
As eleições gerais de 4 de outubro deram recados importantes: o pêndulo moveu-se claramente na direção conservadora. A politização do Supremo Tribunal Federal, estou certo, contribuiu bastante para esse movimento. Lula pagou o preço do desgaste de um estilo de governo personalista e populista. Não teve a grandeza de formar um sucessor.
Agora é preciso pensar no Brasil. O país está cansado da gritaria. A polarização estéril consumiu energias, dividiu famílias, rompeu amizades e sequestrou a agenda nacional. Enquanto os poderosos alimentam suas guerras, o cidadão trabalha, paga impostos e espera respostas que não chegam. É hora de sair desse atoleiro.
Conciliação, tolerância e perdão fazem parte da tradição brasileira. Nossa história registra gestos de pacificação diante de conflitos graves. Juscelino Kubitschek apoiou a anistia a militares que se rebelaram contra seu governo. Compreendeu que a grandeza de um governante se mede também pela capacidade de superar ressentimentos e pensar no destino da nação. É esse espírito público que nos falta.
Excessos e desvios de conduta de autoridades precisam ser apurados e punidos, mas não há futuro quando a revanche vira programa de governo
Pacificar exige respeito à lei, compromisso com a verdade e disposição para corrigir abusos. Não há paz duradoura sem justiça. Excessos e desvios de conduta de ministros da corte suprema e de outras autoridades da República precisam ser apurados e punidos nos termos da lei. Tampouco há futuro quando a revanche vira programa de governo e a perseguição ao adversário substitui as soluções para o país.
O Estado brasileiro está sufocado por despesas, ineficiência e privilégios. Os serviços públicos decepcionam. A carga tributária castiga quem produz. Aumentar impostos para sustentar uma máquina que custa demais e entrega de menos é uma insanidade. O Brasil precisa de responsabilidade fiscal, reformas e desenvolvimento. E desenvolver exige estabilidade, segurança jurídica e paz.
A disputa política foi rebaixada a um campeonato de paixões. Ideias perderam espaço para slogans. Líderes são venerados como semideuses ou tratados como demônios. A militância cobra obediência, pune a dúvida e transforma divergência em traição. Os extremos se alimentam mutuamente. Cada provocação justifica outra. E o Brasil fica para depois.
Esse mecanismo é perverso. A cada eleição, cresce a hostilidade. A cada crise, reaparece a tentação de eliminar politicamente o outro. O debate público se estreita, a razão recua e a sociedade paga a conta. Perdemos tempo, investimentos e oportunidades. Sobretudo, perdemos a capacidade de construir um horizonte comum.
As redes sociais ampliaram o problema. O insulto circula mais depressa que o argumento. O radicalismo rende cliques. A gritaria dá audiência. Mas popularidade digital não é espírito público. Um país não se governa com memes, ameaças e frases de efeito. A democracia exige conteúdo, verdade e responsabilidade. Nenhuma nação prospera quando seus cidadãos são estimulados a se enxergar como inimigos.
É preciso desarmar os espíritos. Divergir faz parte da democracia. Intimidar, perseguir e silenciar corroem suas bases. As diferenças são legítimas e necessárias. O que não podemos aceitar é sua conversão em licença para o ódio. O adversário tem direitos. O poder tem limites. Nenhum governante, parlamentar ou magistrado está acima da lei.
O Brasil precisa de um projeto nacional. Educação de qualidade, saúde eficiente, segurança pública, ciência, tecnologia e infraestrutura devem ser prioridades de Estado. O desenvolvimento sustentável da Amazônia precisa integrar essa agenda, com oportunidades para sua população e respeito ao patrimônio ambiental. Nada disso pode continuar refém do calendário eleitoral ou do balcão da barganha política.
Precisamos pensar grande e agir com seriedade. Retomar o desenvolvimento econômico, científico, tecnológico e social, como defende Aldo Rebelo, exige visão de país e afirmação de nossos interesses nacionais. Temos recursos, capacidade produtiva e talento. Falta transformar esse potencial em prosperidade, empregos e oportunidades.
Líderes são venerados como semideuses ou tratados como demônios. A militância cobra obediência, pune a dúvida e transforma divergência em traição
Esse salto depende de planejamento de longo prazo, contas públicas responsáveis e instituições confiáveis. Depende também de líderes capazes de negociar, ouvir e construir convergências. Governar exige firmeza. Mas firmeza não se confunde com truculência. Liderança se revela na capacidade de unir esforços em torno do bem comum.
A pacificação exige coragem política. Coragem para conter os próprios excessos, reconhecer a legitimidade do outro e enfrentar os problemas reais. O país precisa virar a página do confronto permanente. Precisa crescer, oferecer perspectivas aos jovens e devolver esperança a quem trabalha.
Os políticos precisam superar a polarização estéril e trabalhar por um grande projeto de país. Os três poderes da República têm o dever de compreender o recado das urnas: os brasileiros querem seu país de volta. Não admitem que continue sequestrado por aqueles que fazem da política um instrumento a serviço dos próprios interesses.
O Brasil exige estadistas, não incendiários. Quem vive de alimentar o ódio pode conquistar seguidores. Não constrói uma nação.

















Leave a Reply