Se existe alguém no Brasil que acredita que tem poder para virar o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, esse alguém é Janja. A primeira-dama parece estar plenamente convencida de que sua popularidade é um dos principais ativos eleitorais capazes de turbinar a candidatura de Lula. Com essa aparente certeza, ela vem ampliando seu espaço nos palanques, interferindo na condução dos eventos e se comportando como protagonista de uma campanha na qual não é candidata.
O entusiasmo de Janja com o próprio papel, porém, parece não encontrar o mesmo respaldo entre o entorno do presidente. Nos bastidores, cresce a avaliação de que sua exposição excessiva, longe de ajudar Lula a conquistar novos eleitores, pode se transformar em mais uma pedra no caminho para uma candidatura que tem menos de duas semanas para ampliar sua base de apoio.
O incômodo provocado pela primeira-dama não se resume a uma disputa por espaço sob os holofotes ou na presença ostensiva nos cliques oficiais da campanha. Ao interferir na dinâmica dos atos e até em momentos de fala do presidente, Janja transmite a impressão de que, em sua cabeça, sua presença seria indispensável — ainda que parte dos aliados de Lula não enxergue nela o retorno eleitoral que parece imaginar.
Em uma campanha na qual cada gesto deveria estar subordinado à estratégia do candidato, Janja parece fazer questão de misturar visibilidade com popularidade e protagonismo com contribuição eleitoral. Para aliados que defendem uma campanha mais pragmática, a presença da primeira-dama parece muito incômoda: Janja estaria apenas ampliando o próprio espaço sob os holofotes, e em alguns momentos até atrapalhando Lula na busca por mais votos.
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A Gazeta do Povo separou cinco momentos em que a vontade desenfreada de Janja em se sentir protagonista atrapalhou a campanha do marido à reeleição.
1 – Lula como o “verdadeiro ungido de Deus”
O discurso religioso é um dos terrenos mais sensíveis para a campanha de Lula. Ainda assim, a dificuldade histórica do PT em conquistar a maioria do eleitorado evangélico foi solenemente ignorada por Janja em setembro de 2026, mês que antecedeu o primeiro turno. A primeira-dama fez questão de afirmar, durante um ato de campanha em Teresina, que Lula era o “verdadeiro ungido de Deus”.
A fala foi uma resposta dada a Michelle Bolsonaro, que durante o auge da crise no STF disse, em um post em suas redes sociais, que o ministro André Mendonça seria “escolhido e ungido do Senhor”. A declaração de Janja desagradou a cúpula da campanha petista justamente por transformar a linguagem religiosa em instrumento de confronto político. Para os aliados de Lula, Janja entrou em uma disputa simbólica na qual está longe de ter um papel relevante.
2 – Janja usou oportunismo religioso em polêmica envolvendo Aparecida
Em uma nova investida no campo da religião, Janja entrou de cabeça na polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida. Ela tentou transformar uma notícia falsa em munição eleitoral para Lula, mas não teve sucesso. A primeira-dama compartilhou a imagem do presidente com a padroeira do Brasil e depois insinuou que a oposição queria retirar da santa seu título, embora não houvesse evidências de que Flávio Bolsonaro (PL) defendesse essa medida. Em vez de desarmar a desinformação, ajudou a levá-la ao centro do debate político, expondo a campanha a acusações de oportunismo religioso.
A interferência também criou um problema estratégico: ao tentar explorar a devoção católica para atingir adversários, Janja potencialmente afastou eleitores que rejeitam o uso eleitoral da religião e reforçou a percepção de incoerência de um governo que critica essa prática quando parte da oposição. Em vez de ampliar o apoio ao presidente, Janja contribuiu para uma disputa religiosa baseada em fake news — justamente quando a campanha precisava conquistar eleitores para além de sua base.
3 – Janja bateu o pé na proibição de bets às vésperas da eleição
A alegada influência de Janja nas decisões tomadas por Lula atingiu um de seus pontos altos na questão envolvendo a proibição das bets, anunciada pelo petista a poucos dias do primeiro turno. A primeira-dama encampou uma forte campanha a favor da medida, com direito a falas em comícios e postagens incentivando as pessoas para que dessem “block no Tigrinho”.
Dentro do Planalto, a avaliação geral foi de que a medida provisória havia sido publicada de forma impulsiva, e que os possíveis atritos gerados com os setores ligados às apostas, como clubes de futebol e emissoras, seriam maiores do que os ganhos eleitorais.
Em uma reunião virtual realizada com influenciadores e artistas após o fim do primeiro turno, Janja lamentou o resultado da votação e admitiu que o governo esperava uma repercussão eleitoral mais favorável. Mais do que isso: segundo relatos de participantes, a primeira-dama se emocionou e chorou ao comentar o fracasso da estratégia nas urnas.
4 – Encontro com artistas virou “pregação para convertidos”
A classe artística brasileira é historicamente ligada à esquerda, e por isso não são raros os atos e manifestações de artistas a favor de Lula ou de quem estiver empunhando a bandeira da estrela vermelha. Por isso, a cúpula da campanha do presidente não viu com bons olhos um ato capitaneado pela primeira-dama em setembro de 2026 – a reunião de vários artistas no Rio de Janeiro para declararem apoio à reeleição do petista.
Apesar de ter recebido muitos recursos de campanha, o ato coordenado por Janja teve pouco resultado prático. Aliados do presidente compararam o evento a “uma pregação para convertidos”, por ter sido considerada uma iniciativa de alcance eleitoral limitado: muito palco, rostos conhecidos e mobilização simbólica, mas pouca capacidade de converter visibilidade em apoio eleitoral.
Para o entorno de Lula, a atuação de Janja apenas expôs uma fragilidade da estratégia da esquerda: uma campanha presidencial não pode avaliar seu desempenho apenas pela capacidade de produzir cenas que repercutem entre os próprios simpatizantes; precisa demonstrar que consegue alcançar quem ainda não decidiu o voto ou rejeita o candidato.
5 – Ataque chulo a Nikolas Ferreira
Em um ato de campanha em Belém, ao falar da resistência masculina em fazer exames de saúde preventivos, Lula disse que as mulheres aprenderam a receber “toque” desde pequenas. A fala, no mínimo infeliz, foi criticada por vários nomes da direita, em especial pelo deputado federal Nikolas Ferreira, do PL mineiro.
Dias depois, em Salvador, Janja tentou sair em defesa do marido. O remendo, porém, saiu pior para o presidente. A primeira-dama chamou Ferreira de “piá de b…” e disse que ele precisava “lavar a boca” antes de falar de Lula. Mais do que o palavrão, a falta de cálculo político fez com que o tiro saísse pela culatra.
Ao atacar pessoalmente o adversário, alguém que domina a comunicação nas redes sociais, a primeira-dama ofereceu ao deputado uma oportunidade de inverter os papéis: em vez de permanecer na defensiva por causa da controvérsia sobre a fala de Lula, Ferreira passou a explorar também a reação da mulher do presidente. No mesmo dia, ele respondeu com gratidão ao ataque e disse que considerava o xingamento de Janja como um elogio.
A votação expressiva de Nikolas Ferreira e a vitória do PL em Minas Gerais são sinais claros de que a ação direta de Janja foi desastrosa para as intenções do PT. E se antes as críticas vinham veladas, esse fato gerou uma forte reação entre os coordenadores de campanha. Em especial da ex-senadora Kátia Abreu, líder de Lula no Tocantins.
Ela criticou abertamente o espaço ocupado por Janja na campanha e defendeu uma mudança de prioridades: “menos Janja e mais Alckmin”. A frase, dita durante uma reunião de avaliação dos resultados do primeiro turno, foi aplaudida pelos presentes, insatisfeitos com a onipresença de Janja nos palcos e palanques.
Para Kátia Abreu, a exposição não estaria produzindo simpatia nem votos na proporção esperada. A pergunta que ela lançou no evento — se Janja queria mais aparecer ou ajudar a eleger o marido — resume o problema político de uma campanha em que a busca da primeira-dama por visibilidade parece ter se sobreposto à procura pragmática por resultados.

















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