
A ditadura da China seguiu seu protocolo durante a visita de Estado do presidente Donald Trump no país nesta semana, levantando um tema frequente em sua agenda: o reivindicado domínio sobre Taiwan.
Apesar de Washington não reconhecer a soberania da ilha com governo e Forças Armadas próprios, os americanos se tornaram um de seus principais aliados há décadas. Trump antecipou no início da semana que discutiria com o ditador Xi Jinping o pacote de armas de US$ 11 bilhões destinados ao território asiático, autorizado pelo governo americano em dezembro, mas que ainda não foi implementado.
Taiwan é considerada uma “linha vermelha” para o regime chinês quando o assunto é política externa. O país, inclusive, faz planos para retomar militarmente a ilha dentro de poucos anos.
Essa guerra, porém, parece já ter começado, não pelos meios convencionais que o mundo está acostumado a ver – com uma invasão e ataques coordenados –, mas com uma estratégia silenciosa, visando sufocar a economia e a capacidade militar da ilha.
Desde sua chegada ao poder, em 2012, Xi tem demonstrado certa obsessão pelo controle do território devido à sua posição militar estratégica na Ásia e ao seu papel central na economia mundial devido à produção de semicondutores avançados – Taiwan produz até 90% dos chips mais avançados do mundo usados para o desenvolvimento de Inteligência Artificial (IA).
Uma das formas recentes usadas pela China para cercar Taiwan é por meio de uma nova política de inspeções alfandegárias em navios mercantes que se aproximam dos portos taiwaneses.
Uma análise da revista Foreign Affairs, especializada em assuntos de relevância internacional e política externa, aponta que a ditadura chinesa exigiu uma fiscalização rigorosa da aviação civil de voos que entram e saem de Taiwan, justificando que tem o “direito” de regular o fluxo de pessoas e mercadorias que passam pela “província”.
Dessa forma, empresas privadas se encontraram em um beco sem saída pelo risco de terem bens apreendidos ou perderem o acesso ao mercado chinês. Assim, o regime de Xi assumiu o controle da maior parte das ligações de Taiwan com o mundo exterior.
A China defende que não interferirá no fluxo de pessoas e bens que entram na ilha, desde que as leis nacionais do país sejam seguidas. Contudo, já surgiram algumas exceções importantes: nada de armas para Taiwan, nada de componentes de dupla utilização que Taiwan possa usar para fabricar armas, nada de “conselheiros” militares dos EUA.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal, aponta que essa movimentação política expõe o ponto mais crítico e sofisticado da estratégia de Pequim: a transição de um cenário de invasão anfíbia clássica para uma estratégia de asfixia regulatória e de aplicação de lei marítima (lawfare).
Trata-se de uma tática de zona cinzenta projetada para impor um fato consumado, alterando o status quo sem cruzar a linha do conflito militar tradicional.
À Gazeta do Povo, o analista destacou que o regime busca institucionalizar um bloqueio cirúrgico ao rearmamento defensivo da ilha, interceptando sistemas avançados fornecidos pelo Ocidente e impedindo a entrada de conselheiros militares estrangeiros, isolando a infraestrutura de defesa de Taiwan de maneira incremental e burocrática, sem cruzar a linha do conflito militar aberto.
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Um dos objetivos discretos – mas eficazes – da China com a medida é controlar totalmente o fluxo econômico da ilha, considerada crucial para a produção tecnológica no mundo.
Essa permeabilidade seletiva de Pequim abre caminho para o domínio chinês sobre o fornecimento global de semicondutores avançados. Coimbra aponta que a estratégia da China se resume em permitir temporariamente a saída desses produtos dentro da normalidade, enquanto mitiga o choque econômico imediato e enfraquece o ímpeto de uma reação ocidental coordenada.
“Ao controlar de forma cirúrgica o trâmite logístico no Estreito, a China esvazia gradualmente a autoridade jurisdicional de Taipei, minando a confiança de investidores e a resiliência psicológica da população até forçar o governo democrático a uma negociação em posição de total assimetria”, avalia.
Em dezembro, o Exército Popular da Libertação da China realizou uma série de exercícios na chamada “Missão Justiça 2025”, durante a qual os militares simularam um bloqueio das principais cidades portuárias de Taiwan com 14 navios da guarda costeira e 18 navios de guerra. As operações demonstraram capacidade de sustentar uma quarentena ou um bloqueio parcial ou total à ilha, o que afetaria a relação de Taiwan com seus aliados, como os EUA.
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Diante desse cenário, os EUA enfrentam um complexo dilema, uma vez que a utilização da Guarda Costeira chinesa para aplicar leis domésticas inverte o ônus da escalada, fazendo com que qualquer intervenção militar da Marinha americana para romper um cerco regulatório seja interpretada como o ato inicial de agressão.
Nesta sexta-feira (15), o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que teve um “bom entendimento” com o ditador chinês sobre Irã e Taiwan. O republicano afirmou que Xi Jinping “não quer ver uma luta pela independência” em Taiwan, considerando que isso implicaria “um confronto muito forte”.
A reação americana a esse cerco poderia surgir na forma de novas barreiras comerciais a Pequim. No entanto, enquanto o gigante asiático mantém a normalidade na entrada e saída de bens cruciais para Washington, a questão segue adormecida.

















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