
O empresário Elon Musk, CEO da SpaceX e da Tesla e dono do X, ordenou na semana passada a redução da velocidade do Starshield, sistema militar de internet da Starlink utilizado pela Ucrânia na guerra contra a Rússia. A informação foi revelada nesta terça-feira (20) pelo jornal americano The Wall Street Journal, que afirma ter ouvido autoridades dos Estados Unidos e fontes familiarizadas com a decisão. A decisão prejudicou operações com drones ucranianos e provocou confusão até mesmo dentro do governo do presidente Donald Trump, informou o jornal.
Segundo o WSJ, Musk determinou a imposição de limites à velocidade dos equipamentos ucranianos conectados à rede. A mudança afetou principalmente drones de ataque e interceptação de Kiev que dependem da conexão rápida para realizar manobras e receber comandos durante o voo. A revelação contraria a posição apresentada publicamente pelo empresário na semana passada. No dia 14, depois que autoridades ucranianas denunciaram as restrições, Musk afirmou na rede social X que as decisões sobre o Starshield cabiam ao governo americano, liderado por Trump.
“Os sistemas Starshield pertencem ao governo dos Estados Unidos e são controlados por ele. Qualquer limite de velocidade ou de uso é decidido pelos militares americanos e, em última instância, pelo presidente”, escreveu o empresário, em referência a Trump.
O presidente americano negou envolvimento na decisão. Questionado por jornalistas na última sexta-feira (16), Trump afirmou que havia procurado informações sobre o problema e descartou a possibilidade de ter ordenado a restrição.
“Não sei se foi alguém, mas não fui eu, e não acho que tenha sido Elon. Pelo que entendi, está tudo como sempre esteve”, declarou.
Segundo o Wall Street Journal, Musk e Trump conversaram por telefone sobre o Starshield depois que os problemas no serviço vieram a público. Uma das fontes ouvidas pelo jornal afirmou que os dois também discutiram o assunto antes da imposição dos limites. A reportagem não esclarece se Trump autorizou pessoalmente a decisão.
Na quinta-feira (15), a agência Reuters informou, com base em duas fontes do governo dos Estados Unidos e uma autoridade de outro país ocidental, que a ordem para reduzir a velocidade do Starshield havia partido de dentro da Casa Branca. Na ocasião, porém, não foi identificado quem havia tomado a decisão.
Os problemas na rede começaram a ser relatados pelas forças ucranianas no dia 14. Segundo Serhiy Beskrestnov, assessor do presidente Volodymyr Zelensky para assuntos tecnológicos, o sistema deixou de manter a conexão com equipamentos ucranianos que se deslocavam a mais de 160 quilômetros por hora. O limite prejudicou especialmente os drones interceptadores utilizados pela Ucrânia para derrubar drones russos. Alguns desses equipamentos precisam alcançar velocidades muito superiores para perseguir drones Shahed, que podem ultrapassar os 400 quilômetros por hora.
Em entrevista à agência Associated Press na sexta-feira, Beskrestnov afirmou que a mudança ocorreu sem aviso prévio e comprometeu uma solução militar que vinha sendo utilizada pelos ucranianos contra os ataques russos.
“Nossos homens nas Forças Armadas estão mostrando que a solução funciona de maneira eficaz. E então vem uma surpresa: de uma hora para outra, essa solução deixa de proteger nosso país”, declarou.
O assessor também levantou dúvidas sobre as razões da restrição. “Agora entendemos que isso não é apenas uma questão técnica, nem apenas uma questão comercial, mas também política”, afirmou.
A redução do serviço ocorreu em meio à deterioração das relações entre Trump e Zelensky. O presidente americano vinha criticando os ataques ucranianos contra refinarias de petróleo da Rússia, que, segundo ele, prejudicam a oferta internacional de combustíveis e contribuem para a alta dos preços do diesel, especialmente em território americano.
Trump anunciou neste mês um acordo para ampliar a entrada de diesel russo no mercado internacional e americano e passou a pressionar Kiev para interromper os bombardeios contra instalações de energia da Rússia. Zelensky rejeitou a exigência unilateral e afirmou que a Ucrânia só suspenderia os ataques caso Moscou também parasse de bombardear a infraestrutura energética ucraniana.
Desde que os problemas começaram, a Ucrânia tenta negociar com a SpaceX e com o Pentágono a retirada dos limites de velocidade aos seus equipamentos. Parte das conexões foi restabelecida após as primeiras reclamações, mas Beskrestnov afirmou na sexta-feira que o bloqueio aos equipamentos mais rápidos continuava em vigor.
“Estamos agora em negociações ativas com o Pentágono, a SpaceX e o governo dos Estados Unidos. E, neste momento, não sabemos qual será a decisão”, disse o assessor à Associated Press.

















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