O modelo de eleição brasileira para os cargos do Executivo prevê dois turnos, mas a disputa presidencial ultimamente tenta resolver o pleito como se houvesse apenas uma única etapa. À medida que a votação se aproxima, candidatos, partidos e militantes passam a repetir o mesmo argumento: é preciso concentrar votos em quem aparece na frente para impedir a vitória do adversário. A lógica é simples — e politicamente poderosa. O eleitor que não gosta de nenhum dos favoritos é chamado a escolher aquele que considera menos ruim, no chamado “voto útil”. 

Embora seja uma estratégia eleitoral conhecida por sua aplicação no segundo turno, o fenômeno produz um efeito importante sobre a fotografia que sai das urnas no primeiro domingo de eleição: candidatos que poderiam representar parcelas relevantes do eleitorado podem desaparecer na contagem final. E isso ocorre não necessariamente por falta de identificação com suas propostas, mas porque seus potenciais eleitores foram convencidos de que votar neles seria desperdiçar o voto. 

Cientista política e professora da FGV, Luciana Veiga vê aí uma distorção da lógica esperada de uma eleição em dois turnos. Na avaliação dela, o primeiro turno deveria permitir ao eleitor expressar sua preferência entre as diferentes alternativas, enquanto a decisão entre dois nomes deveria ficar apenas para a segunda etapa. 

“A lógica de um sistema eleitoral em dois turnos é fazer com que o eleitor, num primeiro momento, no primeiro turno, vote em quem ele gostaria de votar. O que a gente está vendo é uma anomalia do que se poderia esperar do sistema”, avaliou, em entrevista à Gazeta do Povo.