
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentou se distanciar do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e minimizou os vínculos de pessoas próximas ao governo com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, durante entrevista à TV Globo nesta quinta-feira (15).
Ao comentar a participação de autoridades em um evento promovido pelo banqueiro em Londres, Lula criticou o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, mas também elogiou sua atuação à frente da corporação.
O presidente ainda manifestou saudade do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, cujo escritório familiar prestou serviços ao Master.
Lula também falou sobre propostas do seu governo para resolver o endividamento das famílias brasileiras e sobre sua preocupação com o aumento da dívida pública.
No primeiro bloco da entrevista, que durou 27 minutos, cerca de um terço do tempo foi dedicado ao tema da corrupção. O assunto reuniu perguntas sobre as relações de autoridades com Vorcaro, a conduta de integrantes do Judiciário e a atuação da Polícia Federal, colocando o presidente diante de questionamentos sobre pessoas que mantiveram vínculos com seu governo.
Lula contraria posição histórica do PT sobre redução da maioridade penal
No início da sabatina, Renata Lo Prete destacou que o PT é historicamente contra a redução da maioridade penal. Lula disse que, pessoalmente, é a favor de reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos.
Em manifestações anteriores, o presidente argumentava que o aumento das punições não resolveria o problema da criminalidade entre jovens.
Em 2007, por exemplo, afirmou que “não adianta aumentar a punição” por, segundo ele, não resolver o problema.
A mudança ocorre em meio à divergência dentro do próprio PT sobre a proposta. Em junho deste ano, deputados do partido se posicionaram contra a redução na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e alegaram que a medida afrontaria garantias constitucionais e o Estatuto da Criança e do Adolescente.
O presidente disse que primeiro é preciso aprovar a PEC da Segurança Pública e, se aprovada, discutir se deve reduzir a maioridade penal ou não. Lula afirmou que os estados não resolveram a questão da violência no país, logo, essa responsabilidade cabe ao governo federal.
Nesta quinta-feira (15), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), retirou a PEC da Segurança Pública da pauta de votação.
Lula rebate Trump e rejeita classificação de facções brasileiras como terroristas
Questionado sobre as relações atuais entre Brasil e Estados Unidos, Lula rejeitou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas nos moldes defendidos pelo governo de Donald Trump.
O presidente afirmou que as facções aterrorizam comunidades brasileiras, mas contestou o enquadramento adotado pelos Estados Unidos.
“O que nós temos consciência é de que aqui no Brasil, tanto o PCC como o Comando Vermelho, são terroristas para a comunidade brasileira, para os bairros brasileiros e para as cidades. Mas não é o terrorismo de Estado que os Estados Unidos querem que seja”, declarou.
Jornalista questiona relação de Lula com Moraes
Durante a entrevista, a jornalista Renata Lo Prete questionou Lula sobre a dificuldade de convencer a população de que o governo pretende apurar todas as responsabilidades no caso Master.
Ela mencionou a atuação do ministro Flávio Dino no julgamento para a abertura de investigação sobre a relação entre Moraes e Vorcaro. Indicado de Lula ao STF, Dino pediu vista. Lula afirmou que o ministro queria que outros integrantes do STF fossem julgados na mesma sessão e que não tem conhecimento para avaliar a atuação do magistrado.
A jornalista ainda mencionou que Moraes, até então, era o integrante da Corte mais associado ao caso Vorcaro. Lula respondeu que outros ministros também estavam envolvidos no episódio, citando Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques e André Mendonça.
A relação entre Moraes e Vorcaro também entrou no centro dos questionamentos sobre o caso. O escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, firmou um contrato com o Banco Master que previa pagamentos de até R$ 129 milhões ao longo de três anos. A revelação levantou questionamentos sobre os vínculos entre o banqueiro e a família do magistrado. Moraes também foi alvo de questionamentos sobre contatos com Vorcaro.
Lula defende diretor-geral da PF
Na sequência, Renata Lo Prete questionou Lula sobre sua proximidade com Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.
O delegado chefiou a equipe de segurança de Lula durante a campanha presidencial de 2022 e assumiu o comando da corporação no início do terceiro mandato do petista.
A jornalista lembrou que Andrei participou de uma festa promovida por Vorcaro em Londres, em abril de 2024, quando o Banco Central já apurava irregularidades no Master e a PF investigava o caso. Ela perguntou se Lula manteria o delegado no cargo caso fosse reeleito.
O presidente negou que Andrei fosse ligado pessoalmente a ele, mas reconheceu que o repreendeu pela participação no evento. “Quando eu fiquei sabendo que ele tinha ido a Londres, eu chamei a atenção dele”, afirmou.
Lula também disse que a explicação apresentada pelo diretor-geral não o convenceu. “Não foi convincente para mim. Não precisava ter ido”, declarou. Em seguida, voltou a elogiar o delegado: “Ele é um extraordinário delegado, tem feito um trabalho excepcional”.
Ao ser questionado novamente sobre a permanência de Andrei no comando da PF, Lula evitou antecipar sua decisão.
“Primeiro, eu preciso ganhar as eleições. Se eu ganhar as eleições eu vou escolher as pessoas como eu escolhi da outra vez. Eu não vou dizer aqui que eu vou escolher quem que vai ficar quem que vai sair”, afirmou.
“Foi um belo ministro da Justiça”, afirma Lula sobre Lewandowski
Lula também defendeu Ricardo Lewandowski, que comandou o Ministério da Justiça entre fevereiro de 2024 e janeiro de 2026.
Antes de assumir o cargo, o ex-ministro manteve vínculos profissionais com o Banco Master por meio de seu escritório de advocacia.
Durante parte de sua passagem pelo governo, o escritório de sua família continuou prestando serviços à instituição financeira.
Lewandowski afirmou que deixou de atuar pessoalmente como advogado do banco após aceitar o convite para integrar o governo.
O escritório permaneceu sob a administração de sua mulher e de seu filho e manteve o contrato com o Master até agosto de 2025.
Ao comentar a atuação do ex-ministro, Lula demonstrou apreço pelo antigo auxiliar. “Foi um belo ministro da Justiça para mim, um belíssimo ministro, tenho saudade dele”, declarou.
Presidente diz que desconhecia falta de reajuste do Bolsa Família
Dando continuidade à entrevista, Lula afirmou que desconhecia a falta de previsão para o reajuste do Bolsa Família e disse ter cobrado explicações de seus ministros ao tomar conhecimento do problema.
O tema surgiu quando a jornalista Renata Lo Prete questionou o presidente sobre o anúncio do aumento no valor do benefício a 17 dias do primeiro turno das eleições.
A entrevistadora destacou que o reajuste de 15,04% saiu em setembro, embora a proposta de Orçamento de 2027, enviada ao Congresso em 31 de agosto, não previsse a correção.
Ela perguntou se o governo havia identificado um espaço fiscal que a equipe econômica não considerara anteriormente. Lula negou essa hipótese e atribuiu a ausência de previsão à atuação de seus auxiliares.
“Eu não sabia, porque é inexplicável que, no governo do Lula, alguém pense em não reajustar a inflação no salário das pessoas. É impensável, mas aconteceu”, afirmou.
O presidente disse que decidiu conceder o aumento depois de descobrir a falha. “Aconteceu e eu tomei a decisão: a gente vai dar e vai dar tudo que a gente não deu pra gente não perder nunca mais”, declarou.
O reajuste elevou o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691 mensais. Lula afirmou que havia espaço fiscal para bancar a medida e citou a previsão de superávit primário de 0,1% nas contas públicas em 2027.
Lula promete usar R$ 150 bilhões para renegociar dívidas das famílias
Questionado sobre uma solução definitiva para o endividamento das famílias, Lula citou as três versões do Desenrola e afirmou que a União poderá destinar R$ 150 bilhões à compra de dívidas com desconto.
“Nós vamos comprar essa dívida, a União vai comprar essa dívida”, disse. Segundo o presidente, a expectativa é que o governo possa adquirir os débitos por cerca de 5% do valor original.
Lula também mencionou o perdão de dívidas de microempreendedores individuais (MEIs) e a oferta de R$ 5 mil em crédito para a categoria.
Ele afirmou que pretende adotar essas medidas sem comprometer o equilíbrio fiscal.
O endividamento das famílias cresceu durante o terceiro mandato de Lula. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o percentual de famílias endividadas passou de 76,7% em dezembro de 2024 para 78,9% em dezembro de 2025, o maior índice para o mês desde o início da série histórica.
Em julho de 2026, o indicador chegou a 82%, após seis recordes mensais consecutivos.
Petista diz se preocupar com dívida pública, mas defende endividamento
Lula afirmou que se preocupa com o aumento da dívida pública, mas defendeu o endividamento como instrumento para financiar investimentos em infraestrutura, como obras em portos.
Durante a entrevista, a jornalista questionou o avanço de dez pontos percentuais da dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) durante o atual governo.
O presidente argumentou que o crescimento econômico é o caminho para equilibrar as contas públicas e citou os resultados de seus dois primeiros mandatos.
Ao explicar como pretende lidar com o endividamento, defendeu o estímulo aos pequenos empreendedores e ao consumo.
“O que faz a economia do Brasil crescer é chamada a microeconomia, é fazer o dinheiro rodar na mão do povo”, afirmou.

















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