
A desastrosa sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) da terça-feira (15) abriu nova frente de discussão na direita, se é hora de convocar ou não seus apoiadores às ruas para pressionar os plenários da Corte e do Senado diante do impasse para se autorizar a investigação contra o ministro Alexandre de Moraes.
O julgamento deixou profundo mal-estar para milhões de brasileiros e grave desconfiança entre investidores e observadores internacionais, aturdidos com o decadente retrato que pintou da República brasileira. Após oito horas de embates, o plenário do STF decidiu nada decidir e consolidar incertezas.
A crise, portanto, está longe de terminar. O presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu também a sessão prevista para quarta-feira (23), enquanto ainda persistem dúvidas sobre rito, relatoria e separação de casos. Se considerar as suspeições e o quórum apertado, a autocontenção da Corte é impossível.
De catimba e bate-boca no plenário da Corte para o clamor das ruas e urnas
O imbróglio reforçou entre setores da direita a tese de que a solução política para a crise passa mesmo pelo Senado, a quem cabe constitucionalmente processar o impeachment de ministros de tribunais superiores. Com a eleição próxima, os senadores da próxima legislatura ganharam um papel essencial.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), mais influente parlamentar de direita do país nas redes sociais, tornou-se o primeiro e principal defensor de uma nova mobilização popular. Rapidamente, ele classificou a sessão do STF de “circo” e afirmou que o país deveria parar e ir às ruas na próxima reunião da Corte.
Sugerindo um ato sem candidatos ou carros de som e aberto para cidadãos até de outras vertentes ideológicas, que deixariam divergências de lado em favor da causa maior da defesa da institucionalidade e a da democracia, Nikolas colocou à mesa um tema que engaja, mas também divide a direita.
Nikolas liderou protesto contra Alcolumbre no estado do senador
A convocação de Nikolas não veio do nada. Antes, no dia 13 de setembro, ele liderou manifestação para pressionar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), no Amapá, estado do senador, pelo andamento do impeachment de Moraes. No 7 de Setembro, houve atos contra o ministro em ao menos 15 cidades.
O movimento, porém, encontra cautela dentro da própria direita. O receio é que incidentes isolados, confrontos ou provocações desviem o foco das denúncias envolvendo o Banco Master e deem argumentos para associar de novo os protestos conservadores aos acontecimentos do 8 de Janeiro.
O temor tem lá as suas razões. Setores governistas e o próprio Moraes vêm usando a expressão “golpe continuado” para relacionar o 8 de Janeiro a pressões posteriores contra o STF, incluindo articulações internacionais por sanções a autoridades brasileiras. Para eles, seria um novo modus operandi.
Rony Gabriel, vereador de Erechim (RS), influenciador de direita e candidato a deputado federal pelo Podemos, tem ganhado projeção nacional ao fazer duras críticas e cobrar investigações contra Moraes, defendendo que integrantes do STF respondam por seus atos perante a lei.
Contudo, ele foi um dos que criticaram líderes que convocaram a população para protestos nas ruas contra o ministro, alertando que, no atual contexto eleitoral, os conservadores podem cair em novas armadilhas da esquerda. “Tudo que o governo e Moraes querem nesse momento é um motivo para punir seus rivais, supostamente defendendo a democracia ou o STF”, diz.
Esquerda tem discurso pronto para denunciar excessos em protestos de rua
Moraes tem sustentado que acusações do escândalo Master contra ele são “tentativa de vingança” de aliados de Jair Bolsonaro, entre os quais o colega André Mendonça. E o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vê a prisão do antecessor como causa de birra do rival Flávio Bolsonaro (PL) com o juiz. Lula ainda acusou Mendonça de agir politicamente e de divulgar seletivamente.
Há ainda um precedente recente para a preocupação com a segurança. Na caminhada organizada por Nikolas em janeiro, sua própria equipe montou cordão de proteção por receio da presença de infiltrados capazes de agredi-lo. O episódio ajuda a explicar a cautela diante de novos grandes protestos.
Desta forma, a divergência na direita é sobretudo tática. Uma ala vê as ruas como instrumento legítimo de pressão sobre Senado e STF; outra, contudo, teme que qualquer descontrole dê aos adversários a chance de recolocar o 8 de Janeiro no meio da campanha e deslocar o debate de graves suspeitas.
















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