
No final deste mês ocorrerá o primeiro dos consistórios “extraordinários ma non troppo” que o papa Leão XIV pretende convocar ao longo do seu pontificado. Digo ma non troppo porque, se é certo que essas reuniões do papa com todos os cardeais para tratar de temas selecionados ocorrerão todo ano, como é o seu desejo, eles perdem um pouco do seu caráter de “extraordinários”. Mas isso é semântica. Eu, particularmente, acho interessante que Leão XIV esteja interessado em ouvir os cardeais com frequência. E os temas do consistório de junho já apareceram.
No início de junho, o blog tradicionalista italiano Messa in Latino obteve e publicou uma carta, atribuída ao decano do Colégio Cardinalício, cardeal Giovanni Battista Re, convocando os cardeais para o consistório. Nela, o decano afirma que o encontro debaterá 1. a “situação internacional” no mundo e, especialmente, dentro da Igreja; 2. um aprofundamento dos temas de Magnifica humanitas, a primeira encíclica de Leão XIV; 3. a doutrina da guerra justa, a partir do que também está presente na encíclica; e 4. o prosseguimento do processo sinodal. Ainda haverá tempo para intervenções livres dos cardeais, com duração de três minutos.
Sem discussão sobre liturgia no consistório, ficam valendo as boas orientações que Leão XIV tem dado aos poucos em mensagens ao episcopado ou audiências gerais
Vários cardeais se queixaram de que o modelo de grupos, usado durante as duas sessões do Sínodo da Sinodalidade e no consistório de janeiro, impedia os participantes de se fazer ouvir por todos os seus colegas, e que a única ocasião de conseguir isso era nas intervenções finais. A carta do cardeal Re não detalha como será o consistório de junho, se repetirá o modelo anterior ou se retornará ao formato tradicional, em que os cardeais sempre falam tendo como audiência o Colégio Cardinalício inteiro, além do papa; no entanto, a referência às falas de três minutos ao fim deixa subentendido que teremos uma repetição do que aconteceu em janeiro – segundo a vaticanista Diane Montagna, a escolha do modelo “sinodal” para aquele primeiro consistório foi uma mudança de última hora, e o chefe da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, se recusou a dar mais detalhes, mesmo sendo pressionado por vários jornalistas.
E a liturgia?
O consistório de janeiro tinha quatro temas originais: sinodalidade, evangelização, reforma da Cúria e liturgia. Por causa do pouco tempo disponível, só os dois primeiros acabaram discutidos, com a promessa de que os dois últimos seriam tratados em reuniões futuras. Mas nenhum deles apareceu na lista que o cardeal Re enviou aos colegas dias atrás. A ausência da discussão sobre liturgia é curiosa, até porque o consistório se dará às vésperas das ordenações episcopais cismáticas prometidas pelos tradicionalistas radicais da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (SSPX).
Poderia ser o momento ideal para discutir a questão do acesso à missa tridentina, mas também poderia não ser, já que os ânimos estarão muito à flor da pele – ainda que não haja notícia de nenhum cardeal, mesmo simpático à liturgia tradicional, que esteja apoiando a SSPX nessa. Talvez seja melhor deixar que a SSPX faça o que quer fazer (mas até lá vamos rezando para que eles ponham a mão na consciência e desistam) e arque com as consequências das suas atitudes, e só depois, com esse assunto resolvido, botar o tema da liturgia na mesa em melhores condições de temperatura e pressão.
Esse parece ser um daqueles casos em que no news is good news. Sem discussão sobre liturgia no consistório, ficam valendo as orientações que Leão XIV tem dado aos poucos em mensagens ao episcopado ou audiências gerais. Em março desse ano, por exemplo, o papa pediu ao episcopado francês, por meio de uma mensagem, que encontrasse “soluções concretas que permitam a inclusão generosa das pessoas sinceramente ligadas ao Vetus Ordo”. Ainda no início do seu pontificado, Leão havia enviado uma bênção aos participantes de uma peregrinação tradicionalista entre Paris e Chartres. E, em novembro do ano passado, o núncio apostólico no Reino Unido disse aos bispos ingleses e galeses que o papa estava disposto a abrir exceções de dois anos para todo bispo que pedisse mais tempo antes de implementar as regras de Traditionis custodes. Fora o recente pedido por missas celebradas de acordo com as regras litúrgicas também no Novus Ordo.
E há um outro detalhe importante: adiar o debate sobre liturgia no consistório significa manter na geladeira o péssimo relatório preparado pelo prefeito do Dicastério para o Culto Divino, cardeal Arthur Roche, e que ele resolveu distribuir aos cardeais em janeiro ainda que não tivesse havido discussão sobre liturgia. Roche já passou dos 75 anos, idade em que os bispos têm de apresentar sua renúncia – ou seja, ele está fazendo hora extra na Cúria. Talvez (mas é um talvez bem grande, puro chute meu) o papa prefira fazer essa discussão com um novo prefeito, menos hostil à liturgia tradicional – embora o maior adversário da missa tridentina no dicastério, pelo que ando lendo, nem seja o cardeal Roche, mas o secretário, arcebispo Vittorio Viola, que tem apenas 60 anos e precisaria ser transferido para algum lugar, já que está bem longe da idade de aposentadoria.
Nesse um ano e pouquinho de pontificado, Leão XIV já mostrou que não tem pressa para resolver os problemas, e que se esforça para não aprofundar divisões – o que é diferente de deixar todo mundo fazer o que bem entender em nome de uma falsa sensação de concórdia. Sei que muita gente gostaria que o papa fosse mais ligeiro com o tema da liturgia (e às vezes eu também me pego nessa), mas vamos dar o voto de confiança.

















Leave a Reply