Nas primeiras páginas de Grande Sertão: Veredas, os moradores de um povoado matam um bezerro. O animal tinha traços que lembravam um rosto humano sorrindo, e concluíram que aquilo era o demônio. Riobaldo, que conta o caso sem ter ido ver, registra só o veredito: “determinaram, era o demo. Povo prascóvio. Mataram.” O romance de João Guimarães Rosa completa setenta anos em 2026, e a primeira coisa que faz, antes de retratar qualquer guerra de jagunços, é matar um animal por suspeita a respeito da origem do mal.

A obra-prima de Guimarães Rosa, em sua dimensão mais profunda, é um livro sobre Deus e o diabo.

A frase de abertura já adianta o teor teológico da obra. “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja”, diz o narrador a um interlocutor que passa três dias em sua fazenda ouvindo, quase sempre calado, a história inteira. Riobaldo é um ex-jagunço velho e rico que trocou as letras pela vida armada no sertão de Minas e agora, na varanda, tenta entender o que viveu. As batalhas e a morte do grande chefe Joca Ramiro ocupam centenas de páginas, mas não são o que tira o sono do velho. O que o persegue é uma pergunta de outra natureza, a de saber se ele vendeu ou não a alma.

O diabo vige dentro do homem

Riobaldo não decide. Ao longo do relato ele afirma e desmente o diabo dezenas de vezes, às vezes na mesma página. Ora ensina ao vistante que “o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem”, e que solto, por si, “não tem diabo nenhum”. Ora suspeita que o capeta em pessoa passou pela região. A dúvida não funciona como enfeite retórico, é o eixo sobre o qual o livro inteiro gira, e Rosa nunca o fecha.