
Há um momento, no livro X das Confissões, em que Agostinho, depois de revolver a vida inteira como quem desencrava uma flecha do peito, deixa escapar aquele suspiro que atravessa os séculos: Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei. A frase, lida apressadamente, parece a confissão de um atraso. Lida com a calma que ela merece, é outra coisa.
É a constatação de que, durante todos os anos em que o autor andara perseguindo as criaturas, atrás de mulheres, livros e todas as glórias desta cidade, alguém o aguardava na sala íntima da sua própria alma. Tu autem eras interior intimo meo. Não estava no fim de uma estrada, nem no topo de uma escada. Estava dentro, à espera de um homem que se ocupava ferozmente de fugir de si.
Esta é a fotografia mais exata do amor de Deus pelos homens: alguém que, sem deixar o seu posto, espera por quem passa a vida correndo na direção contrária. E a fotografia, examinada com sobriedade, não comove apenas. Escandaliza.
Toda a tradição cristã, dos Padres da Igreja aos teólogos modernos, repete a mesma frase com palavras diferentes, e a frase é esta: o homem não merece o amor de Deus. Não é piedade autodepreciativa. É constatação metafísica. Tomás de Aquino, num dos passos mais densos da Summa (I, q. 20, a. 2), inverte de uma vez por todas a operação sentimental do amor humano.
Entre nós, amar é reação: a mulher é boa, bela, simpática e empática, e a vontade responde àquilo que percebe. O amor de Deus opera ao contrário. Amor Dei est infundens et creans bonitatem in rebus. Não amamos as coisas porque Deus as fez boas; Deus as faz boas porque as ama. A bondade não precede a graça, e sim decorre dela. Tudo o que em nós merece um olhar amoroso é, antes de qualquer mérito, efeito desse olhar.
Quem compreende este parágrafo de São Tomás de Aquino compreende, de uma vez, o cerne do escândalo. O amor divino não obedece à lógica do mercado nem à da meritocracia. Não calcula, não pesa, não barganha. Não há cotação possível para uma transação em que uma das partes oferece o próprio Verbo encarnado e a outra, num bom dia, atenção distraída.
Hoje estarás comigo no paraíso. Esta é, em última instância, a frase mais inverossímil já pronunciada por boca alguma. Quem a ouve sem estremecer não a compreendeu. Quem a compreendeu não recupera mais a serenidade burguesa de quem julga ter pago suas contas
São Bernardo de Claraval, num pequeno tratado que leva o título Sobre o Amor a Deus, formulou o que talvez seja o aforismo mais incômodo da teologia ocidental: causa diligendi Deum, Deus est; modus, sine modo diligere. A causa de amar a Deus é Deus; o modo é amar sem modo.
Sem medida. Sem termômetro. Sem aquela contabilidade burguesa que entra nas relações humanas pela porta dos fundos e termina por arruinar tudo o que toca. O Deus que se revela à tradição cristã não tem moderação no afeto. Ama com uma desproporção tão absoluta que, para os olhos modernos, treinados em equivalências e contratos, parece exagero, parece imprudência, parece, no limite, loucura.
São Paulo já tinha visto isso, e o disse com aquela secura que lhe era peculiar, na primeira carta aos Coríntios. A pregação da Cruz é loucura para os que se perdem, escândalo para os judeus, tolice para os gregos. A palavra grega que ele emprega, skandalon, designa a pedra contra a qual se tropeça. Toda a teologia da graça é uma pedra atravessada no meio do caminho, e a pedra é esta: um Deus que ama o indigno. Que ama, especificamente, o indigno. Não o homem genérico, abstrato, idealizado nas filosofias suaves, mas o homem concreto, com a sua duplicidade, a sua mesquinhez, as suas pequenas vinganças, os seus afetos torcidos. O homem real, e não a sua versão de cartão postal.
Bento XVI, na encíclica Deus é Amor (Deus Caritas Est), de 2005, fez questão de demolir uma confusão antiga. Durante séculos, um pietismo meio afobado contrapôs o eros pagão ao ágape cristão, como se ocristianismo fosse uma religião de afetos pálidos, cosmeticamente decentes, devidamente higienizados. Ratzinger desmonta a caricatura. O Deus bíblico é, sim, ágape que se dá; mas é também eros que busca. Sai, atravessa, desce, procura. Vai atrás de quem fugiu.
O Deus que se inclina sobre Adão depois da queda, que pergunta ao homem onde está e, já ao advento do Cristo, para onde vai, é o mesmo que, na parábola, deixa as 99 ovelhas para correr atrás da única que se perdeu. A operação é, de novo, escandalosa. Qualquer pastor sensato cuida das 99. Apenas um Deus louco, ou apaixonado (e neste caso são sinônimos), abandona o rebanho inteiro pela ovelha que não soube se comportar.
O ponto mais difícil, contudo, não está no escândalo objetivo, mas na recusa subjetiva. Agostinho viu, com a sua agudeza incomparável, que a vontade humana ferida prefere mil vezes pagar a receber. Receber humilha. Pagar dignifica. Por isso o pecador típico das Confissões não é o devasso, mas o orgulhoso, e por isso o demônio agostiniano se chama soberba antes de se chamar luxúria.
A graça é dom, e o dom oferece à criatura uma posição que ela, na sua vaidade natural, não aceita sem revolta: a do mendigo que estende a mão. Aceitar o amor gratuito de Deus exige um gesto que repugna a quase tudo o que somos, isto é, render-se sem ter combatido, recolher sem ter semeado, sentar-se à mesa sem ter trazido o vinho.
Olavo de Carvalho costumava insistir num ponto que poucos diziam com igual clareza: o homem moderno perdeu a capacidade de notar o escândalo. Não é que recuse o Amor de Deus, é que se tornou incapaz de percebê-lo enquanto desproporção. Ao se erigir em medida do cosmos, o sujeito moderno aboliu a vertical sobre a qual a graça desce. Quando tudo se horizontaliza, o gesto divino vira detalhe sentimental, metáfora de autoajuda, cosmética interior.
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O escândalo agostiniano, a desproporção tomista, a loucura bernardina, o skandalon paulino, tudo isso é amaciado, depilado, transformado em conteúdo motivacional. Não há, hoje, quase ninguém capaz de receber a graça porque quase ninguém é mais capaz de admitir que não a merece. E a graça que se julga merecida deixa, por definição, de ser graça.
Aqui está, talvez, o núcleo do problema. Os Padres sabiam que o homem é pó, e que o pó não exige nada. São Tomás sabia que a bondade da criatura é dom, e não conquista. Bernardo sabia que medir o amor é matá-lo. Ratzinger sabia que um Deus que apenas julgasse seria menos do que um Deus que ama.
Olavo sabia que a soberba moderna fechou a porta pela qual a graça entrava. E todos eles, lendo São Paulo, sabiam que existe, no centro do cristianismo, um absurdo intransitável: alguém amou primeiro. Alguém ama o que não pediu para ser amado, o que não retribui, o que muitas vezes troça e atravessa a vida fingindo não ouvir.
Esta é a única notícia verdadeiramente espantosa que o cristianismo trouxe ao mundo. As religiões pagãs ofereciam deuses caprichosos, vingativos, eventualmente solidários, sempre humanos demais. Os filósofos gregos chegaram, no melhor dos casos, ao motor imóvel de Aristóteles, esse pensamento que se pensa a si mesmo e que, justamente por isso, não pode se inclinar sobre coisa nenhuma. Foi preciso a revelação para que o Céu, por assim dizer, baixasse a cabeça. E que a baixasse não diante do justo, do herói, do sábio, mas diante do ladrão que, no patíbulo ao lado, pediu apenas que se lembrassem dele.
Hoje estarás comigo no paraíso. Esta é, em última instância, a frase mais inverossímil já pronunciada por boca alguma. Quem a ouve sem estremecer não a compreendeu. Quem a compreendeu não recupera mais a serenidade burguesa de quem julga ter pago suas contas. Diante do amor de Deus, ninguém paga. Todos recebem. E recebem, exatamente, aquilo que jamais teriam podido pagar.
Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco.

















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