Basta alguém mencionar a decrepitude de Lula para que o coro de almas sensíveis da imprensa amestrada denuncie o crime de etarismo. Concedo de saída o ponto aos queixosos, até porque não me custa nada. A idade, por si, não é argumento contra ninguém. O Senado romano tirou seu nome dos senes, os velhos, e Roma confiou a eles o leme da república por séculos. O problema nunca foi o número de anos. O problema é o que um homem faz com eles. E o que o Descondenado-em-chefe fez com os seus é matéria para um tratado inteiro sobre como envelhecer mal.

Em 44 a.C., quando via a república afundar sob a ditadura de César, Cícero refletiu sobre a velhice em Cato Maior de Senectute (“Catão, o Velho, sobre a Velhice”). No diálogo, o velho Catão, octogenário, enumera as quatro queixas que pesam contra a velhice: ela afasta o homem da ação, enfraquece o corpo, rouba os prazeres e o põe perto da morte. Em seguida, desmonta-as uma a uma. As grandes coisas, ensina, não se fazem com a força ou a agilidade do corpo, mas com o conselho, a autoridade e o juízo (consilio, auctoritate, sententia). O velho é o piloto que já não sobe nos mastros, mas segura o leme. E a coroa da idade, o apex senectutis, não são os cabelos brancos. É a autoridade que eles conquistaram.

Note-se também aquilo que Cícero não diz. Ele não diz, por exemplo, que todo velho possui essa autoridade. Em verdade, diz o contrário, numa imagem de vinhateiro: assim como nem todo vinho azeda com o tempo, nem toda natureza azeda com a idade. O tempo não fabrica o vinagre. Apenas revela o que já fermentava no tonel. E o tonel do lulopetismo, convenhamos, nunca foi safra de guarda.

O problema nunca foi o número de anos. O problema é o que um homem faz com eles