
A abstenção voltou a se aproximar do maior patamar dos últimos 30 anos. No primeiro turno das eleições de 2022, 20,95% dos eleitores aptos não compareceram às urnas, o equivalente a 32,77 milhões de pessoas. Foi a maior taxa desde 1998, quando 21,49% deixaram de votar. A diferença entre os dois pleitos foi de apenas 0,54 ponto percentual. O TSE registrou 156,45 milhões de eleitores aptos em 2022 e 123,68 milhões de comparecimentos. O levantamento do Congresso em Foco foi feito com base em dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O perfil e o mapa regional de quem deixa de votar, no entanto, mudaram ao longo das últimas eleições. Nordeste e Norte reduziram suas taxas, enquanto o Sudeste passou a liderar o não comparecimento. Ao mesmo tempo, os eleitores com menor escolaridade e os adultos mais jovens passaram a concentrar uma parcela maior dos que ficam fora das urnas.
A trajetória do não comparecimento não é contínua. Em 2002, a abstenção caiu para 17,74% e chegou ao menor nível do período analisado em 2006, com 16,75%. Depois disso, voltou a subir: foi de 18,12% em 2010 para 19,39% em 2014, 20,33% em 2018 e 20,95% em 2022.
Em 2014, 27,7 milhões de eleitores não compareceram. Em 2018, foram 29,9 milhões. Em 2022, com o eleitorado apto já em 156,45 milhões, o número chegou a 32,77 milhões. Na prática, quase um em cada cinco eleitores habilitados deixou de votar no primeiro turno.
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Escolaridade é a maior diferença
A escolaridade aparece como o maior contraste no comparecimento dos eleitores. Em 2022, a abstenção entre os eleitores declarados analfabetos chegou a 52,08%, enquanto entre aqueles com ensino superior completo ficou em 11,85%, uma distância de mais de 40 pontos percentuais. Em termos proporcionais, a ausência entre analfabetos foi mais de quatro vezes superior à registrada entre os eleitores com diploma universitário.
A comparação exige cautela porque o voto é facultativo para analfabetos, assim como para jovens de 16 e 17 anos e maiores de 70. Além disso, escolaridade pode estar relacionada a renda, idade, condições de deslocamento e outros fatores que os dados isoladamente não permitem separar.
O recorte por gênero apresenta uma diferença menor. As mulheres compareceram mais às urnas do que os homens em 2022. A taxa de abstenção feminina foi de 19,8%, enquanto a masculina chegou a 21,86%. Como as mulheres são maioria no eleitorado brasileiro, a diferença de comparecimento aumenta seu peso entre os votos efetivamente depositados.
Jovens faltam mais; idosos aumentam presença
Os dados mostram uma inversão dentro do eleitorado: enquanto os mais velhos passaram a comparecer proporcionalmente mais, a ausência cresceu entre os adultos jovens. A abstenção entre pessoas com 60 anos ou mais caiu de 37,1% em 2014 para 36,4% em 2018 e 34,5% em 2022.
A queda foi ainda mais acentuada entre os eleitores com 70 anos ou mais, faixa em que o voto é facultativo. A abstenção passou de 63,6% em 2014 para 62,7% em 2018 e 58,9% em 2022 no primeiro turno. No segundo turno daquele ano, recuou novamente, para 54,7%.
O movimento foi inverso entre os jovens adultos. Na faixa de 18 a 34 anos, a abstenção subiu de 18,4% em 2014 para 19,3% em 2018 e chegou a 21,3% em 2022.
Entre adolescentes de 16 e 17 anos, para quem o voto também é facultativo, houve aumento de 52,3% no comparecimento dos eleitores cadastrados entre 2018 e 2022, segundo o TSE. Ao mesmo tempo, porém, caiu o percentual de jovens que deixaram de tirar o título eleitoral nessa faixa etária.
Sudeste passa a concentrar maior abstenção
No mapa regional, chama atenção a inversão dos números. Em 1998, as maiores taxas médias de abstenção estavam no Nordeste, com 25,5%, e no Norte, com 24,7%. Em 2022, os dois índices haviam recuado para 19,2% e 20,4%, respectivamente.
No Sudeste, o caminho foi contrário. A taxa média passou de 19,6% em 1998 para 21,8% em 2022, tornando-se a maior entre as regiões brasileiras. No Sul, o índice subiu de 17,5% para 19,2%. No Centro-Oeste, permaneceu praticamente estável, de 21,4% para 21,2%.
A lista dos estados com maior abstenção em 2022 reforça essa distribuição. Rondônia registrou 24,7%, seguida por Mato Grosso, com 23,4%, Rio de Janeiro, com 22,7%, Acre e Alagoas, ambos com 22,4%.
A renda média dos estados, por outro lado, não explica sozinha o comportamento. O cruzamento dos dados de abstenção com o rendimento domiciliar per capita do IBGE resultou em uma correlação próxima de zero. Estados mais ricos ou mais pobres, portanto, não formam um padrão suficiente para explicar quem deixa de votar.
O que a abstenção pode representar em 2026
O comportamento ganha peso na eleição deste ano numa disputa presidencial concentrada em poucos pontos percentuais. No Datafolha divulgado em 2 de outubro, Lula aparece com 42% das intenções de voto no primeiro turno, contra 38% de Flávio Bolsonaro. Nos votos válidos, a diferença é de 45% a 40%.
O levantamento também encontrou 5% de eleitores que pretendem votar em branco ou nulo e 2% de indecisos. No segundo turno, Lula registra 48%, contra 45% de Flávio Bolsonaro.
A pesquisa Datafolha também mediu a disposição de comparecer às urnas. Entre os entrevistados, 17% deram notas de zero a oito para a probabilidade de votar, grupo associado a maior chance de abstenção. Nesse segmento, jovens e eleitores menos escolarizados estão acima da média.
No recorte regional, o dado acrescenta um indicador atual ao histórico do levantamento do Congresso em Foco: o grupo com menor disposição declarada para votar é maior no Sudeste do que no Nordeste. No Nordeste, há uma parcela maior de eleitores que atribui notas 9 ou 10 à probabilidade de comparecer às urnas.
Metodologia
Datafolha: 2.506 entrevistados entre 29 de setembro e 1º de outubro de 2026, em 152 municípios de todas as regiões do país, por meio de entrevistas presenciais com eleitores de 16 anos ou mais. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi contratada pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo e está registrada no TSE sob o número BR-08039/2026

















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