Considerado o “Rei do Pop”, Michael Jackson tem músicas que marcaram gerações, entraram para a história e bateram recordes mundiais. Mas o grande público desconhece que o artista já escreveu e gravou uma música contra o aborto.
Escrita nos anos 80, mas lançada apenas em 2012, a faixa Song Groove (Ritmo da Música, em tradução livre), também conhecida como Abortion Papers (Papéis de Aborto, em tradução livre), conta a história de uma menina crescida em lar religioso que se encontra em um dilema moral sobre interromper a gravidez.
Na canção, o eu lírico suplica para que a jovem “confusa” “pense sobre a vida”, afirma que “gostaria de ter o meu filho” e questiona: “E quanto a Deus? E sobre o amor? E quanto àquilo pelo que eu oro?”.
Nas estrofes que ficaram perdidas por mais de 20 anos, o artista descreve que os “papéis de aborto” que seriam assinados pela jovem — fazendo uma alusão aos documentos médicos que dariam continuidade ao procedimento — eram “contra a palavra de Deus”.
Por que a música só foi lançada mais de 20 anos depois de escrita?
Não existe uma versão oficial da razão pela qual a canção ficou “escondida” por mais de 20 anos. O jornal britânico The Guardian aponta tanto o “timing político questionável” da canção quanto a fragilidade da faixa como alguns dos motivos para que a música não tenha sido lançada no álbum Bad, em 1987 — o primeiro após Thriller.
A revista The Atlantic, em artigo publicado em 2012, afirma que não foi apenas a Abortion Papers que foi deixada de lado. Segundo a apuração, entre o álbum Thriller, de 1982, considerado por muitos fãs o mais emblemático, e o lançamento de Bad, cinco anos mais tarde, Jackson escreveu entre 60 e 70 novas músicas.
John Branca, co-executor do espólio de Michael Jackson e presidente da The Michael Jackson Company, afirma que a grande parte foi cortada por ainda estar em “estágio intermediário” e apenas onze foram escolhidas para integrar o álbum.
Mas o ex-braço direito do astro também confessa que “algumas [faixas] estavam tão completas que qualquer outro artista poderia considerá-las faixas finalizadas”.
Jackson não acreditava que a música era polêmica, mas tinha preocupações
Embora muitos pudessem considerar a letra de Abortion Papers controversa por tratar de um assunto normalmente ignorado no mundo da música, o popstar americano não a encarava dessa forma. Ainda assim, ele manifestava preocupações sobre como isso poderia impactar o público feminino.
Segundo uma versão corroborada por seu produtor musical e amigo pessoal, Matt Forger, Jackson se preocupava com como a letra poderia ofender e despertar sentimentos de culpa em mulheres que realizaram abortos.
“Preciso fazer isso de uma forma que não ofenda as mulheres que fizeram aborto ou reacenda sentimentos de culpa. Tem que ser feito com cuidado”, escreveu Jackson nas notas de Abortion Papers, segundo o The Guardian e seu ex-produtor e amigo Matt Forger.
Em outro comentário sobre a faixa, Forger confessa que “sabíamos que poderia ser controverso, especialmente com o que tem acontecido politicamente. Mas quando você ouve, há uma história sendo contada”.
O The Guardian opina que “embora a religião de Jackson seja mais documentada em sua biografia do que em suas letras, nada em Abortion Papers foge muito de seu repertório espiritual”.
Criado como Testemunha de Jeová, o Rei do Pop frequentemente incorporava temas envolvendo espiritualidade e fé em suas letras. Um dos exemplos mais famosos é o seu álbum Dangerous, de 1991, que traz hits considerados gospel, como Will You Be There (Você Estará Lá, em tradução livre) e Keep The Faith (Mantenha a Fé, em tradução livre).
Jackson não foi o único artista pop a compor sobre aborto
Por mais que, à primeira vista, chame atenção uma música de um astro pop sobre um tema tão polêmico como o aborto, outros artistas já abordaram o tema em suas discografias.
Em 1986, a cantora Madonna lançou a música Papa Don’t Preach, em que a artista descreve um diálogo entre uma jovem que conta ao seu pai que está grávida, pede que ele não dê sermões e diz que “vai continuar com seu bebê”.
Militantes pró-aborto problematizaram a canção. “A mensagem é que engravidar é legal, ter o bebê é a coisa certa e boa, e não deem ouvidos aos seus pais, à escola, a ninguém que diga o contrário — não me venha com sermão, papai. A realidade é que o que Madonna está sugerindo aos adolescentes é um caminho para a pobreza permanente”, afirmou na época o então diretor executivo da Planned Parenthood Nova York, Alfred Moran.
Considerada uma das artistas mais importantes da história do hip-hop feminino, Lauryn Hill participou do rap Retrospect for Life, ao lado do compositor Common, em 1997. A música aborda o tema do aborto pela perspectiva de um pai surpreendido por uma gravidez inesperada: “Devo ter realmente achado que eu era Deus para tirar a vida do meu filho/US$ 315 não valem a sua alma”, dizem outros trechos do rap.
Entre os versos, os cantores questionam: “Sabendo que você é a melhor parte da vida, eu tenho o direito de tirar a sua?”. Em 2018, Common afirmou que escreveu Retrospect for Life a partir de sua perspectiva pessoal sobre o que sentia “como ser humano”.
A cinebiografia de Jackson
A cinebiografia Michael, estrelada por Jaafar Jackson, sobrinho do astro americano, estreou nos cinemas do Brasil e do mundo no último dia 23.
O longa “Michael” retrata parte da vida e do legado de Michael Jackson, desde sua revelação no Jackson Five até os passos que o consagraram como o Rei do Pop.

Dirigida por Antoine Fuqua, a obra se tornou a cinebiografia com maior estreia em bilheteria de todos os tempos, superando “Oppenheimer” e “Bohemian Rhapsody”, que conta a história de Freddie Mercury.
De acordo com a BBC, em menos de um mês, Michael arrecadou, globalmente, US$ 217 milhões (cerca de R$ 1 bilhão).
Aclamada pelos fãs, mas pouco recebida pelos críticos, a obra, provavelmente, terá uma continuação, como indica o próprio filme.
Veja a letra completa de Abortion Papers
“Irmã não leia, para que ela nunca saiba
E quanto ao amor? Vivendo uma alma cristã
O que ganhamos, ela foge
E quanto ao amor? E sobre tudo que eu rezo?
Não sei as palavras
Ela sabe a batida
E quanto a Deus? A vida é tudo o que vejo
O que você ganha, as coisas que ela diria
E quanto ao amor? É tudo que eu rezo
Esses papéis de aborto
Assinar o seu nome contra a palavra de Deus
Esses papéis de aborto
Pense sobre a vida, eu gostaria de ter o meu filho
Irmã confusa, ela foi sozinha
O quanto ao amor? E sobre tudo o que vi?
Aguardando sua vez, lendo as palavras
Cantando uma canção, recitando um versículo da Bíblia
Todos aqueles confusos, o desespero de uma mãe
Irmãos encorajaram, e tudo que eu vejo?
Você sabe que eles morrem, você chegou
E quanto ao coração? Isso é tudo que eu sei
Esses papéis de aborto
Assinar o seu nome contra a palavra de Deus
Esses papéis de aborto
Pense sobre a vida, eu gostaria de ter o meu filho
Esses papéis de aborto
Assinar o seu nome contra a palavra de Deus
Esses papéis de aborto
Pense sobre a vida, eu gostaria de ter o meu filho
Olhe para a minha palavra, o que eles dizem
Olhe para o meu coração ardente, é tudo que eu rezo
O que te importa? O que você diz?
E quanto ao amor? Para sentir o meu pecado
Esses papéis de aborto
Assinar o seu nome contra a palavra de Deus
Esses papéis de aborto
Pense sobre a vida, eu gostaria de ter o meu filho
Esses papéis de aborto
Pense sobre a vida, eu gostaria de ter o meu filho
Irmã não sei, onde ela iria?
O quanto ao amor? E sobre que tudo que eu sei?
O que você vai conseguir? Vai acabar confusa
O amor só diz: são apenas as coisas que eu faço
Esses papéis de aborto
Assinar o seu nome contra a palavra de Deus
Esses papéis de aborto
Pense sobre a vida, eu gostaria de ter o meu filho
Esses papéis de aborto”.















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