O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, busca um acordo de colaboração premiada, mas enfrenta resistência significativa da PF (Polícia Federal) e da PGR (Procuradoria-Geral da República). Segundo informações apuradas junto ao entorno de Vorcaro, a negociação estaria contaminada pelo ambiente político do país.
A expectativa predominante é que Vorcaro permaneça preso pelo menos até o fim das eleições, o que representaria ainda três ou quatro meses de detenção na Superintendência da Polícia Federal ou no Complexo Penitenciário da Papuda.
PF insatisfeita com o que foi apresentado
A Polícia Federal demonstra insatisfação com a segunda proposta de colaboração premiada apresentada por Vorcaro. A avaliação dos investigadores é de que ele ainda não entregou todas as informações disponíveis — não forneceu todos os detalhes nem o volume de dados que os investigadores gostariam de obter.
Diante disso, parte do entorno de Vorcaro aposta que a delação seja encaminhada pela PGR. Uma resposta oficial sobre a aceitação ou rejeição da nova proposta era esperada até o final da semana.
Vorcaro ainda faz acréscimos ao material já apresentado. Há ainda a questão da homologação pelo relator André Mendonça, no STF (Supremo Tribunal Federal). Em paralelo, a Justiça das Bahamas reconheceu oficialmente a liquidação do Banco Master, decisão que facilita o processo de recuperação de ativos financeiros da instituição no exterior.
Duas versões em disputa
O analista de Política da CNN Caio Junqueira destacou que existe uma guerra de versões em torno do caso. De um lado, o entorno de Vorcaro sustenta que a PF e a PGR demonstram má vontade em fechar o acordo, em razão de conexões políticas com o STF e o Palácio do Planalto.
De outro, os investigadores afirmam que Vorcaro entregou pouco, que está escondendo recursos e que avançou pouco entre uma proposta e outra. “Ele diz que deu dinheiro para um contrato, por exemplo, mas ele não diz que aquela autoridade deu de volta com algum benefício a partir do exercício de sua função”, explicou Caio Junqueira.
Nenhum agente externo teria tido acesso direto ao conteúdo das propostas — tudo o que circula vem de pessoas que afirmam ter visto os documentos.
Politização e cálculo estratégico
O vice-presidente da Arko Advice, Cristiano Noronha, avaliou que Vorcaro tenta conduzir a negociação preservando parte dos recursos, ainda que prometa devolver uma parcela. “O fato é que muita gente em Brasília está torcendo para que essa delação não saia, porque acaba poupando muita gente do desgaste”, afirmou o especialista.
Ele também apontou que a ampla rede de relacionamentos construída por Vorcaro ao longo dos anos teria operado no sentido de enviar sinais de que a delação não seria um bom negócio para ele.
A âncora da CNN Thais Herédia ressaltou que, para que a colaboração premiada seja aceita, é necessário que o colaborador confesse os crimes cometidos. Segundo ela, essa confissão seria justamente uma das peças que ainda falta.
Além disso, há questionamentos sobre a forma do ressarcimento — um número em torno de R$ 60 bilhões teria aparecido nas negociações —, e sobre a base de cálculo desse valor. “É uma linha muito tênue entre aquilo que as autoridades já têm e podem incriminá-lo e aquilo que pode virar uma peça a favor dele ao longo do tempo”, ponderou Herédia.
Clima político mudou em quatro meses
O diretor de Jornalismo da CNN em Brasília, Daniel Rittner, recordou que, em janeiro e fevereiro, quando surgiram as primeiras mensagens do celular de Vorcaro e quando o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, levou um relatório a Edson Fachin citando um ministro do STF, o clima no mundo político era de “pânico absoluto”.
Quatro meses depois, segundo Rittner, esse clima mudou de forma significativa. A sucessão de idas e vindas nas negociações — troca de advogados, novas propostas, acréscimos — teria esvaziado, ao menos na percepção do ambiente político, o impacto potencial da delação.
“Tudo isso está dando uma sensação de algum relaxamento que pode ser falsa”, alertou Rittner, ressalvando que esse relaxamento pode ser um auto-engano.

















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