
O sapo morava numa caverna escura e certa vez lhe perguntaram o que era o céu. Prontamente ele respondeu:
– Ora, o céu é o buraquinho no teto da minha casa!
Em 1999, eu era esse sapo e o meu céu se chamava socialismo. Meses antes do acontecimento que vou relatar hoje, eu voltara a acreditar em Deus, durante uma epifania que tive na cidade de Mariana, pondo fim a uma longa noite de ateísmo. Mas, embora já tivesse o coração tocado por Deus, minha mente ainda se escondia no autoengano da ideologia revolucionária.
Na época eu trabalhava no sindicato dos jornalistas, cuja sede se localizava em um fundo de vale da cidade. Todas as manhãs, quase sempre moído de ressaca, dava expediente no sindicato. Da janela de minha sala, via-se uma trilha de terra que algumas pessoas – geralmente trabalhadores pobres e crianças – utilizavam para ir de um bairro a outro. Naquela manhã de outubro, esse caminho de chão pisado íngreme me fez lembrar a passagem bíblica do homem assaltado por ladrões e socorrido por um samaritano. A estrada mencionada no Evangelho é a que ligava Jerusalém a Jericó, a cidade de mais baixa altitude do mundo, situada quase 300 metros abaixo do nível do mar. Jericó era a imagem simbólica perfeita do poço de enganos em que eu estava metido.
Voltei à minha sala, sentei-me diante do computador e, depois de me certificar que ninguém estava olhando, entrei no site do professor Olavo de Carvalho
Nos fundos do sindicato, havia uma piscina velha, vazia e abandonada. Todos os dias eu contemplava aquele imenso tanque inútil com uma sensação de desamparo e inutilidade. Eu havia acabado de ler, no jornal do dia, a notícia de que o PT se dividira em relação às denúncias de corrupção contra o atual prefeito: metade do partido o acusava, metade o defendia. Senti um gosto amargo na garganta, e não era a ressaca.
No porão do sindicato, diante da piscina abandonada, funcionava um bar, fechado àquela hora. Lembrei-me da noite em que, bebendo com os companheiros, fiz chacota com o sacrifício de Jesus Cristo na cruz, ponderando que, se ele era Deus, nada sentira. Fechei meus olhos envergonhado por essa lembrança; volto a fechá-los agora, tantos anos depois, e pelo mesmo motivo.
Voltei à minha sala, sentei-me diante do computador e, depois de me certificar que ninguém estava olhando, entrei no site do professor Olavo de Carvalho para ler o seu artigo mais recente, intitulado “Que é ser socialismo”. Olavo dizia:
“O socialismo matou mais de 100 milhões de dissidentes e espalhou o terror, a miséria e a fome por um quarto da população da Terra. Todos os terremotos, furacões, epidemias, tiranias e guerras dos últimos quatro séculos, somados, não produziram resultados tão devastadores”.
Mais adiante, Olavo escreveu:
“Ser esquerdista é mergulhar as mãos em sangue e fezes jurando que as banha nas águas lustrais de uma redenção divina”.
Aquilo não era novidade para mim. Nos últimos dois anos, em grande parte por influência de Olavo (que eu lia escondido no sindicato), vinha estudando em profundidade a história do movimento revolucionário e percebendo que se tratava essencialmente da implantação do inferno na Terra. Naquele momento, porém, eu me dei conta de que era cúmplice dessa trama demoníaca. Vinte e sete anos depois, eu me sinto mal por ter acreditado nessa mentira que destruiu o país ao longo de três décadas – e por ter, de alguma forma, contribuído para tamanha devastação.
Naquela manhã longínqua, desliguei o computador, levantei-me e fui embora do sindicato para nunca mais. Livre do poço, comecei a peregrinação que dura até hoje.















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