deuteronômio, concluiu que aquelas leis faziam sentido no tempo em que foram escritas e nenhum hoje. Lembrou que Jesus citou de Levítico um único versículo, o do amor ao próximo.
No dia 25 de dezembro de 2024, ele estava em Roma e não ia à missa de Natal havia mais de vinte anos. Sentiu um vazio que o fez prometer a si mesmo que aquele seria o último Natal assim. Foi à missa dois dias depois. Começou 2025 numa celebração no seminário de Coimbra e, depois de seis meses de conversas com o reitor, o padre Nuno Santos, voltou a comungar em 1º de junho, domingo da Ascensão. “Deus andou atrás de mim durante uns anos e agora apanhou-me”, resumiu ao Observador. Hoje diz dar à leitura teológica peso igual ou maior que ao método crítico-histórico que orientou toda a tradução.
O tomo de Ester e Macabeus
O sexto volume, com o Pentateuco, chegou às livrarias portuguesas em novembro de 2025. Falta o segundo tomo do quinto, com seis livros históricos, entre eles Ester e Macabeus. Lourenço inverteu a ordem por um motivo que explicou ao Diário de Notícias: “Seria uma pena se morresse sem ter traduzido a parte mais importante do Antigo Testamento”. No Brasil, a Companhia das Letras publicou os quatro primeiros volumes, o último deles em 2024, e não respondeu se pretende lançar os dois restantes.
João Ferreira de Almeida, autor da primeira tradução da Bíblia para o português, morreu em 1691 depois de chegar até Ezequiel, capítulo 48, verso 21. Um colega holandês concluiu o trabalho, e a Bíblia completa só saiu em 1753. Lourenço promete e espera terminar o tomo pendente. Para a Septuaginta, diz esperar que outros façam uma versão melhor e mais anotada, talvez bilíngue. A sua própria tradução ele nunca lê, porque lê a Bíblia em grego ou latim. Quando precisa consultá-la para uma conferência, encontra frases que mudaria, sobretudo nas cartas de Paulo, que talvez ainda revise um dia.

















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