
Quando precisou de uma figura para o Cristo de Nárnia, C.S. Lewis escolheu o leão, o animal que o Apocalipse associa ao Messias ao chamá-lo de Leão da tribo de Judá. Mais de sete décadas depois da publicação de O Sobrinho do Mago, Greta Gerwig, a diretora de Barbie, apresentou na capa da revista britânica Empire a sua versão do personagem, com olhos de cores diferentes e listras vermelhas no rosto em referência declarada a David Bowie, e com a voz de Meryl Streep. O filme só chega aos cinemas em fevereiro de 2027, mas a primeira imagem bastou para devolver ao público uma questão que o próprio Lewis enfrentou em vida, a de saber se a imagem de Deus pode trocar de voz sem trocar de sentido.
A apreensão de parte dos fãs se deve ao histórico da Netflix em alterar a raça ou etnia de personagens estabelecidos — como Yennefer e Fringilla Vigo em The Witcher, a rainha Cleópatra na docussérie de 2023 ou os nobres britânicos em Bridgerton —, o que muitos criticam como uma tentativa de forçar diversidade de maneira artificial nas produções.
Da Mattel para a Netflix
Gerwig vem do cinema independente americano. Depois de Lady Bird (2017) e Adoráveis Mulheres (2019), dirigiu Barbie (2023), a comédia sobre a boneca da Mattel que passou de US$ 1,4 bilhão em bilheteria. Em 2023, confirmou que adaptaria as Crônicas de Nárnia para a Netflix, dona dos direitos da série desde 2018.
O primeiro filme adapta O Sobrinho do Mago, sexto livro publicado por Lewis e primeiro na cronologia da saga, que nunca havia sido levado às telas. Digory e Polly, duas crianças de Londres, são lançados a outros mundos por Andrew Ketterley, tio de Digory e mágico amador, e acabam testemunhando o momento em que Aslan canta Nárnia até ela existir. Gerwig transferiu a história de 1900 para os anos 1950 e escalou Emma Mackey como a feiticeira Jadis e Daniel Craig como o tio Andrew. A estreia está marcada para 12 de fevereiro de 2027 nos cinemas, com sessões prévias em IMAX a partir de 10 de fevereiro, e o filme chega à Netflix em 2 de abril.
O nome de Streep circulava desde abril de 2025, quando o site Deadline noticiou que ela negociava o papel. À Empire, Gerwig explicou a escolha da atriz, que já havia dirigido em Adoráveis Mulheres. Queria alguém “profundo, mas não pretensioso”, com gravidade, mas sem “uma autoimportância sombria”, com mais de 70 anos, “para que houvesse a sabedoria da experiência”, e que ainda guardasse “a capacidade de se maravilhar como uma criança”. E que fosse uma das maiores atrizes de todos os tempos. “Essa lista não é longa”, disse.
O rei dos goblins
Gerwig diz que queria “uma ópera-rock”, algo “grande e arrebatador”. O filme não é um musical, mas a diretora tomou o rock britânico dos anos 1960 e 1970, do glam ao progressivo, como ponto de partida criativo. “David Bowie salvou minha vida. Paul McCartney salvou minha vida”, enumerou, antes de citar outros nomes. O raciocínio é que Nárnia é literalmente um mundo feito de música, cantado por Aslan, e que o rock lhe pareceu também um mundo feito de música. A trilha é de Mark Ronson e Andrew Wyatt, os mesmos compositores de Barbie.
A capa da Empire traz um leão cuja juba e focinho misturam pelo e uma textura de mosaico. A comparação que salta aos olhos é com Labirinto (1986), a fantasia de Jim Henson em que Bowie, de cabelo espetado e maquiagem carregada, interpretava Jareth, o rei dos goblins. No filme de Henson, a figura de Bowie era o vilão, um rei que sequestra um bebê e tenta convencer a irmã mais velha a desistir de resgatá-lo.
O leão que tem outro nome
Em A Viagem do Peregrino da Alvorada, o leão diz a Lúcia e Edmundo que também existe no mundo deles, mas lá tem outro nome, e que os dois foram levados a Nárnia para que, conhecendo-o ali, pudessem conhecê-lo melhor em casa. Em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, Aslan morre na Mesa de Pedra no lugar de um traidor e ressuscita na manhã seguinte. O Sobrinho do Mago é o Gênesis da série, com criação, tentação e uma maçã.
Lewis também escreveu sobre o gênero das imagens divinas. Em 1948, no ensaio Sacerdotisas na Igreja?, contrário à ordenação de mulheres na Igreja Anglicana, argumentou que as imagens masculinas de Deus no cristianismo não eram convenção cultural que se pudesse trocar à vontade. Rezar a uma Mãe no céu, sustentava, resultaria em outra religião.
“Ainda estou esperando”
Louis Markos, professor de inglês e pesquisador residente da Houston Christian University, no Texas, e autor de livros sobre Lewis, prefere não dar veredicto. “Pelo visto, Aslan continua sendo um leão, e macho”, disse à Gazeta do Povo. “Se modificarem a voz dela para soar como a de um leão, não será tão ruim. Mas não podem tornar Aslan andrógino.” Markos quer ver o filme inteiro antes de concluir. “Só rezo para que não o estraguem.”
Um leitor do NarniaWeb, o principal fórum de fãs da saga, olhou para a mesma imagem e chegou à conclusão oposta, a de que o leão divino de Gerwig é andrógino de forma deliberada. No Instagram, sob a imagem da capa, uma leitora escreveu que já esperava a notícia, mas que ver a escolha oficializada a decepcionou, e que não concorda com ela, apesar das explicações de Gerwig. Vai continuar, disse, com a série da BBC (1988-1990) e os filmes lançados entre 2005 e 2010, nos quais Aslan tinha a voz de Liam Neeson. O comentário teve 80 curtidas. Outro seguidor lamentou que não verá uma adaptação fiel da saga completa e disse que teria sido melhor entregar um cheque em branco a Peter Jackson.
Há quem defenda a escolha. Nos comentários do Deadline, um leitor perguntou se alguém acha que Bart Simpson é menina porque é dublado por uma mulher.

















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