Receber R$ 350 milhões para divulgar uma casa de apostas deveria provocar uma pergunta muito simples: de onde vem esse dinheiro? Casa de apostas não imprime dinheiro. Ela movimenta dinheiro. Se uma empresa consegue pagar centenas de milhões de reais para associar sua marca à imagem de uma celebridade, esse dinheiro precisa sair de algum lugar.

E, na outra ponta dessa equação, existem milhões de pessoas colocando dinheiro em apostas. Muitas delas perdendo. É justamente por isso que eu critico as bets. Existe uma pergunta que precisa ser feita com a mesma honestidade: se o problema é o dinheiro que as pessoas perdem apostando, o que dizer das apostas promovidas pelo próprio governo? Afinal, o Estado também vende apostas.

Mega-Sena, Quina, Lotofácil, Lotomania e tantas outras modalidades fazem parte do cotidiano dos brasileiros. São apostas legalizadas, administradas por instituições autorizadas pelo próprio poder público e que geram arrecadação para o Estado. Então precisamos separar duas coisas. Eu não defendo as bets. Mas também não acho coerente tratar a loteria estatal como se ela fosse uma atividade completamente diferente, moralmente superior.

Existem diferenças importantes entre elas, e vou chegar a elas. Mas primeiro precisamos reconhecer o que existe em comum. Em todos esses casos, uma pessoa coloca dinheiro em risco na expectativa de receber um prêmio diante de um resultado incerto. A Organização Mundial da Saúde inclui loterias, apostas, jogos e cassinos no universo dos transtornos relacionados ao jogo. Ou seja, o simples fato de uma aposta ser oferecida pelo Estado não elimina os riscos associados ao comportamento de apostar.