Em toda eleição – e na verdade no debate público em geral, a qualquer momento – sabe-se que cedo ou tarde a esquerda recorrerá à narrativa sobre “a democracia”. Primeiramente vão-se colocar como defensores da democracia, em geral com grupos que se dizem guardiões da democracia, como jornalistas pela democracia, advogados pela democracia, judeus pela democracia etc. Eventualmente publicarão também vídeos e cartas “pela democracia”.

Esses grupos farão o discurso de que o candidato de direita representa uma ameaça incontornável à democracia, e sua vitória significaria o fim das instituições como a conhecemos, a extinção dos direitos políticos, a edificação de um regime fascista, e assim por diante, numa escalada apocalíptica cujo limite é a criatividade do progressista. E pedirão, por fim, o seu voto na esquerda, pois por pior que seja o seu candidato, ao menos ele não ameaçará a democracia.

Parte dessa preocupação da esquerda pode ser sincera; há os inocentes (ou idiotas) úteis que vivem tão ensimesmados dentro de suas cirandas progressistas que eles acabam por, realmente, acreditar em qualquer coisa que a hegemonia progressista afirme.

Então eles ouvem um político de esquerda, leem um artigo na imprensa tradicional, escutam algum analista progressista mencionar o risco da democracia ou citar alguma tese do Levitsky sobre “como as democracias morrem”, e daí em seguida o seu coração palpita, seus folículos se eriçam, e ele percebe: estou com medo.