
Ironicamente, é fácil para os americanos concordarem que a polarização política está aumentando. Uma distribuição bimodal do sentimento político — com uma lacuna cada vez maior entre os dois extremos — tem caracterizado o cenário político americano nas últimas décadas.
Segundo pesquisadores da Universidade de Cambridge, “De 1988 a 2024, encontramos evidências claras de que a polarização aumentou, principalmente devido a um período de polarização crescente e contínua de 2008 a 2020…
Os grupos de esquerda e de direita nos Estados Unidos se distanciaram ainda mais, embora ambos permaneçam internamente coesos e tenham tamanhos semelhantes”. Esses pesquisadores também descobriram que “a posição do grupo de esquerda se deslocou mais para a esquerda desde 1988 do que a do grupo de direita, o que está em consonância com a tendência geral da opinião pública americana de se deslocar para a esquerda e se tornar mais polarizada”. Esse período de quatro décadas de polarização deixou os americanos praticamente sem pontos de convergência.
Os centros de dados são a exceção. Os americanos estão unidos quando se trata de desprezo e desconfiança em relação a essas instalações — tanto que Bernie Sanders e Steve Bannon se uniram recentemente para desacelerar o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) e defender a adoção de regulamentações de segurança.
Uma pesquisa da Gallup revelou que sete em cada dez americanos se opõem à construção de centros de dados voltados para a inteligência artificial em suas regiões
O que teria unido americanos tão polarizados? Preocupações ambientais, queda na qualidade de vida local, aumento nas contas de energia e custos de construção estão entre os principais fatores que levam as pessoas a se oporem à construção de novos centros de dados. Por outro lado, a parcela relativamente pequena de americanos que apoia essas construções as enxerga como uma oportunidade de expansão econômica.
O desprezo pelos centros de dados, no entanto, é um fenômeno relativamente recente. Instalações que abrigam sistemas computacionais, servidores e estruturas de armazenamento de dados existem há muitas décadas. Por exemplo, a IBM desenvolveu um dos primeiros centros de dados na década de 1960, como parte do programa Apollo, que levou o homem à Lua.
Muitos escritórios e universidades também têm seus próprios centros de dados para operar redes internas e sistemas computacionais. Não são os centros de dados em si que estão provocando o pessimismo, mas a dimensão extraordinária, a escala e a velocidade de sua expansão, que alimentam o medo.
A inteligência artificial exige um volume significativamente maior de recursos computacionais do que as formas tradicionais de computação. Sua ascensão provocou um aumento vertiginoso na construção e na expansão dos centros de dados. Os centros de dados de hiperescala diferem dos tradicionais principalmente pelo porte: o tipo de instalação necessário na era da IA pode abrigar mais de 5 mil servidores e ocupar milhões de pés quadrados. O maior centro de dados de hiperescala do mundo, localizado na região da Mongólia Interior, na China, tem uma área equivalente à de 165 campos de futebol americano. Essa instalação, com 994 mil metros quadrados, custou US$ 3 bilhões.
Os centros de dados de hiperescala não se limitam à China. Mais da metade dos centros de dados do mundo está nos Estados Unidos. Atualmente, o maior centro de dados em operação no país é o Colossus 2, em Shelby, Tennessee. Essa instalação ocupa uma área de 40 hectares e tem capacidade de geração de energia de 1.085 MW. No entanto, ela deverá ser superada em breve por instalações significativamente maiores, como o New Era Lea Data Center, em Lea, Novo México, cuja capacidade de geração de energia está projetada em 7.000 MW.
Construir e operar um centro de dados de hiperescala exige quantidades significativas de terra, eletricidade e água. A terra é necessária devido à enorme área — que pode variar de centenas a milhares de hectares — exigida para a construção de uma dessas instalações. Centros de dados desse porte também consomem quantidades extraordinárias de eletricidade para alimentar os servidores e a infraestrutura física. A Agência Internacional de Energia prevê que, dentro de 18 meses, entre 6,7% e 12% do consumo total de eletricidade dos Estados Unidos será destinado aos centros de dados. Por fim, essas instalações utilizam grandes volumes de água para resfriar os servidores. Embora seja difícil determinar exatamente quanta água os centros de dados consomem, é evidente que a IA e essas instalações demandam água tanto para o resfriamento local quanto para a geração de eletricidade em outros locais. Além disso, uma quantidade imensa de água é necessária para fabricar os microchips que equipam os centros de dados.
O tamanho e a escala dos centros de dados têm alimentado o medo e a preocupação com a construção de novas instalações. No entanto, as questões relacionadas ao porte dessas estruturas estão sendo cada vez mais ofuscadas por preocupações com o sigilo e a velocidade da expansão.
Muitos cidadãos americanos, de todo o espectro político, manifestam preocupação com a falta de transparência e o ritmo imprudente de expansão da infraestrutura de IA
Essas preocupações são especialmente acentuadas nas comunidades que enfrentam a construção de centros de dados em seus próprios bairros.
A política conhecida como “Not in My Backyard” (Não no Meu Quintal), ou NIMBY, existe muito antes da era da IA. Projetos de construção, como conjuntos habitacionais, parques eólicos e instalações de tratamento de resíduos, frequentemente provocam resistência popular. Embora possa parecer que os centros de dados sejam apenas a mais recente manifestação da política NIMBY, há diferenças importantes nessa situação. Em primeiro lugar, muitos projetos de construção de centros de dados estão sendo desenvolvidos em áreas predominantemente rurais, como as encontradas no Texas e em Utah. Enquanto isso, uma das maiores concentrações de centros de dados já estabelecidos está há muitos anos no condado de Loudoun, na Virgínia, uma das regiões mais densamente povoadas dos Estados Unidos.
Outro aspecto que diferencia os centros de dados das iniciativas anteriores de resistência NIMBY é o sigilo que envolve esses projetos de construção. Muitas empresas de tecnologia obtiveram acordos de confidencialidade (NDAs, na sigla em inglês) com as administrações municipais antes de avançar com os projetos. Segundo essas empresas, os acordos são necessários para proteger tecnologias proprietárias e garantir a segurança.
Na prática, porém, esses NDAs impedem que os cidadãos participem plenamente do processo de aprovação da construção de novos centros de dados. Esse véu de sigilo dificulta a participação cívica em debates sobre os impactos dessas instalações no uso do solo, no consumo de eletricidade e na disponibilidade de água. Tudo isso resultou em assembleias públicas altamente controversas e audiências lotadas nas câmaras municipais de comunidades rurais tranquilas.
Talvez o verdadeiro problema dos centros de dados não esteja no tamanho, na escala, no terreno, na eletricidade ou na água. A questão mais importante é a confiança
As empresas de tecnologia, apesar de seus abundantes recursos financeiros, enfrentam um déficit de confiança pública. As promessas de prosperidade econômica e reinvestimento local não encontram receptividade suficiente entre os americanos. Essa falta de confiança nas empresas de tecnologia é agravada pela desconfiança em relação aos governos, que atravessa os dois principais campos políticos. Os mesmos governos locais e estaduais que levam décadas para consertar estradas, de repente, conseguem agir com extrema rapidez para disponibilizar terrenos e serviços públicos a novos centros de dados.
A viabilidade econômica dos centros de dados pode, de fato, ser sólida. O livre mercado tem demonstrado capacidade de desenvolver novas tecnologias com incrível rapidez. Além disso, os centros de dados podem ser poderosos catalisadores para a modernização de infraestruturas de serviços públicos obsoletas. A construção dessas instalações pode levar investimentos em infraestrutura e serviços empresariais aos municípios, beneficiando as comunidades locais. Contudo, neste momento crucial, o passado problemático da indústria de tecnologia volta a assombrá-la.
Controvérsias envolvendo o uso de dados, como o escândalo da Cambridge Analytica, em 2018, deixaram os americanos desconfiados das empresas de tecnologia e de seu histórico de proteção da privacidade. Inúmeras violações de dados e falhas de segurança cibernética também deixaram os consumidores apreensivos com a falta de investimentos em segurança.
Mais recentemente, um incidente envolvendo a OpenAI e a Hugging Face, no qual agentes de IA teriam saído de controle e invadido sistemas de um concorrente, levantou preocupações de que o Vale do Silício esteja avançando rápido demais e provocando problemas em excesso. A falta de virtude — e não a escassez de terra, água ou eletricidade, nem a oposição inspirada pela política NIMBY — pode ser a maior barreira à construção de novos centros de dados. As empresas de tecnologia estão se deparando com uma dura realidade: tecnologia inovadora e solidez econômica precisam estar aliadas à virtude e à moralidade.
Qual deve ser o próximo passo? Um diálogo renovado sobre virtude e moralidade na relação entre tecnologia e florescimento humano seria um bom ponto de partida. A prudência, conforme descrita por Russell Kirk em seus Dez Princípios Conservadores, pode servir de orientação: “Qualquer medida pública deve ser julgada por suas prováveis consequências a longo prazo, e não meramente por vantagens ou popularidade temporárias. […] Como disse John Randolph de Roanoke, a Providência age lentamente, mas o diabo sempre se apressa. Sendo a sociedade humana complexa, as soluções não podem ser simples se quiserem ser eficazes”. Isso vai além da simples proposta de “desacelerar a IA”, defendida por muitos nos últimos tempos. Trata-se de avaliar de forma abrangente as implicações de longo prazo do mundo que estamos construindo e das pessoas em que estamos nos tornando.
A prudência dá à tecnologia tempo e espaço para que a sabedoria possa orientar seu desenvolvimento. O estudioso francês da tecnologia Paul Virilio tinha muito a dizer sobre esses temas. Com formação em arquitetura, Virilio explorou a relação entre tecnologia, velocidade, espaço e tempo. Por meio do conceito de dromologia, derivado da palavra grega dromos, que significa “pista de corrida”, Virilio estudou a velocidade e seu impacto na sociedade.
Segundo Virilio, a Revolução Industrial foi uma “revolução dromocrática” que acelerou o ritmo do mundo, ao mesmo tempo que reconfigurou a política e a guerra, as cidades e as comunidades, as pessoas e suas vidas. Em linhas gerais, Virilio argumentava que o aumento da velocidade não apenas reduziu a importância do espaço material, mas também transformou nossa relação com o mundo e uns com os outros. As coisas aceleraram, e tudo mudou. Como Virilio faleceu em 2018, só podemos imaginar o que teria dito sobre a revolução da inteligência artificial.
Ainda assim, podemos extrair algumas lições de suas reflexões anteriores à era da IA e dos centros de dados de hiperescala. Em uma entrevista de 1995, Virilio expressou sérias preocupações com a velocidade e a escala do desenvolvimento tecnológico nas décadas anteriores:
A própria situação se radicalizou de forma extraordinária. O fim do confronto entre Leste e Oeste, orientado por blocos, a transição do modo de produção industrial para o informacional, a globalização alcançada por meio das redes de telecomunicações e das (super)estradas da informação — todos esses desenvolvimentos levantam questões graves. A revolução da informação que testemunhamos atualmente inaugura a era do acidente global. Os acidentes do passado eram localizados no espaço e no tempo: um descarrilamento de trem ocorria, digamos, em Paris ou em Berlim; e, quando um avião caía, isso acontecia em Londres ou em qualquer outro lugar do mundo. As catástrofes de outrora se situavam no espaço real, mas agora, com o advento da velocidade absoluta da luz e das ondas eletromagnéticas, surgiu a possibilidade de um acidente global, um acidente que ocorreria simultaneamente em todo o mundo.
Segundo Virilio, novas invenções tecnológicas trazem consigo novas formas de acidentes. Os trens introduziram os descarrilamentos; os aviões, os acidentes aéreos; e os mercados de ações, os colapsos financeiros. Isso não significa que essas tecnologias sejam inerentemente ruins, mas que seus benefícios vêm acompanhados de novos riscos e de possíveis acidentes. Um risco pouco discutido, mas urgente, relacionado aos centros de dados é a natureza dos acidentes que eles podem estar criando. Enquanto as questões relativas ao terreno, à eletricidade e à água são preocupações imediatas, que acidentes desconhecidos, ainda por serem imaginados, podem estar surgindo no horizonte à medida que construímos centros de dados de hiperescala?
Embora possa soar alarmista, Virilio alerta que uma das consequências ainda não previstas da expansão dos centros de dados pode ser o totalitarismo. Eis o que ele diz sobre o assunto:
Por um lado, é algo muito positivo, pois permite a união da humanidade. Mas, ao mesmo tempo, representa uma experiência totalitária de primeira ordem. O totalitarismo está latente na tecnologia. Não foram apenas Hitler ou Mussolini que foram totalitários, nem apenas os faraós, a meu ver. O totalitarismo já está presente no próprio objeto tecnológico.
O Google, que opera muitos centros de dados de hiperescala, incluiu o famoso lema “Não seja malvado” no prefácio de seu código de conduta. Em 2018, o lema foi removido dessa posição, mas permaneceu próximo ao final do documento: “E lembre-se… não seja malvado, e, se você vir algo que considere errado, denuncie!”. Embora ainda não se saiba que tipos de males — ou acidentes ainda por vir — podem surgir dos centros de dados de hiperescala, é evidente que as pessoas estão identificando problemas que consideram graves. E estão denunciando-os.
A. Trevor Sutton é um pastor e escritor americano, pastor sênior da Igreja Luterana de São Lucas, em Lansing, Michigan, e professor de teologia na Universidade Concordia, em Irvine, Califórnia. É autor de vários livros, incluindo Redeeming Technology (em coautoria com Brian Smith, MD) e Irreplaceable (em coautoria com Gene Edward Veith Jr.).
©2026 Acton Institute. Publicado com permissão. Original em inglês: Data Centers and Their Enemies

















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