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Estádios da Copa de 2014 ainda geram prejuízo milionário

Enquanto acompanham a Copa do Mundo de 2026, contribuintes de diversos estados brasileiros ainda pagam pela construção e reforma dos estádios usados no Mundial de 2014. Em alguns casos, as arenas ainda geram gastos públicos milionários para manutenção todos os meses, sem retorno do valor investido.

Doze anos depois da Copa, oito das 12 sedes da edição realizada no Brasil seguem com dívidas que somam R$ 232 milhões junto ao Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), drenando recursos das contas estaduais para o pagamento dos empréstimos.

Em estados como Amazonas, Ceará, Mato Grosso e Pernambuco, as arenas, geridas pelos governos locais, ainda dão prejuízo operacional e consumem verbas públicas que poderiam ser destinadas a investimentos em outras áreas, como saúde e educação.

No caso de estádios que adotaram o modelo de parceria público-privada (PPP) – como a Arena das Dunas, no Rio Grande do Norte, o Mineirão, em Minas Gerais, e o Fonte Nova, na Bahia –, o custo para o pagador de impostos vem na forma de contraprestações mensais na casa dos milhões de reais.

Dos 12 estádios que sediaram jogos da Copa do Mundo de 2014, 11 tiveram projetos financiados com recursos do BNDES por meio do programa ProCopa. Desses, apenas três foram quitados: da Arena das Dunas, em Natal; do Mineirão, em Belo Horizonte; e do Itaquerão (atual Neo Química Arena), em São Paulo. A dívida do estádio paulista, no entanto, foi apenas repassada para a Caixa.

Procurado pela reportagem, o BNDES não divulgou as informações individualizadas de cada projeto em razão de estarem protegidas por sigilo bancário. A instituição informou, no entanto, que as oito operações que estão ativas seguem sem inadimplemento financeiro no momento. Os prazos de quitação vão até novembro de 2028.

Uma análise detalhada das operações financeiras, dos balanços corporativos e dos repasses governamentais mostra que os estádios da Copa de 2014 continuam a absorver quantias substanciais de recursos públicos. Veja a seguir a situação de cada um dos estádios:

Arenas sob gestão estatal direta viraram “elefantes brancos”

Os estádios localizados em regiões que não contam com clubes que disputam as divisões de elite do futebol brasileiro tornaram-se inviáveis para concessão à iniciativa privada, deixando para os governos estaduais os custos de manutenção.

Arena da Amazônia custa R$ 15 milhões por ano

Erguida com um custo final de R$ 757,5 milhões, valor que superou em mais de 51% o orçamento inicial de R$ 499,5 milhões, a Arena da Amazônia, em Manaus, tornou-se um símbolo do descompasso entre o planejamento de infraestrutura esportiva e a realidade econômica regional.

A construção contou com aditivos e reajustes contratuais com a construtora Andrade Gutierrez, além de consultorias milionárias. O Tribunal de Contas da União (TCU) e o Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) já alertavam desde 2010 sobre a inconsistência das planilhas orçamentárias do projeto.

Atualmente administrada diretamente pelo governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado do Desporto e Lazer (Sedel), a arena tem um custo anual de manutenção que chega à casa dos R$ 15 milhões.

O esforço para gerar receitas esbarra na baixa capacidade de atração de público do futebol local. Para se ter uma ideia, neste ano, em cinco partidas pela Série D do Campeonato Brasileiro, o Manaus FC acumulou déficit operacional de mais de R$ 64 mil atuando como mandante no estádio.

O governo do estado recolhe uma taxa de 8% sobre a renda bruta dos eventos realizados no local. Essas receitas ordinárias, no entanto, são insuficientes para cobrir sequer uma fração das despesas operacionais do estádio.

A Sedel segue investindo recursos públicos consideráveis em revitalizações periódicas, como a manutenção do sistema de refrigeração, que consome contratos na ordem de R$ 1,2 milhão por ano com a iniciativa privada.

Aditivos à Arena Pantanal elevaram custo de construção em R$ 116 milhões

A trajetória da Arena Pantanal, em Cuiabá, é um pouco melhor em razão da ascensão do Cuiabá para a Série A do Campeonato Brasileiro, em 2021, o que atenuou a ociosidade do estádio.

Inicialmente orçada em R$ 454,2 milhões, a obra consumiu cerca de R$ 570 milhões após sucessivos aditivos e questionamentos do TCU referentes a sobrepreços.

Sob a gestão da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel), o estádio tem custo de manutenção anual estimado em R$ 4 milhões, sendo a energia elétrica uma das principais despesas.

A tentativa de diversificação de receitas tem mostrado resultados positivos, embora ainda marginais diante do capital imobilizado pelo governo. Em outubro passado, o uso da Arena Pantanal para receber um show do Guns N’ Roses injetou aproximadamente R$ 1 milhão apenas em Imposto Sobre Serviços (ISS) aos cofres do município.

Ainda assim, as tentativas passadas, de conceder a arena à iniciativa privada, esbarraram na falta de atratividade econômica de longo prazo, forçando o estado a manter a tutela do estádio e a arcar com os riscos inerentes à sua depreciação.

Estádios Copa 2014Estádio Arena Pantanal, em Cuiabá, nos meses finais de construção, em 2014 (Foto: Foto: Edson Rodrigues/ Secopa-MT)

Arena de Pernambuco já gerou prejuízo de mais de R$ 40 milhões

Localizada em São Lourenço da Mata, na região metropolitana do Recife, a Arena de Pernambuco é um dos principais exemplos do fracasso do modelo de concessões planejado para os estádios da Copa de 2014.

O equipamento foi concedido ainda em 2010 por meio de um PPP para a construtora Odebrecht, prevendo investimentos de R$ 479 milhões ao longo de 33 anos. Estudos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no entanto, apontaram frustração de receitas, gerando altos custos mensais de contraprestação aos cofres estaduais.

Os principais clubes do estado (Sport, Náutico e Santa Cruz) se recusaram a transferir seus mandos de campo de forma definitiva para o local, o que teria inviabilizado o plano de negócios da concessionária. Para piorar, em 2015, a Odebrecht foi alvo da Operação Fair Play, da Polícia Federal, por suspeitas de fraude e direcionamento na licitação da obra.

Em 2016, o governo do estado rompeu o contrato de gestão com a empresa. Como consequência, o estado de Pernambuco assumiu o compromisso de pagar parcelas anuais na ordem de R$ 19 milhões à empreiteira ao longo de dez anos. Somado a isso, o custo de manutenção direta do equipamento, hoje conduzido pela Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur), consome aproximadamente R$ 10 milhões anuais.

Do momento em que o estado reassumiu a gestão (junho de 2017) até maio deste ano, o prejuízo foi de R$ 42,7 milhões. Apenas entre janeiro e maio deste ano, a Arena de Pernambuco acumulou déficit direto de R$ 1,6 milhão.

Governo do Ceará gasta R$ 10 milhões por ano com Arena Castelão

Assim como a Arena de Pernambuco, o Castelão, em Fortaleza, também começou como uma PPP, operada pelo consórcio LuArenas. O modelo, da mesma forma, fracassou, e o contrato foi rompido em dezembro de 2018 sob a alegação, por parte da concessionária, de dificuldades financeiras para manter o padrão exigido.

Diferentemente das arenas Amazônia e Pantanal, o Castelão não sofre com ociosidade, mas, pelo contrário, com o desgaste provocado por seu uso intensivo. Atualmente sob administração direta da Secretaria do Esporte do Ceará (Sesporte), nos últimos anos o estádio tem recebido jogos toda semana, considerando os calendários de Fortaleza e Ceará em competições estaduais, regionais, nacionais e continentais.

Com base no histórico do orçamento público estadual destinado à arena, o custo fixo de operação e zeladoria do Castelão consome, em média, entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões por ano. O montante cobre custos de energia elétrica e água, limpeza e segurança, além de manutenção básica de catracas, telões e gramado.

Estádios com PPPs geram lucro às concessionárias e despesa aos estados

O modelo de PPPs, concebido originalmente para transferir a eficiência do setor privado para a gestão de ativos públicos, produziu distorções no caso dos estádios da Copa de 2014.

Em vários estados, os contratos garantiram rentabilidade mínima às concessionárias por meio de pagamentos mensais feitos pelos governos estaduais, aumentando a pressão sobre as contas públicas. Quando a operação dá prejuízo, o estado atua, na prática, como fiador do negócio.

Mané Garrincha: escalada dos custos e patrocínio estatal cruzado

O Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, ostenta o título de arena mais cara do Mundial. Com orçamento inicial de R$ 696 milhões, a obra foi concluída com custos próximos a R$ 2 bilhões.

A escalada foi impulsionada por aditivos contratuais, correções inflacionárias sistêmicas acima da média e irregularidades, conforme apontaram o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) e o Ministério Público de Contas.

Foi o único estádio da Copa de 2014 que não utilizou financiamento do BNDES – a obra foi integralmente bancada pela estatal Terracap.

Após o torneio, o complexo enfrentou anos de ociosidade e custava quase R$ 10 milhões em manutenção básica, com receitas inexpressivas. O governo do Distrito Federal (GDF) tentou minimizar o rombo transferindo secretarias de estado para dentro da arena, o que apenas elevou as despesas com água, eletricidade e segurança.

Em 2020, buscando estancar a sangria direta, o GDF concedeu o complexo esportivo à iniciativa privada por 35 anos, transferindo a gestão para o consórcio Arena BSB. A estratégia utilizada para sustentar a operação, no entanto, ainda manteve custos para o contribuinte.

Para dar viabilidade à concessionária, o Banco de Brasília (BRB), instituição financeira estatal controlada pelo GDF, adquiriu os naming rights do estádio, que oficialmente passou a se chamar Arena BRB.

O banco pagou R$ 7,5 milhões por um contrato de três anos – R$ 2,5 milhões por ano, o equivalente à metade do que o GDF tinha o direito de receber pela outorga da concessão.

Em abril deste ano, o contrato foi cancelado em meio à crise no banco resultante da compra de bilhões em ativos do Banco Master.

Estádio Mané Garrinha Copa do Mundo no BrasilO Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, que ostenta o título de arena mais cara do Mundial de 2014 (Foto: Marcello Casal Jr. (Agência Brasil))

Arena das Dunas: prejuízo de R$ 400 milhões ao governo do RN

Erguida no lugar do antigo estádio Machadão, a Arena das Dunas, em Natal, teve custo anunciado de R$ 400 milhões e foi concedida à construtora OAS por 20 anos. Com a recuperação judicial da empreiteira nos anos seguintes, em razão das investigações da Operação Lava Jato, a gestão do ativo se tornou instável.

As demonstrações financeiras da concessionária atual referentes ao semestre encerrado em 30 de junho de 2025 mostram prejuízos acumulados da ordem de R$ 112,5 milhões, um agravamento em relação aos R$ 86,5 milhões contabilizados ao fim de 2024.

O prejuízo recai sobre os cofres públicos do estado do Rio Grande do Norte, por meio de contrapartidas previstas no contrato de concessão. No ano passado, uma auditoria da Controladoria Geral do Estado (Control) estimou que o impacto ao erário estadual poderia atingir até R$ 421 milhões ao final da vigência do contrato, em 2031.

Além disso, a auditoria constatou discrepâncias nos repasses de participação nos lucros. A concessionária estaria baseando-se no lucro bruto em vez de na receita líquida, reduzindo drasticamente os dividendos devidos ao Estado para um patamar de mero R$ 1,5 milhão.

Para evitar o prejuízo estatal, a Assembleia Legislativa aprovou uma renegociação do contrato com a concessionária. A repactuação estendeu o prazo de um dos contratos para equalizar a conta. Com isso, o valor repassado mensalmente foi reduzido em mais de 50%, caindo de R$ 11 milhões para R$ 4,5 milhões.

Mineirão e Fonte Nova exigem contraprestações milionárias dos governos de MG e BA

O modelo de PPP também é adotado no Mineirão, em Belo Horizonte, e na Arena Fonte Nova, em Salvador, com os estados assumindo o papel de fiadores da liquidez dos consórcios privados.

Em Minas Gerais, o contrato estipulou que o governo arcaria com uma contraprestação variável mensal ao consórcio Minas Arena, com teto original de R$ 3,7 milhões, garantindo a rentabilidade da operação ao longo de 25 anos após a entrega das obras.

Operacionalmente, o estádio gerou atritos com os clubes de Minas Gerais. O Atlético Mineiro registrou prejuízos superiores a R$ 392 mil com bilheterias de três jogos na arena no início de 2025, em razão da taxa cobrada pela concessionária sobre a renda bruta.

O Cruzeiro também enfrentou discordâncias contratuais em relação a taxas, receitas de bares e estacionamento. Embora a arrecadação bruta gerada dentro e fora do estádio seja estimada em centenas de milhões de reais, a divisão dessas receitas gera tensões.

Na Bahia, a Fonte Nova Negócios e Participações S.A. reportou prejuízo líquido de R$ 15,8 milhões em 2025, 42% acima do apurado em 2024.

O contrato de concessão vale até março de 2028 e envolve o recebimento de contraprestações públicas. Um aditivo contratual em 2021 promoveu um reequilíbrio financeiro da concessão, reduzindo o valor anual pago pelo Estado (de R$ 180,9 milhões para R$ 102,3 milhões).

Clubes que assumiram gestão aliviaram gasto público, mas há problemas

Por outro lado, os estádios da Copa de 2014 que são propriedade de clubes tornaram-se ativos lucrativos. É o caso dos estádios que sediaram jogos do Mundial em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. A construção ou modernização dos equipamentos, no entanto, também contou com recursos públicos.

Disputa judicial em torno de custos da Arena da Baixada durou uma década

Em Curitiba, o Athletico detém a propriedade e a gestão plena da Arena da Baixada. Mas a maior parte dos custos da adequação do estádio recaíram sobre o governo estadual e sobre a prefeitura municipal, após uma disputa na Justiça que só foi resolvida em 2023.

A obra de modernização do estádio teve o custo dividido em partes iguais (33,3%) entre o clube, o governo do Paraná e a prefeitura de Curitiba, conforme previsto em um acordo tripartite assinado em 2010. Para bancar sua parte, a administração estadual tomou crédito da linha ProCopa Arenas, do BNDES, por meio de seu banco estatal, a Fomento Paraná.

O orçamento original do projeto era de R$ 184,6 milhões, mas, durante a execução, o projeto sofreu diversas alterações, e o custo final do estádio disparou, fechando em R$ 346,2 milhões.

Baseados no contrato original, estado e prefeitura alegavam que só tinham a obrigação de pagar um terço do valor originalmente orçado (R$ 184,6 milhões). O Athletico então foi à Justiça argumentando que o acordo tripartite previa a divisão do custo final da obra, e não da estimativa inicial.

Enquanto o caso se arrastava nos tribunais, o clube suspendeu o pagamento das parcelas do financiamento, e os juros começaram a transformar a dívida em uma bola de neve. A dívida do clube com a Fomento Paraná ultrapassou os R$ 500 milhões.

A disputa só se encerrou em 2023, quando o Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) e o TCE-PR homologaram um acordo no qual ficou decidido que o custo da obra a ser considerado seria, de fato, os R$ 346,2 milhões.

A prefeitura de Curitiba pagou sua parte emitindo títulos de potencial construtivo para o clube. A cota devida pelo Athletico à Fomento Paraná, considerando correções, ficou em aproximadamente R$ 190 milhões, dos quais R$ 50 milhões foram pagos à vista, enquanto o restante foi dividido em parcelas anuais a serem pagas ao longo de 15 anos.

Ou seja, a previsão é que o clube liquide a dívida com o Estado apenas em 2038.

Arena Baixada Curitiba Copa do Mundo de 2014Arena da Baixada, em Curitiba, pertence ao Athletico, mas foi bancada parcialmente com recursos do estado do Paraná e da Prefeitura de Curitiba (Foto: Geraldo Bubniak/AEN)

Beira-Rio e Maracanã ainda estão financiados, mas dão lucro

O Beira-Rio, em Porto Alegre, é administrado por uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) formada pelo Internacional e que tem como acionistas a Andrade Gutierrez e o BTG Pactual. Em maio de 2004, as enchentes que atingiram o estado deixaram o campo do estádio completamente embaixo d’água, destruindo o gramado, vestiários, sistema elétrico e equipamentos eletrônicos – os cerca de R$ 35 milhões de prejuízo foram bancados pelo clube.

No Rio de Janeiro, o Maracanã está concedido, desde licitação em 2024, à SPE Fla-Flu Serviços S.A., formada por Flamengo (65% das cotas) e Fluminense (35%). O compromisso estabelece investimentos conjuntos na infraestrutura na ordem de R$ 393 milhões e o pagamento de uma outorga fixa anual de R$ 20 milhões repassada diretamente ao governo do estado do Rio de Janeiro. Com a grande movimentação de público, a operação tem sido lucrativa.

Neo Química Arena deve R$ 700 milhões para a Caixa

O estádio do Corinthians, em São Paulo, embora seja custeado pelo clube, mantém uma dívida milionária com a Caixa, que assumiu o financiamento originalmente concedido pelo BNDES. Pelo contrato, todas as receitas do estádio, incluindo bilheteria e exploração comercial de camarotes, deveriam ser direcionadas a um fundo imobiliário (Arena FII, administrado por Caixa e Novonor/Odebrecht) para quitar o débito da obra de 2014.

Ao longo da década, o tamanho da dívida cresceu exponencialmente devido a atrasos e aos encargos financeiros, fixados inicialmente a uma taxa de juros de 8,5% ao ano. Relatórios mais recentes do clube apontam que a dívida do financiamento exclusivo com a Caixa gira em torno de R$ 650 milhões a R$ 700 milhões.

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