
Até o fim da vida, o médico vienense Viktor Frankl (1905-1997), sobrevivente dos campos nazistas e autor de “Em Busca de Sentido”, um dos maiores livros de psicologia do século XX, recebia, em média, dez cartas por dia. Os remetentes eram pessoas que haviam encontrado na obra de Frankl um sentido para suas existências.
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No inferno dos campos de concentração, o ex-prisioneiro enxergou uma possibilidade de redenção mesmo em meio aos piores sofrimentos. Com seu exemplo de fé e esperança, Frankl salvou incontáveis vidas.
Não por acaso, Viktor Frankl é citado nominalmente na primeira encíclica do Papa Leão XIV, “Magnifica Humanitas”. Escreveu o pontífice, no parágrafo 121:
“A corrupção moral dos nossos limites – o mal que, de forma evidente, agita o coração do homem – destrói a sociedade e a vida, chegando a extremos de desumanidade. No entanto, também esta dolorosa forma de limitação deixa frestas abertas para o bem. (…) Viktor Frankl afirmava, com razão, que, nos momentos de horror, acabámos por ‘conhecer o ser humano como ele realmente é. Afinal de contas, o Homem é esse ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; no entanto, é igualmente o ser que entrou nas câmaras de gás de cabeça erguida, com o Pai-Nosso ou o Shema Yisrael nos lábios’”.
A fresta para o bem de que fala a encíclica — e que Frankl testemunhou no limiar da barbárie — é exatamente o que está sob ataque neste início de século XXI. Diante do sofrimento dos inocentes, a mentalidade contemporânea oferece a assepsia da eliminação. Foi esse o coração do histórico e contundente discurso do Papa Leão XIV no Congresso dos Deputados da Espanha.
Ali, o pontífice lançou um ultimato moral: uma sociedade que empurra para as sombras os mais vulneráveis, os doentes e os nascituros não pode se autodenominar justa
A grandeza de uma nação, insistiu o Papa, mede-se pela sua capacidade de abraçar a fragilidade, e não de legislar o seu desaparecimento em nome de um “consenso social mutável”.
No entanto, a cultura da morte denunciada pelo Papa anda solta pelas ruas e corrói a alma da civilização. O utilitarismo se transforma em eugenia, como no recente caso do casal de influenciadores Jesse e Ashley Ridgway, que justificaram o aborto de seu filho ao descobrir a trissomia do 21, alegando o peso das futuras complicações de saúde.
A decisão do casal esconde um fenômeno assustador e documentado: na Europa Ocidental, o rastreamento genético virou máquina de eliminação humana, reduzindo a população com Síndrome de Down a níveis dramáticos — chegando a taxas aberrantes de quase 100% de abortos na Islândia e 83% na própria Espanha. A vida imperfeita tornou-se um erro de cálculo a ser deletado antes do nascimento.
Na Espanha governada por socialistas, onde o Papa fez sua forte advertência, o Estado assumiu o papel de tabelião da morte. O doloroso caso de Noelia Castillo Ramos — a jovem de 25 anos que obteve o direito ao suicídio assistido na Catalunha após as sequelas brutais de uma violência sofrida — expõe o ápice dessa burocratização do desespero.
Entre batalhas judiciais, contestações familiares e um bilhete de arrependimento, a morte assistida foi celebrada pela militância secular como uma vitória da “autonomia”. Matar, sob o manto da lei, tornou-se o protocolo padrão para um sistema de saúde que já não sabe o que fazer com o sofrimento psicológico e físico que não pode curar.
Essa engenharia social da compaixão invertida é o cumprimento exato de uma velha profecia literária. Em 1907, o padre Robert Hugh Benson publicou “O Senhor do Mundo”, obra que analisei em meu livro “O Mínimo sobre Distopias” (2024). Benson enxergou, com um século de antecedência, o surgimento de um humanismo secular que transformaria a eutanásia em um serviço público, asseado e respeitável — uma espécie de “sacerdócio secular” encarregado de eliminar a dor eliminando o sofredor.
A trágica trajetória de Mabel Brand, personagem bensoniana que recorre às casas de morte do Estado não por liberdade, mas por pura falta de sentido e desespero, antecipa a solidão institucionalizada de Noelia e a frieza estatística que ceifa os filhos com Down antes do primeiro choro. Quando o homem se coloca no lugar de Deus, a misericórdia perde sua alma e passa a carregar o instrumental médico da supressão.
Contra essa engrenagem de assepsia e esquecimento, a resposta definitiva permanece aquela desenhada no ano de 1945. Ao retornar do inferno dos campos de concentração, o jovem médico Viktor Frankl recebeu a notícia que dilaceraria qualquer alma: quase toda a sua família — sua esposa grávida, seus pais, seu irmão — havia sido exterminada na barbárie nazista. Sozinho, com o coração devastado e as feridas da história abertas na carne, Frankl não escolheu a saída fácil do desespero institucionalizado, nem se rendeu ao absurdo de uma existência esvaziada.
Em vez de apagar a própria dor, ele decidiu dar um sentido a ela. Em apenas nove dias, escreveu a primeira versão do que viria a ser “Em Busca de Sentido”. Das cinzas da tragédia do século XX, nasceu uma obra que até hoje resgata milhões de pessoas da escuridão profunda. Frankl provou que, mesmo quando o mundo ao redor desaba e a dor parece insuportável, o homem ainda é livre para escolher a sua atitude — e que o sofrimento, quando iluminado pelo amor e pela transcendência, é capaz de gerar a redenção.
Face ao desavergonhado utilitarismo moderno, a lição de Frankl e a mensagem de Leão XIV nos lembram que a vida humana é um mistério sagrado a ser reverenciado até o fim.
A propósito, Viktor Frankl terminou seus dias aos 92 anos, atendendo pacientes depressivos do leito do hospital, utilizando um telefone que, conforme ele exigiu, foi colocado em sua cabeceira. A vida tem sentido, mesmo no sofrimento.
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