A 68ª Cúpula do Mercosul, realizada nesta terça-feira (30), em Assunção, no Paraguai, serviu como palanque eleitoral para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que insiste na mobilização do continente sul-americano em torno de pautas econômicas em contraponto ao governo dos Estados Unidos.
Pela primeira vez, o petista se declarou candidato à reeleição em outubro e ainda propôs a expansão do Pix para os países do Mercosul. O sistema de pagamentos brasileiro é alvo direto de críticas do presidente Donald Trump, que argumenta que a tecnologia prejudica empresas norte-americanas no setor financeiro.
Ao empurrar o Pix para o centro do debate regional, Lula escolhe confrontar Washington de forma calculada. O doutor e mestre em Relações Internacionais Cezar Roedel, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), interpreta o movimento como estratégia eleitoral deliberada. Na avaliação dele, a briga com Trump não é vista como um risco por Lula, mas como um ativo.
“No plano político, Lula claramente tenta transformar uma inovação brasileira em instrumento de influência regional e em símbolo de autonomia estratégica. Se isso produzir atrito com Washington, o governo brasileiro tende a capitalizar esse atrito como prova de independência com finalidade eleitoral”, analisa.
Apesar da narrativa petista, Lula não conseguiu esconder o esvaziamento político da cúpula após a onda de vitórias eleitorais da direita na América do Sul. O presidente argentino, Javier Milei, não compareceu ao evento. Na véspera, Milei recebeu em Buenos Aires o senador e pré-candidato à Presidência do Brasil Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Milei é um dos principais líderes do continente em oposição a Lula, que tenta manter a antiga influência da esquerda no Mercosul. O presidente argentino defende a livre negociação entre as nações, a redução da presença do Estado na economia e a integração com mercados globais, em especial com os Estados Unidos, sem as travas protecionistas que caracterizam o modelo do bloco. Para Milei, o Mercosul é um obstáculo à modernização econômica da região.
Ao optar pelo encontro com Flávio Bolsonaro no lugar da cúpula, ele sinaliza como deve ser a postura do governo argentino nas relações com o Brasil e se aproxima do principal nome da oposição às vésperas do início da campanha presidencial.
“O fato de ele ter recebido Flávio poucas horas antes de anunciar a ausência na cúpula do Mercosul não é acidental. É uma mensagem clara de que a prioridade é o alinhamento ideológico e político com a oposição brasileira, com os conservadores, com o eixo que Trump está construindo na região”, explicou o cientista político Leonardo Volpatti.
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A ausência de Milei na cúpula não é um episódio isolado. A ascensão de governos comprometidos com a agenda liberal em boa parte do continente reacendeu os princípios de livre mercado, concorrência aberta e redução do Estado. O bloco, fundado sobre o consenso e a integração regulatória, enfrenta uma crise de identidade após ser formado por décadas por uma maioria de esquerda.
Volpatti avalia que o racha entre Brasil e Argentina já compromete a capacidade operacional do bloco e as estruturas políticas. “O bloco opera por consenso, o que significa que qualquer avanço significativo precisa do aval de todos os membros. Com Brasil e Argentina em direções opostas, Lula buscando fortalecer a integração regional e com a União Européia, a Argentina buscando negociar bilateralmente com os Estados Unidos, o Mercosul fica engessado, incapaz de responder aos desafios geopolíticos que enfrenta”, afirma.
Na pauta oficial de Assunção, os presidentes presentes discutiram a abertura de negociações para acordos de livre comércio com Japão e Vietnã. Além disso, o Mercosul firmou apoio institucional à Venezuela após os terremotos que devastaram o país.
“O racha entre Brasil e Argentina é real e profundo, mas não é apenas uma questão de ideologia ou preferência por bilateralismo. Ele é parte de uma estratégia maior de reconfiguração geopolítica da região”, ressalta o cientista político.

















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