
Em toda eleição – e na verdade no debate público em geral, a qualquer momento – sabe-se que cedo ou tarde a esquerda recorrerá à narrativa sobre “a democracia”. Primeiramente vão-se colocar como defensores da democracia, em geral com grupos que se dizem guardiões da democracia, como jornalistas pela democracia, advogados pela democracia, judeus pela democracia etc. Eventualmente publicarão também vídeos e cartas “pela democracia”.
Esses grupos farão o discurso de que o candidato de direita representa uma ameaça incontornável à democracia, e sua vitória significaria o fim das instituições como a conhecemos, a extinção dos direitos políticos, a edificação de um regime fascista, e assim por diante, numa escalada apocalíptica cujo limite é a criatividade do progressista. E pedirão, por fim, o seu voto na esquerda, pois por pior que seja o seu candidato, ao menos ele não ameaçará a democracia.
Parte dessa preocupação da esquerda pode ser sincera; há os inocentes (ou idiotas) úteis que vivem tão ensimesmados dentro de suas cirandas progressistas que eles acabam por, realmente, acreditar em qualquer coisa que a hegemonia progressista afirme.
Então eles ouvem um político de esquerda, leem um artigo na imprensa tradicional, escutam algum analista progressista mencionar o risco da democracia ou citar alguma tese do Levitsky sobre “como as democracias morrem”, e daí em seguida o seu coração palpita, seus folículos se eriçam, e ele percebe: estou com medo.
Quando grupos de esquerda se chamam de defensores da democracia, a inferência que eles estão sugerindo é que outros grupos não defendem a democracia. E assim, de maneira indireta, posicionam qualquer apoiador da direita como sendo um autoritário
Então é assim, com base nessa hipocondria institucional, que muitos realmente inocentes terminam por sucumbir à narrativa de que apenas a esquerda pode ganhar, e que qualquer outra coisa significa uma ameaça à democracia. Eles têm medo do possível eventual hipotético autoritarismo de direita, e para evitá-lo acabam apoiando a real efetiva concreta destruição da democracia promovida pela esquerda.
Por outro lado, há os efetivamente mal-intencionados, que sabem o que estão fazendo, que entendem o poder da linguagem para a promoção do medo e a manipulação de comportamentos.
Na linguística utiliza-se um conceito chamado de inferência sugerida, que se refere às conclusões lógicas que determinada expressão sugere sub-repticiamente ao interlocutor. Quando se diz, por exemplo, que “alguns alunos faltaram hoje”, a frase sugere que outros alunos compareceram à escola. Quando se diz, ainda, que “esta loja é cara”, entende-se não apenas que outras lojas são mais baratas, como também que a frase recomenda que que não se compre nessa loja.
Quando grupos de esquerda se chamam de defensores da democracia, a inferência que eles estão sugerindo é que outros grupos não defendem a democracia. E assim, de maneira indireta, posicionam qualquer apoiador da direita como sendo um autoritário, alguém que deseja o fim das instituições democráticas.
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Boa parte da estratégia política da esquerda baseia-se na engenharia linguística dessas inferências sugeridas. É assim que, por exemplo, quando querem legalizar as drogas, os progressistas levam a conversa para o “framing” (enquadramento) da saúde e da medicina. Se a pessoa deixa de ser vista como criminosa e passa a ser vista como doente, a inferência sugerida é que ela deve ser tratada por médicos e hospitais, e não por polícia e sistema penal.
Da mesma maneira, se o aborto de anencéfalos é descrito como “interrupção terapêutica da gravidez”, a inferência sugerida é que todos sairiam ganhando com esse aborto – afinal, trata-se apenas de uma “interrupção” com objetivo “terapêutico”.
A esquerda sabe que suas ideias são ultrapassadas e inefetivas, e historicamente sempre se demonstraram bastante impopulares. Sua única chance com os eleitores é pela manipulação da linguagem, o que têm feito com muita sofisticação.

















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