
Houve um tempo, e não faz tanto assim, em que boa parte da imprensa dava o bolsonarismo por morto e encomendava missa de sétimo dia a cada inquérito aberto em Brasília. O defunto, porém, insiste em levantar do caixão para votar. Flávio Bolsonaro fechou o primeiro turno com 47% dos votos válidos, pouco mais de 56 milhões de brasileiros, contra 45% de Lula, placar que contrariou com folga o cenário desenhado pelas pesquisas na reta final. Os institutos que expliquem a diferença com a margem de erro; o eleitor explicou a dele na urna.
O patriarca, condenado pelo Supremo e inelegível, acompanhou a noite sob custódia do Estado. Mesmo assim, o PL elegeu 19 senadores e terá, em 2027, a maior bancada da Casa. A propalada agonia do movimento, se é que houve, virou convalescença robusta. O fenômeno mais revelador, entretanto, morava no andar de baixo da cédula. Ali, dois rapazes na casa dos trinta anos implodiram a contabilidade eleitoral do país.
Nikolas Ferreira, 30, filho de pastor evangélico de Belo Horizonte, passou dos três milhões de votos em Minas Gerais e mais que dobrou a marca de 2022, quando já fora o deputado mais votado do Brasil. Lucas Pavanato, 28, fechou a apuração paulista com 3.038.438 votos: a maior votação para deputado federal da história de São Paulo, quase o dobro do obtido por Erika Hilton. O recorde anterior, de Eduardo Bolsonaro em 2018, girava em torno de 1,84 milhão e parecia um teto. Virou rodapé.
Vale olhar com vagar para o que se formou ali. Os gregos chamavam de efebos os jovens que, ao chegar à idade cívica, juravam fidelidade à pólis, e a palavra serve bem ao que desponta na direita brasileira: uma efebocracia conservadora, gestada menos nas cátedras do que nos púlpitos e nas telas de celular.
Se essa geração pretende durar mais que um ciclo de algoritmo, fará bem em lembrar a velha advertência de Olavo de Carvalho: vitória política sem lastro cultural se desfaz no primeiro vento
Nikolas cresceu na igreja do pai e fez da fé um idioma político inteligível para uma juventude que a universidade passou décadas tratando como matéria-prima da revolução. Pavanato, por sua vez, saiu de uma suplência estadual com 36 mil votos em 2022, tornou-se o vereador mais votado do país em 2024 e foi lançado pelo PL, como a versão paulista da receita mineira. O parentesco entre os dois é de método: ambos falam uma gramática de testemunho e comunidade que a direita tradicional jamais aprendeu a conjugar. Os tucanos, coitados, ainda procuram o manual.
Existe, contudo, um precedente que deveria tirar o sono da dupla. Em 2002, Enéas Carneiro passou de um milhão e meio de votos em São Paulo e, pela mecânica do quociente, arrastou para Brasília correligionários que mal haviam convencido a própria família, um deles com poucas centenas de votos. O Prona virou anedota antes de o mandato terminar.
A conta, desta vez, é simples. Com 23,7 milhões de votos válidos para 70 cadeiras, o quociente paulista ficou perto de 338 mil; Pavanato reuniu sozinho quase nove deles. Em Minas, se a régua repetir os 211 mil da eleição passada, os votos de Nikolas bastam para mais de dez vagas. E cada nome que atravessar a porta aberta por eles será, aos olhos do eleitor, assinatura deles.
Aí mora a responsabilidade, que pesa mais do que qualquer recorde. Um movimento que sobreviveu à prisão do fundador, ao cerco togado e à unanimidade das redações precisa agora do que engajamento nenhum fabrica: gente capaz de legislar, relatar orçamento e negociar com o Centrão sem voltar para casa convertida em Centrão.
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Três milhões de votos compram atenção; competência se compra em outra loja. A tribuna da Câmara, aliás, costuma ser impiedosa com quem a confunde com um vídeo de quinze segundos. Pavanato, que já prometeu suar em dobro por Flávio no segundo turno, terá de suar mais ainda a partir de fevereiro, quando a militância de rede esbarrar na liturgia do regimento interno.
Se essa geração pretende durar mais que um ciclo de algoritmo, fará bem em lembrar a velha advertência de Olavo de Carvalho: vitória política sem lastro cultural se desfaz no primeiro vento. E lastro, convenhamos, leva mais que uma campanha para ser erguido.
Em Atenas, o jovem prometia devolver à cidade uma pátria maior do que a recebera. Nikolas e Pavanato, os rapazes dos três milhões, herdaram um movimento que muitos davam por enterrado e que hoje depende deles tanto quanto do sobrenome que o fundou.
Talvez seja esse o dado mais desconfortável da noite para a própria família Bolsonaro: liderou o primeiro turno e descobriu, de brinde, que os dois herdeiros mais votados do bolsonarismo não se chamam Bolsonaro. Que o diga Eduardo, cujo recorde de 2018 hoje cabe com folga no bolso de um vereador paulistano.
Marcos Paulo Candeloro, é graduado em História (USP), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR).

















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