O cancelamento do último debate presidencial da TV Globo, na noite da quinta-feira (1º), produziu uma situação que seria difícil imaginar poucos anos atrás. Depois de receber decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) que alteravam as regras do programa, a Globo denunciou uma “interferência indevida” do Judiciário na liberdade dos veículos de comunicação para organizar debates eleitorais, e cancelou o evento alegando insegurança jurídica.

A reação da emissora se soma a uma mudança de tom já perceptível entre setores que, nos últimos anos, haviam apoiado a censura do Judiciário sobre o debate público. Políticos, artistas e formadores de opinião que defenderam bloqueios de plataformas e remoções de conteúdo em nome de um suposto combate à desinformação agora veem suas próprias publicações atingidas e passam a falar em censura ou ameaça à liberdade de expressão. O aparato criado para alcançar adversários políticos começa a produzir efeitos também sobre quem ajudou a legitimá-lo.

Artistas, parlamentares e comentaristas que no passado defenderam a censura do Judiciário agora também reclamam de publicações derrubadas, depois de serem enquadrados pelas regras que apoiaram.

Um dos casos mais recentes é o do humorista Antonio Tabet, que argumentava, em defesa das decisões de censura do Judiciário, que determinados discursos não podem ser tratados como se estivessem fora de qualquer responsabilidade. Quando o ministro André Mendonça decidiu retirar uma publicação sua no caso recente da fake news sobre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida, Tabet passou a falar explicitamente em censura e levou a questão ao Supremo. Ao final, o próprio TSE delimitou a ordem inicial e permitiu que sua postagem permanecesse no ar.