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O banquete de Xi Jinping e Donald Trump e a precária situação global

Os líderes das maiores potências mundiais, EUA e China, se reuniram para jantar em Pequim. Oferecido por Xi Jinping, o suntuoso banquete em homenagem a Trump contou com costelas de boi crocantes, pato assado e tiramisù, além de lagosta em sopa de tomate e pãezinhos de porco fritos. Ao contrário do que foi dito nas mídias sociais, hambúrgueres não estavam no cardápio, mas sim uma disputa envolvendo cerca de 43% do PIB nominal global. Os EUA detêm 25% do PIB global (mais de US$ 30 trilhões), em comparação com os 17% da China.

Trump chegou acompanhado de um grupo de executivos americanos, incluindo líderes da Tesla, SpaceX, Boeing e NVIDIA. Segundo a mídia americana, nos bastidores, a reunião se concentrou em questões delicadas como a relação comercial global entre os dois países, a Coreia do Norte e Taiwan. Não é curioso como a agenda da reunião com Lula (o Brasil tem 2% do PIB global) parece ter sido muito mais secreta do que a reunião entre EUA e China?

A situação me lembrou as caricaturas de antigamente que mostravam os poderes da Europa dividindo o mundo em fatias, o que eventualmente causou a Primeira Guerra Mundial. Hoje, a China está comprando a África e tentando comprar várias outras regiões; a Europa está virando muçulmana; a Rússia tenta conter a Europa via Ucrânia e os EUA tentam reconquistar esferas de influência perdidas pelo partido democrata na América Latina. Os espaços políticos no Oriente Médio se reconfiguram com a possível queda do regime extremista no Irã.

Espero que o mundo não tenha uma grande indigestão a partir desse jantar entre dois líderes carismáticos que controlam quase metade da riqueza global. Que venha a paz, e não guerras

Vemos hoje um número recorde de conflitos, um aumento na militarização e uma acirrada competição estratégica internacional. Uma coisa é certa: ao contrário do que pensam muitos universitários brasileiros usando camisa de Che Guevara, não se trata de um conflito entre comunismo e capitalismo. A China já não é comunista há muito tempo, tendo adotado um capitalismo de Estado (sob o controle do Partido Comunista Chinês), contando com mais bilionários do que a Europa.

No início de 2026, o mundo viveu os níveis mais altos de conflitos violentos desde a Segunda Guerra Mundial, com 56 conflitos ativos e mais de 120 conflitos armados envolvendo atores estatais e não estatais. Mais de 99% das mortes relacionadas ao terrorismo ocorrem em países que já vivenciam conflitos. Segundo o Índice Global da Paz, o impacto econômico global da violência aumentou para US$ 19,1 trilhões em 2023, representando 13,5% do PIB global, ou cerca de R$ 12 mil para cada habitante do planeta. Daria para cada um comprar o seu próprio banquete.

O crime organizado e a violência de gangues variam muito entre as regiões. Os países da América Latina, incluindo o Brasil, têm as piores taxas de homicídio por ampla margem, representando 37% do total global em uma região que corresponde a apenas 13% da população mundial. A instabilidade política gera crime organizado, incluindo ataques direcionados contra policiais, mulheres e jornalistas. Para piorar, as redes sociais desempenham um papel crucial na disseminação de discursos xenófobos e incitação à violência.

Há diferenças entre a natureza dos conflitos de hoje e os do século passado. De acordo com um estudo da Fondapol (Fundação para Inovação Política, França), os países mais afetados pelo terrorismo islâmico, representando 87,5% das mortes em todo o mundo, são: Afeganistão, Argélia, Camarões, Egito, Iêmen, Israel, Iraque, Mali, Moçambique, Nigéria, Paquistão, Síria e Somália.

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Hoje, o crime mata muito mais pessoas do que guerras convencionais e conflitos armados. Em 2017, quase meio milhão de pessoas em todo o mundo foram mortas por homicídios, superando em muito as 89 mil mortes em conflitos armados ativos e as 19 mil mortes em ataques terroristas. As taxas de homicídio hoje crescem a um ritmo de 4% ao ano.

Há dinâmicas interligadas, ou seja, o terrorismo raramente é uma “guerra” isolada, mas sim uma tática dentro de guerras civis, insurgências para tomar o poder e intervenções militares mais amplas. Por exemplo, o regime do Irã financia, por meio de sua Guarda Revolucionária (IRGC), grupos terroristas como Hamas, Hezbollah e os Houthis, conforme confirmado pelo Departamento de Estado dos EUA e vários analistas de segurança internacional. Além disso, os conflitos armados não internacionais – governos versus grupos militantes – mais que triplicaram desde o ano 2000.

Qual o resultado do encontro entre os líderes da China e dos EUA? Ainda é cedo para dizer, mas acho bom que eles estejam jantando e não guerreando. Espero que o mundo não tenha uma grande indigestão a partir desse jantar entre dois líderes carismáticos que controlam quase metade da riqueza global. Que venha a paz, e não guerras.

Jonas Rabinovitch é arquiteto urbanista, com 30 anos de experiência como conselheiro sênior em inovação, gestão pública e desenvolvimento urbano da ONU em Nova York.

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