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O que está por trás da imagem reluzente da “nova” Venezuela

Jesús Armas toma café com sua companheira em uma cafeteria na calçada. María Pérez participa de um protesto público. Melva Vásquez ergue fotos ampliadas de seu filho e de sua filha do lado de fora de uma prisão onde opositores políticos são mantidos.

Essas ações aparentemente comuns eram praticamente impensáveis há apenas alguns meses sob o regime de Nicolás Maduro na Venezuela.

Os Estados Unidos fizeram tudo o que podiam neste ano para dar à Venezuela uma nova imagem reluzente — desde a ousada e letal operação noturna para capturar Maduro, passando pelo fortalecimento das relações diplomáticas e pelo envio de secretários do governo Trump para visitas sorridentes com a presidente interina, até a autorização para a retomada dos voos diretos.

Mas Armas, Pérez, Vásquez e muitos outros venezuelanos aguardam para ver se as mudanças irão realmente se consolidar ou se o aparato de segurança ainda visível voltará a empurrar a nação latino-americana rumo à repressão.

“Precisamos de eleições”, disse a manifestante Pérez. “Não temos liberdade. Temos flexibilidade, mas não liberdade.”

Na capital, Caracas, no início deste mês, a CNN encontrou entre os venezuelanos — independentemente de sua posição política — uma tensão palpável em relação ao futuro. Eles testemunharam a prisão e detenção de Maduro em Nova York e viram os Estados Unidos fortalecerem o restante do governo chavista.

Eventos luxuosos e de grande visibilidade prometem o retorno de investimentos estrangeiros massivos. Mas a privação que levou milhões de venezuelanos a deixar o país na última década — muitos rumo aos Estados Unidos — ainda é evidente nas geladeiras vazias e nas despensas quase sem alimentos em muitas casas.

A nova líder da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirma enxergar um “renascimento” para o país. Mas muitas das pessoas com quem a CNN conversou disseram que serão os Estados Unidos que decidirão se o país terá sucesso ou fracassará.

Tudo exige um segundo olhar

No Aeroporto Internacional Simón Bolívar, agentes de imigração pareciam confusos com a chegada de um grande número de jornalistas americanos, até perceberem que eles haviam acabado de desembarcar “naquele voo” de 30 de abril.

Poucas horas antes, o Portão D55 do Aeroporto Internacional de Miami estava tomado por um clima festivo — decorado com balões nas cores amarelo, azul e vermelho da bandeira venezuelana.

Os viajantes receberam cafezinhos e arepas, tradicional prato venezuelano, para marcar o primeiro voo direto vindo dos Estados Unidos em quase sete anos. O principal diplomata da Venezuela nos EUA, Félix Plasencia, participou da viagem, assim como representantes do Departamento de Estado, executivos da American Airlines e pessoas que embarcaram para visitar familiares.

Foi o mais recente grande momento midiático incentivado pelos Estados Unidos. Junto com a retomada dos voos vieram aprovações de vistos que estavam pendentes havia meses. Mas o avião transportava menos de 100 passageiros. E, até agora, há apenas alguns voos por dia — embora existam expectativas e promessas de expansão.

Como quase tudo por aqui, tudo em Caracas — uma extensa área metropolitana de quase 3 milhões de habitantes situada em um vale cercado por montanhas — exige um segundo olhar.

O trajeto do aeroporto rumo ao interior seguia por estradas bem conservadas, passando por túneis e cadeias montanhosas. Ao chegar à cidade, vimos ocasionalmente policiais de choque armados, usando equipamentos de proteção e segurando escudos.

Muitas das pessoas nas ruas estavam simplesmente em filas — esperando por horas por ônibus, o único meio de transporte acessível para voltar para casa ou ir a um segundo emprego. Havia muito à venda, de frutas frescas a Ferraris, e muitas marcas americanas como Coca-Cola e Doritos, mas poucos estavam comprando, porque têm dificuldade até para pagar pelo básico.

Quando o presidente Donald Trump anunciou a detenção de Maduro, declarou: “O ditador e terrorista Maduro finalmente se foi da Venezuela. As pessoas estão livres, livres novamente. Já fazia muito tempo para elas, mas agora estão livres.”

Para as pessoas que encontramos, isso ainda é mais uma promessa e uma esperança do que uma realidade.

A ativista política Sairam Rivas se sente segura o suficiente para usar em público uma camiseta pedindo: “Libertem todos os presos políticos”. Mas ela e seu companheiro, Jesús Armas, ainda sentem os olhos do Estado sobre eles.

Armas, coordenador da campanha em Caracas da líder opositora María Corina Machado nas eleições de 2024, foi um desses presos políticos até a prisão de Maduro e a nova anistia.

Ele e Rivas haviam se mudado de esconderijo em esconderijo desde que Maduro foi declarado vencedor, contrariando todas as evidências, no dia seguinte às eleições gerais de julho de 2024. Após cinco meses vivendo assim, Armas começou a se sentir sufocado e decidiu levar seu laptop para trabalhar em uma cafeteria, em dezembro de 2024.

Quando saiu para voltar para casa, disse ter sido sequestrado por oito homens mascarados vestidos de preto e permaneceu detido até fevereiro deste ano, por fim na prisão de El Helicoide, utilizada pelos serviços de inteligência em Caracas.

Armas disse ter ouvido explosões relacionadas à operação americana de 3 de janeiro que retirou Maduro do país, mas inicialmente descartou as afirmações de um companheiro de cela de que os “gringos” haviam chegado — até que um agente penitenciário compartilhou a notícia na manhã seguinte.

“Na verdade, ele ficou muito feliz”, disse Armas sobre o agente que informou os presos sobre a operação. “E quase todos os guardas dentro de El Helicoide ficaram muito felizes.”

Mas a liderança governamental, militar e civil permaneceu praticamente a mesma do período de Maduro.

“Ainda existe repressão, mas menos”, afirmou Rivas. Armas acrescentou que é seguido por agentes dos serviços de inteligência com tanta frequência que já os reconhece, embora não acredite correr perigo imediato de ser preso novamente.

As autoridades se recusaram a comentar especificamente o caso de Armas, mas disseram que as acusações de violações de direitos humanos eram falsas. Ao assinar a lei de anistia que propôs sob pressão dos Estados Unidos, a presidente interina Rodríguez descreveu o momento como “uma porta extraordinária para a Venezuela se reunir, para a Venezuela aprender a conviver democrática e pacificamente, para a Venezuela se livrar do ódio, da intolerância, e se abrir aos direitos humanos”.

Quanto mais as coisas mudam…

O relaxamento das regras, mas também a dor da repressão, é simbolizado por Melva Vásquez. A mãe de cabelos brancos agora vive em uma barraca do lado de fora da prisão de El Rodeo, cerca de 56 quilômetros a leste de Caracas, enquanto faz campanha pela libertação de seu filho, Merwyn Simons, e de sua filha, Anyela Bermúdez, ambos presos pelo regime. Ela não tem condições de viajar constantemente entre a prisão e sua casa, localizada a oito horas dali.

A manifestação de oposição, com grandes fotografias de seus filhos adultos, não teria sido permitida sob o regime Maduro. O governo venezuelano alega que os irmãos participavam de um plano para bombardear uma praça pública na capital. Mas a mãe afirma que eles não têm envolvimento político e que não entende por que estão presos.

“Estamos vivendo em agonia”, disse ela sobre si mesma e as outras mães acampadas do lado de fora de El Rodeo. “Vocês nos veem calmas porque o que mais nos resta? Não podemos nos desesperar, porque no desespero perdemos tudo.”

A moradora de Caracas e jornalista local Carolina Alcalde afirmou que a Venezuela atualmente parece “frágil”.

“A situação econômica é muito difícil, a renda é muito, muito baixa, e tudo é muito caro. Acho que esse é o principal foco das pessoas. As pessoas ainda têm medo de dizer certas coisas, especialmente sobre política, porque nunca se sabe como o governo ou aqueles que estão no poder vão reagir.”

Além da política local, Alcalde afirmou que os venezuelanos também acompanham com atenção as eleições legislativas dos Estados Unidos, em novembro. Embora a política externa não esteja entre as principais prioridades de muitos eleitores americanos, os venezuelanos se perguntam quais poderiam ser os efeitos indiretos de uma mudança no Congresso e como o governo Trump reagiria.

Nas ruas de Caracas, pichações e murais afirmam que os verdadeiros presos políticos são aqueles mantidos no Brooklyn, em Nova York. “Libertem Nicolás! Libertem Cilia!”, exigem as mensagens em referência ao presidente deposto e à sua esposa.

Outras obras de arte públicas ainda retratam Maduro como sucessor de Hugo Chávez à frente da revolução socialista na Venezuela, sucedido posteriormente por sua própria vice, Delcy Rodríguez.

Em um ato da oposição realizado em Caracas no Dia do Trabalhador, em 1º de maio, houve pedidos pelo retorno da democracia, além de palavras de ordem por melhores salários e aposentadorias.

Aida Guevara, usando uma camisa de beisebol com a palavra “America” estampada na frente e óculos com as cores da bandeira venezuelana, disse que seu país havia retrocedido sob o socialismo.

“Tenho uma aposentadoria que não é suficiente para comprar meus remédios. Não consigo comprá-los nem mantê-los regularmente em casa”, afirmou Guevara. Ela disse que não desejava uma intervenção dos Estados Unidos, mas que era grata pela decisão de Trump.

“Não estou feliz com o que aconteceu, mas estou feliz porque posso falar com você calmamente, em segurança, em paz.”

Uma marcha pró-governo concorrente foi organizada em Caracas no mesmo dia, com tambores, dançarinos e cartazes com a frase “Venezuela no es una colonia”. Venezuela não é uma colônia.

Um dos organizadores afirmou que Trump era “loco”, maluco, “por causa das medidas que toma — hoje diz uma coisa, amanhã diz outra”.

Ele também apontou para questões migratórias nos Estados Unidos, incluindo o tratamento dado aos migrantes venezuelanos, e questionou por que as pessoas responsáveis por essas ações deveriam ser consideradas confiáveis para ajudar os venezuelanos em seu próprio país.

Ainda existe apoio ao que resta do governo Maduro, embora ele seja mais visto nos muros do que ouvido nas ruas.

Após a manifestação da oposição, Pérez, costureira, nos mostrou sua casa e as residências de familiares próximos, nas colinas íngremes que cercam a capital. Naquele dia havia energia elétrica, então seu pai diabético, Secundino Delgado, podia assistir a programas de ação na televisão, deitado na cama. Isso também significava que a geladeira estava funcionando, embora contivesse apenas alguns tomates, um pimentão, meia garrafa de refrigerante e o que pareciam ser costelas em um prato — certamente mais osso do que carne.

A geladeira evidencia dois dos problemas mais graves e persistentes enfrentados pelos venezuelanos mais pobres: a falta de proteína na alimentação e a escassez de medicamentos, como insulina, para problemas de saúde de longo prazo. A renda mínima oficial acabou de subir para 240 dólares por mês, embora a maioria dos venezuelanos ganhe muito menos do que isso. E apenas a alimentação custa quase três vezes esse valor.

“Se hoje comemos ovos, amanhã comemos um pedacinho de frango, e assim vamos vivendo”, explicou a irmã de Pérez, Ana Pérez.

No terraço do prédio havia mais sinais de como funciona a vida ali. O edifício está conectado ao abastecimento público de água, mas as interrupções são tão frequentes que dois enormes reservatórios são usados para armazenar água para as famílias que vivem abaixo.

Para Armas, defensor da democracia, a falta de água e eletricidade são sinais claros do que ele descreve como má gestão. Ele ressalta que o país está em grande parte localizado na gigantesca bacia do rio Orinoco e possui alguns dos maiores sistemas hidrelétricos do mundo, mas ainda assim muitos vivem sem acesso adequado.

“A culpa de tudo isso é de Delcy Rodríguez, de Nicolás Maduro, de Hugo Chávez. Eles não colocam os venezuelanos como prioridade. Só pensam em permanecer no poder”, afirmou.

“Eles colocaram os cargos mais importantes do país — para administrar a companhia de energia elétrica, a empresa de água ou a indústria petrolífera — nas mãos de aliados políticos. E esses aliados vieram do Exército, vieram do partido político, mas na verdade não têm formação adequada.”

Armas e outros seguidores de Machado querem eleições o mais rápido possível para concretizar seus sonhos de democracia, mas também para não permitir que as condições melhorem demais sob o atual governo apoiado, persuadido ou impulsionado pelos Estados Unidos.

“Precisamos de mais apoio dos EUA para acelerar isso”, afirmou. “Precisamos de um calendário eleitoral o quanto antes, porque temos medo de que os líderes civis fiquem mais fortes nos próximos meses e consigam permanecer no poder.”

A preocupação é que uma melhora material na vida das pessoas reduza a pressão popular por mudanças.

A presidente interina Rodríguez afirmou em 1º de maio que compreendia aqueles que participaram das marchas de oposição, mas atribuiu os problemas a ações externas, especialmente às de governos anteriores dos Estados Unidos, e não às de seus antecessores. “Quem protestou hoje está certo. Precisamos garantir que os salários recuperem seu poder de compra”, disse ela. “Chamei este momento de renascimento da Venezuela; vamos deixar para trás a década perdida causada pelas sanções.”

Algumas das mudanças desde a prisão de Maduro tiveram impacto global para companhias petrolíferas e empresas aéreas; outras têm um significado mais pessoal.

Depois de seis meses vivendo com medo, seguidos de 14 meses preso, Armas ao menos sente que pode aproveitar a pequena normalidade de tomar um café ao ar livre com sua companheira.

“Isso é um presente para nós.”

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