
Basta alguém mencionar a decrepitude de Lula para que o coro de almas sensíveis da imprensa amestrada denuncie o crime de etarismo. Concedo de saída o ponto aos queixosos, até porque não me custa nada. A idade, por si, não é argumento contra ninguém. O Senado romano tirou seu nome dos senes, os velhos, e Roma confiou a eles o leme da república por séculos. O problema nunca foi o número de anos. O problema é o que um homem faz com eles. E o que o Descondenado-em-chefe fez com os seus é matéria para um tratado inteiro sobre como envelhecer mal.
Em 44 a.C., quando via a república afundar sob a ditadura de César, Cícero refletiu sobre a velhice em Cato Maior de Senectute (“Catão, o Velho, sobre a Velhice”). No diálogo, o velho Catão, octogenário, enumera as quatro queixas que pesam contra a velhice: ela afasta o homem da ação, enfraquece o corpo, rouba os prazeres e o põe perto da morte. Em seguida, desmonta-as uma a uma. As grandes coisas, ensina, não se fazem com a força ou a agilidade do corpo, mas com o conselho, a autoridade e o juízo (consilio, auctoritate, sententia). O velho é o piloto que já não sobe nos mastros, mas segura o leme. E a coroa da idade, o apex senectutis, não são os cabelos brancos. É a autoridade que eles conquistaram.
Note-se também aquilo que Cícero não diz. Ele não diz, por exemplo, que todo velho possui essa autoridade. Em verdade, diz o contrário, numa imagem de vinhateiro: assim como nem todo vinho azeda com o tempo, nem toda natureza azeda com a idade. O tempo não fabrica o vinagre. Apenas revela o que já fermentava no tonel. E o tonel do lulopetismo, convenhamos, nunca foi safra de guarda.
O problema nunca foi o número de anos. O problema é o que um homem faz com eles
O marido de Janja completa 81 anos em 27 de outubro, dois dias depois do segundo turno em que disputará com Flávio Bolsonaro, que o superou no primeiro. É sua sétima candidatura presidencial. Em outubro de 2024 sofreu uma queda no banheiro do Alvorada e, em dezembro, foi operado às pressas para conter uma hemorragia intracraniana. Disso não faço caso. O corpo cede, e ceder é o que os corpos fazem. Catão seria o primeiro a lembrar que a fraqueza física é tributo da natureza, não motivo de vergonha.
A decrepitude que interessa é outra, e por ela o petista não pode culpar a natureza, cabendo mais à cultura (política) e ao indivíduo a responsabilidade. Falo da decrepitude do espírito que envelhece sem amadurecer, a que proponho chamar de velhice sem senectude: o acúmulo de anos sem a correspondente acumulação de sabedoria. Um homem pode chegar aos 80 com a alma de um agitador de porta de fábrica ou, pior, a de um novo rico moralmente amolecido por uma vida de luxos e mimos. Basta não ter aprendido nada no caminho. E, zanzando por palanques cada vez mais vazios, tal qual uma caricatura de si mesmo, o Descondenado mostra que não aprendeu.
Cícero conta que Sófocles, já idoso, foi arrastado ao tribunal pelos próprios filhos, que o queriam interditar por senilidade. Em sua defesa, o poeta leu aos juízes o Édipo em Colono, que acabara de escrever, e perguntou se aquilo parecia obra de um demente. Foi absolvido pela própria obra. O Descondenado-em-chefe também saiu absolvido, ou quase, mas por outro caminho. Até por uma confessa preguiça de ler, tragédia alguma leu aos juízes. Em março de 2021, o STF companheiro descobriu, com quatro anos de atraso, que a vara de Curitiba não era competente para julgá-lo, e as condenações evaporaram por um detalhe de endereço. Sófocles foi salvo pelo que escreveu. Lula, pelo CEP. A diferença entre as duas absolvições é a diferença entre a autoridade e o salvo-conduto.
A mesma anedota de Sófocles tem um segundo capítulo. Perguntado se ainda se entregava aos prazeres de Vênus, o velho poeta respondeu que se livrara deles com alívio, como quem foge de um senhor bruto e furioso. Os antigos liam a resposta como evangelho da libertação: a idade desata as correntes do apetite e deixa a alma enfim livre para o que importa. O petista inverteu a lição clássica. Ao assumir o seu terceiro mandato, referiu-se à nova mulher, Janja, e gabou-se de ter tesão de 20 anos e energia de 30. Ou seja, onde o grego via alforria, na redução natural da libido, o Descondenado via perda, tratando de negá-la com bravatas de vestiário.
O discurso segue o mesmo padrão retórico de imaturidade. Um homem que governou o país por mais de uma década e pede agora um quarto mandato teria tudo para ser o piloto de Catão, aquele que já não precisa gritar porque o juízo lhe basta. Lula, porém, fala como o sindicalista de 1979 em cima do caminhão de som, só que agora, além de milionário, com a máquina do Estado e os amigos de toga a seu favor. Em julho de 2023, em Bruxelas, chamou de “animais selvagens” os integrantes da família Mantovani, que foram agredidos verbalmente por Alexandre de Moraes e família no aeroporto de Roma. Disse ainda que “essa gente” deveria ser “extirpada”. Em fevereiro de 2024, na Etiópia, comparou Israel ao regime nazista. Em maio de 2023, recebendo Nicolás Maduro em Brasília, reduziu a ditadura venezuelana a uma “narrativa”. E, na noite de 4 de outubro, recebendo o resultado adverso, não encontrou nada melhor a oferecer além da promessa que sua própria voz débil e roufenha parecia desmentir: “bolsonaristas, se preparem, porque nós vamos derrotá-los!”
Em sua notável Epístola 12, Sêneca evoca uma cena admirável acerca do envelhecimento. Visitando sua casa de campo, queixa-se ao caseiro de que os plátanos estão maltratados. O caseiro jura que faz tudo certo. As árvores é que estão velhas. Sêneca lembra que as plantou ele mesmo e descobre, num susto, a própria idade. Daí extrai não o lamento, mas o programa: abracemos a velhice e amemo-la, pois ela é cheia de prazer para quem sabe usá-la. O sábio é aquele a quem a experiência ensina alguma coisa sobre si.
Sófocles foi salvo pelo que escreveu. Lula, pelo CEP. A diferença entre as duas absolvições é a diferença entre a autoridade e o salvo-conduto
Lula é imune a esse ensino. No mesmo 4 de outubro, confessou estar convencido de que venceria no primeiro turno e lembrou, sem sombra de ironia, que nutrira a mesma certeza contra Geraldo Alckmin e José Serra, e também não vencera. Sólon, conta Catão, envelhecia aprendendo algo novo a cada dia. O Descondenado envelhece desaprendendo a mesma lição a cada ciclo eleitoral.
O fracasso mais grave, contudo, não é pessoal. É de herança. Catão elogia o velho camponês que planta árvores cuja sombra jamais desfrutará, porque as planta para a geração seguinte. Em quatro décadas, nenhuma árvore cresceu à sombra de Lula. Quando a Justiça Eleitoral o barrou em 2018, o partido apresentou Fernando Haddad como procurador, e o procurador, um candidato débil e obtuso, perdeu feio para o fenômeno político Jair Bolsonaro. Oito anos depois, a esquerda brasileira não tem outro nome, outro projeto, outra gramática. Tem Lula. E depois de Lula, o deserto.
Cícero também dizia que a velhice só é honrada quando não se submete à tutela de ninguém (si nemini emancipata est). A ironia do caso brasileiro é que o velho conservou intacta a própria autonomia à custa da do partido. Quem vive sob tutela é a esquerda, condenada a uma menoridade perpétua sob um patriarca que não admite o crescimento alheio. O homem que se recusa a envelhecer impede os seus de amadurecerem.
Nenhuma árvore cresceu à sombra de Lula. A esquerda brasileira não tem outro nome, outro projeto, outra gramática. Tem Lula. E depois de Lula, o deserto
Em De brevitate vitae, Sêneca registra o caso de Turânio, funcionário zeloso que, aos 90 e tantos anos, foi dispensado do cargo por Calígula. Em vez de agradecer o descanso, deitou-se na cama e mandou que a família o chorasse como morto. A casa inteira pranteou a aposentadoria do velho senhor até que o devolvessem ao serviço. Sêneca não precisou comentar. Nem eu preciso.
De Cícero a Sêneca, uma metáfora atravessa a literatura antiga: a vida como peça de teatro. A natureza, diz Catão, é boa autora e não descuidaria do último ato como um poeta preguiçoso. Sêneca completa, na Epístola 77, que não importa o quanto dura a peça, mas quão bem é representada. O último ato pede gravidade, recolhimento, o gesto de quem passa o bastão e deixa o palco antes que a plateia se canse.
O Descondenado-em-chefe prefere reprisar o primeiro ato, com a mesma voz rascante, o mesmo inimigo a mesma pose de pai dos pobres. As palavras de ordem continuam as mesmas, bem como os maneirismos – aprendidos com os intelectuais orgânicos da USP.

















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