Encurralado pelo resultado das urnas no último domingo (4) e pelo avanço expressivo da bancada do Partido Liberal (PL), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), aposta na aprovação da Proposta de Emenda à Constituição do fim da escala 6×1 (PEC 221/2019) para tentar sobreviver politicamente e viabilizar sua reeleição à Mesa Diretora da Casa em 2027.
Analistas e interlocutores do Congresso ouvidos pela reportagem avaliam que o parlamentar amapaense ainda não está fora do páreo. No entanto, a sua permanência à frente do Senado depende diretamente de uma vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das Eleições 2026.
Para isso, Alcolumbre considera indispensável aprovar a PEC 6×1, como forma de agradar ao Planalto com pauta eleitoreira. A estratégia dele, segundo especialistas, é reunir o apoio do PT, das siglas governistas e de partidos de centro-esquerda em seu favor na eleição da Mesa Diretora do Senado, em fevereiro de 2027.
Apesar da possível articulação, as barreiras regimentais do Senado para votar o texto da PEC são severas e isso torna o trabalho de Alcolumbre ainda mais difícil. Além disso, o avanço do PL para 28 cadeiras no Parlamento e o atrito constante com a ala conservadora na Casa reduzem o fôlego da candidatura de Alcolumbre para o próximo biênio. PL e aliados esperam eleger um representante do grupo para comandar a Casa. O nome do senador Rogério Marinho (PL-RN) é um dos cotados.
A resistência dos parlamentares de direita ao nome de Alcolumbre se deve principalmente à recusa do senador em pautar pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Para o cientista político Antônio Testa, um eventual triunfo eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) no dia 25 de outubro inviabiliza de vez a continuidade de Alcolumbre no comando do Senado.
“Davi Alcolumbre não possui mais peso político para impor suas vontades. Flávio Bolsonaro demonstra habilidade negociadora e dificilmente apoiará a permanência de um presidente que descumpre acordos firmados e ignora interesses da maioria legislativa”, declarou Testa.
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O objetivo de aprovar a PEC 6×1 antes do segundo turno das eleições 2026 encontra fortes entraves regimentais no Senado. A votação de uma PEC exige a realização de dois turnos, com quórum qualificado de três quintos da composição da Casa. Para a aprovação da proposta, é exigido ao menos 49 votos favoráveis entre os 81 parlamentares, nos dois turnos de votação.
O rito formal impõe ainda cinco sessões deliberativas consecutivas dedicadas à discussão da matéria antes da primeira votação. Concluída essa fase, abre-se o intervalo de interstício, que prevê mais três sessões de debate prévio antes do segundo turno.
Alcolumbre abriu a contagem da primeira fase de debates na terça-feira (6). Sem alterações no cronograma oficial, a votação em primeiro turno ocorreria apenas entre os dias 14 e 15 de outubro. O prazo restante para aprovação seria impraticável no rito habitual do plenário.
Porém, a liderança governista vai apresentar requerimento de calendário especial. O instrumento visa alterar o trâmite regimental da PEC para realizar sessões de debates sucessivas no mesmo dia para dispensar o interstício e encurtar a análise do projeto. Alcolumbre garantiu a líderes partidários que pautará o requerimento caso ele seja protocolado formalmente.
O cientista político Elias Tavares, professor da Damásio Educacional, ressalta que o esforço para abreviar os prazos da análise da PEC do fim da escala 6×1 vai custar caro para Lula: o apoio à reeleição de Alcolumbre em 2027.
“A política depende da oportunidade e da escolha da agenda. A aceleração de um tema de grande repercussão popular que atende aos interesses imediatos do Palácio do Planalto gera dividendos diretos à campanha do Executivo”, explicou Tavares.
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A oposição no Senado quer deixar a votação da PEC do fim da escala 6×1 para após as eleições 2026.
O líder da bancada, senador Rogério Marinho (PL-RN), afirmou que não é contra a proposta, mas criticou a pressa de Alcolumbre para votar o tema em plena campanha eleitoral. “O país não ganha nada ao votar um projeto tão importante às pressas, no meio das eleições”, criticou Marinho.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) também rejeitou votar o texto agora. Para ela, a pauta foi colocada às pressas pelo presidente do Senado apenas para prejudicar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
“Votar entre o primeiro e o segundo turno? Tenho assuntos mais importantes na pauta. Colocar isso agora é só para desgastar a imagem do Flávio”, afirmou a senadora.
Para o cientista político Antônio Testa, a oposição tem força para conseguir travar a votação. No entanto, ele ressalta que, mesmo se a proposta for aprovada agora, as mudanças na legislação trabalhista não valem de imediato, pois ainda precisarão de regulamentação.
“O caminho mais provável é adiar. Mesmo se passar, a regra vai exigir novas leis e deve parar na Justiça. O governo só quer usar o tema como bandeira de campanha”, explicou o especialista.
Derrota no Amapá e blindagem ao Supremo enfraquecem Alcolumbre
O resultado das urnas no Amapá enfraqueceu a liderança política regional do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Os candidatos apoiados pelo parlamentar amapaense foram derrotados na disputa pelo governo estadual. Dessa forma, a base aliada do senador perdeu espaço representativo no estado e, inclusive, no Legislativo nacional.
Nenhum candidato apoiado por Alcolumbre conseguiu se eleger para o cargo de governador e nas principais vagas legislativas do Senado e da Câmara.
Esse enfraquecimento estadual coincidiu com a vitória expressiva do PL nas disputas para o Senado e com a consolidação do nome do senador Rogério Marinho para a disputa do comando do Congresso em 2027.
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, avisou que a sigla não participará de blocos que deem sustentação à gestão de Alcolumbre. A bancada conservadora cobra do atual presidente do Senado a falta de andamento sistemático aos pedidos de impedimento contra integrantes do STF.
A queixa central da direita no Senado mira a relação de Alcolumbre com o ministro Alexandre de Moraes. Por conta desse cenário, a vitória de Lula daria sobrevivência a Alcolumbre na presidência do Senado.
Mesmo assim, o especialista em Relações Governamentais Leonardo Volpatti, do escritório Volpatti Advogados Associados, pondera que o poder de articulação de Alcolumbre não pode ser subestimado pelo bloco adversário.
“Davi Alcolumbre mantém relações estreitas e individuais com bancadas de variados espectros. Ele venceu a disputa da Mesa em 2025 com 73 votos, o que atesta sua habilidade de composição partidária”, relembrou Volpatti.
Centro-direita apoia Flávio e sela enfraquecimento de Alcolumbre
A decisão das bancadas do Republicanos, do Novo e da Federação União Progressista de apoiar Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições agravou o isolamento de Alcolumbre no Senado.
A blindagem a Alexandre de Moraes continua sendo o ponto de maior atrito entre a cúpula do Senado e a bancada conservadora. Alcolumbre mantém retidas na gaveta 134 petições de impeachment contra magistrados do STF.
Moraes é o alvo mais frequente dessas representações. Os requerimentos contra sua atuação permanecem engavetados sem qualquer encaminhamento para análise do Plenário.
A ala ligada a Flávio Bolsonaro interpreta essa inércia como desrespeito às prerrogativas exclusivas do Poder Legislativo. O bloco avalia que a postura de blindagem adotada por Alcolumbre esgotou o seu ciclo na Casa.
O cientista político Leandro Gabiatti projeta que uma eventual saída de Alcolumbre da chefia do Senado combinada à vitória de Flávio Bolsonaro, no próximo dia 25, abrirá uma nova carga de pressão sobre os integrantes da Suprema Corte.
“A consequência imediata de uma vitória de Flávio Bolsonaro será o aumento substancial da pressão institucional sobre o Judiciário. Entretanto, para aprovar um pedido de afastamento em Plenário, a oposição precisará construir uma coalizão muito mais ampla com as legendas do centro”, salientou Gabiatti.

















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