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Antes de culpar as bets, é necessário olhar com atenção para os bancos

O estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), intitulado “Impacto das Apostas Online (Bets) no Endividamento e Inadimplência das Famílias Brasileiras”, divulgado em abril deste ano, estima que as bets levaram 270 mil famílias à inadimplência severa. O número em si é bastante preocupante, mas os bancos endividaram 81,7 milhões de brasileiros, um aumento de 38% em uma década, com juros de até 61% ao ano, e nenhuma bancada suprapartidária foi formada para enfrentar isso.

As séries históricas comprovam que o endividamento das famílias brasileiras não nasceu com as bets. Ele remete a episódios bem mais antigos: com uma das maiores taxas de juros reais do mundo (9,3%), um spread bancário que figura entre os mais elevados do planeta (34,6 pontos percentuais) e uma estrutura de crédito que sistematicamente penaliza quem tem menos. A Selic acima de 14% não é apenas política monetária, mas um mecanismo que favorece rentistas e torna inacessível o crédito ao trabalhador comum, transformando a dívida em armadilha permanente para uma família humilde que precisa atravessar o mês.

O projeto “Brasil contra as bets”, protocolado em 26 de maio, no Congresso, por uma bancada suprapartidária, parte de uma premissa legítima: o jogo compulsivo causa danos reais, documentados e custosos. Apesar dos vieses metodológicos, o estudo do Ieps, que embasava a proposta, estimara em R$ 38,8 bilhões anuais o impacto associado ao jogo problemático. O número, à época, merecia atenção. Mas o diagnóstico que o projeto oferece era incompleto. E o remédio proposto podia piorar o quadro.

É necessário que haja regulamentação urgente nesse setor; o accountability democrático é ínfimo, nessa circunstância, e, em muitos casos, tende a zero. E não é de hoje. Desde a gestão do ex-presidente FHC já havia tal necessidade, e nenhum governo – nem de esquerda nem de direita – mostrou-lhe a devida resistência.

O esforço regulatório deveria se concentrar em exterminar o mercado clandestino das bets, não em criar novos encargos exclusivamente para quem já está dentro da lei

Como já apresentado nesta mesma seção Tendências e Debates: os bancos endividaram 81,7 milhões, em 2026; isso representa um aumento de 38,1% em relação a 2016. E o percentual de famílias com dívidas atingiu o recorde histórico de 80,4% em março deste ano, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Independentemente do fenômeno das bets, esses valores representam uma verdadeira pandemia de endividamento.

Nesse contexto, vale a pergunta que o debate público raramente faz: por que uma estrutura que privilegia o rentismo é socialmente aceita enquanto as bets são atacadas? Apostas e loterias fazem parte da economia popular. Percebe-se francamente que as casas de apostas legais são o bode expiatório da vez. Combater as bets gera mais visibilidade, e apoiar-se em preconceitos é menos custoso politicamente do que questionar o rentismo. E isso não é coincidência.

Isso não significa que o setor esteja livre de críticas. O jogo compulsivo é real. A publicidade agressiva direcionada a populações vulneráveis merece regulação severa. O uso de atletas e influenciadores para normalizar o comportamento de risco entre jovens é um problema legítimo, e o Congresso tem razão em endereçá-lo. O que não tem razão é não enxergar o modelo exitoso de gestão do risco da compulsividade, único entre tantos outros setores que mobilizam os mesmos conflitos psicológicos associados.

A Secretaria de Prêmios e Apostas publicou a Portaria nº 2.579 e a Instrução Normativa nº 31, que estabelecem mecanismos de autoexclusão centralizada, autolimites de apostas e um banco de dados de apostadores com comportamento compulsivo. A iniciativa é inédita no país, sem equivalente em qualquer outro setor regulado no Brasil. Nenhum banco, nenhuma instituição financeira, nenhuma lotérica foi obrigada a criar mecanismos semelhantes de proteção ao potencial consumidor compulsivo.

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  • O que você ainda não sabe mas precisa saber sobre bets

Operadoras legalmente licenciadas recolhem impostos – quase R$ 10 bilhões em 2025, já R$ 2,5 bilhões nos dois primeiros meses de 2026 – e operam sob fiscalização contínua. Em parceria com a Anatel, a SPA já promoveu o bloqueio de mais de 25 mil sites não autorizados. Esse número diz tudo sobre a dimensão do mercado clandestino que opera em paralelo.

E é justamente esse mercado que a proibição de publicidade vai favorecer. Quando se silencia quem opera dentro da lei, não se elimina a demanda; apostar numa bet ilegal é tão perigoso quanto ingerir bebida adulterada ou contratar empréstimo consignado para pessoas idosas e aposentadas.

A ausência de controle não protege ninguém, apenas remove qualquer chance de intervenção. O esforço regulatório deveria se concentrar em exterminar o mercado clandestino das bets, não em criar novos encargos exclusivamente para quem já está dentro da lei.

O debate que o Brasil precisa ter não é se as bets são ruins. É por que tantos brasileiros estão tão financeiramente fragilizados que qualquer promessa de alavancagem financeira parece uma saída razoável. Enquanto essa pergunta não entrar na pauta, estaremos tratando o sintoma e ignorando a doença.

Cristiano Costa é psicólogo e diretor de conhecimento da EBAC (Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo).

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