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Por que alfabetizar bem pode definir o futuro econômico do Brasil?

O diagnóstico é claro e alarmante. O Brasil está entre os países com pior produtividade do mundo, convive com uma taxa elevada de analfabetismo — três a cada dez brasileiros não entendem o que leem — e avança rapidamente para um envelhecimento demográfico que tende a reduzir ainda mais sua força de trabalho. Diante desse cenário, surge uma questão central: por que investir na alfabetização das crianças que estão na escola hoje é uma das estratégias mais eficazes para mudar o destino econômico do país?

Em um ranking que reúne 100 países, o Brasil ocupa a 94ª posição em produtividade de trabalho, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). O dado, por si só preocupante, é ainda mais grave quando se observa que a tendência histórica de baixa produtividade não é um fenômeno recente e, em vez de melhorar, piorou significativamente nas últimas duas décadas.

Quando esse desempenho é analisado em conjunto com os índices de analfabetismo, a conclusão é inevitável. Como esperar trabalho qualificado, inovação e crescimento sustentado de uma população que não domina nem mesmo as habilidades básicas de leitura e escrita?

É na educação básica, fase decisiva para alterar esse quadro no médio e no longo prazo, que o problema se revela estrutural. Faltam metas claras, métricas consolidadas e responsabilização efetiva na formulação das políticas públicas. “Parecia uma carta de boas intenções”, avalia Letícia Jacintho, presidente da ONG De Olho no Material Escolar, ao analisar a versão do Plano Nacional de Educação (PNE) enviada pelo Ministério da Educação (MEC) ao Congresso Nacional.

“‘Vamos melhorar a educação’. Tudo bem. Mas com qual dinheiro? Quem será o responsável? Qual é a meta? Como isso será medido? E o que acontece com quem não cumpre?”, questiona Jacintho. Em um país marcado por profundas desigualdades socioeconômicas, a especialista defende que é imprescindível que o gestor público tenha um caminho claramente desenhado, com objetivos verificáveis e instrumentos de correção de rota. Caso o contrário, o fracasso da alfabetização continuará se repetindo geração após geração.

Alfabetização no improviso custa caro ao país

Para Claudia Costin, especialista e ex-diretora global de educação do Banco Mundial, a baixa produtividade do trabalho no Brasil resulta de uma combinação de fatores históricos e estruturais — entre eles, o legado da escravidão e o acesso tardio de gerações anteriores à escola. “Esse último dado pode parecer irrelevante à primeira vista, mas sabemos que cerca de 68% do sucesso escolar de uma criança depende dos anos de escolaridade de seus pais”, destaca.

Do ponto de vista educacional, Costin defende que a alfabetização e o letramento matemático – a capacidade de pensar matematicamente e não apenas resolver exercícios – são habilidades centrais que precisam ser trabalhadas nos primeiros anos de escolarização. As políticas públicas mais eficazes nessa área, segundo ela, estão ancoradas em evidências científicas. “Criticamos o negacionismo científico na saúde durante a pandemia, mas muitos educadores ainda acham que a alfabetização dispensa ciência”, observa.

Um dado citado pela especialista ajuda a dimensionar o problema. Cerca de 60% das crianças que não aprendem o código letrado primeiro (a relação entre letras e sons) não conseguem se alfabetizar plenamente. “Soa menos poético ensinar o código letrado do que deixar a criança adivinhar um monte de hipóteses do que está escrito. Mas esse método, conhecido como construtivismo na educação, na prática não funciona. É preciso ensinar consciência fonológica e fonêmica. Não há como negar isso”, afirma.

Nem sempre, porém, os gestores públicos atuam alinhados a evidências científicas na formulação de políticas educacionais. Criado em 2022 para recompor as perdas de aprendizagem causadas pela pandemia, o Pacto Nacional de Recomposição das Aprendizagens tinha como diretriz essencial a tomada de decisões ancoradas em metodologias com comprovação científica. Na reformulação promovida pelo governo Lula, entretanto, o decreto foi alterado e esse princípio foi substituído por conceitos mais genéricos, como a “promoção da equidade” e o reconhecimento das “diversidades e singularidades”, reduzindo o compromisso com práticas educacionais baseadas em evidências.

Governo federal tem função de apoiar municípios para melhorar índices de alfabetização

Os anos iniciais da escolarização, que incluem a alfabetização, são de responsabilidade dos municípios. Cabe ao governo federal, porém, exercer um papel decisivo de coordenação, orientação e apoio técnico para reduzir as desigualdades educacionais em um país grande e heterogêneo como o Brasil. Instrumentos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o próprio PNE são fundamentais para dar suporte técnico aos municípios, especialmente os de menor capacidade institucional, e ajudá‑los a alcançar melhores resultados de aprendizagem.

Esses princípios — avaliação precoce, clareza de metas e correção rápida de rota — devem aparecer entre as propostas dos próximos governos, segundo as especialistas ouvidas. “Quando se trata de políticas públicas, um ponto primordial é a avaliação de fluência em leitura já na pré-escola. É preciso garantir que a criança tenha seu nível de leitura diagnosticado quase individualmente pelo professor. Avaliando cedo e com critérios comparáveis, é possível corrigir a rota antes de um fracasso na alfabetização fique consolidado e irreversível”, aponta Letícia Jacintho.

A urgente revisão da BNCC, incluindo a parte que trata dos primeiros anos escolares, outro ponto destacado pelas especialistas. Segundo elas, o documento é extenso e pouco claro sobre o que deve ser atingido em cada etapa da educação.

“A existência da BNCC foi muito positiva pois é um norte para a educação, mas ela é quase ilegível. Não deixa claro exatamente o que precisa ser feito, usando uma linguagem academicista difícil de compreender. Na área da educação infantil, então, é mais complicado ainda. Então, no geral, é necessário um documento de diretrizes com mais clareza”, conclui Costin.

Os governantes eleitos em 2026 que forem capazes de transformar diagnósticos e evidências em políticas públicas consistentes estarão mais aptos para evitar que o fracasso da alfabetização continue limitando o futuro do país e melhorar o desenvolvimento econômico do país.

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