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A janela woke se fechou e abriu espaço para o conservadorismo

Pesquisas recentes indicam aumento da avaliação negativa de governos de esquerda. Essa queda de popularidade não pode ser simplificada por um único fator. Mas há um conceito que ajuda a entender esse movimento: a Janela de Overton.

Criado nos anos 1990 pelo analista político Joseph Overton, o conceito considera que existe um limite para o que é socialmente aceitável: uma régua que vai do impensável ao popular. O ponto central está na volatilidade dessa movimentação: ideias que antes eram aceitáveis podem, com o tempo, passar a ser vistas como radicais, e o contrário também ocorre.

A agenda woke é um exemplo claro desse deslocamento. O movimento ganhou força nos Estados Unidos a partir dos anos 2010, especialmente com marcos como o Black Lives Matter, e rapidamente se expandiu. O que começou como uma pauta de consciência racial passou a incorporar temas como diversidade, equidade, inclusão, gênero e justiça social.

No auge, essa agenda ultrapassou o campo político e chegou ao ambiente corporativo. Empresas passaram a adotar metas de diversidade e critérios de ESG, vinculando essas pautas à reputação e ao desempenho. O que antes era considerado radical tornou-se sensato e, em muitos casos, desejado.

Acordamos da ilusão de justiça social quando a realidade entrou pela janela, reposicionando o conceito: justiça social deixa de ser ideologia e volta a ser o básico – renda, segurança e comida na mesa

Com o tempo, a intensificação da militância e a polarização geraram uma percepção de imposição dessas agendas. O que havia se consolidado como consenso passou a ser tensionado. Esse movimento se tornou mais evidente no cenário político americano recente, com a volta de Donald Trump ao poder em 2024. Isso não é apenas um evento eleitoral, mas um sinal de mudança no ambiente de aceitabilidade.

A reviravolta reverberou na América Latina, com Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile e Daniel Noboa no Equador, além de lideranças alinhadas como Santiago Peña. Soma-se a isso a queda de Nicolás Maduro, em um cenário de ruptura.

No Brasil, assim como nos Estados Unidos, inflação, custo de vida, insegurança e frustração com resultados econômicos passaram a dominar o debate. O eleitor deixou de responder prioritariamente a narrativas simbólicas e passou a exigir entregas tangíveis – como encher o carrinho no supermercado.

Esse deslocamento cria espaço para discursos mais conservadores, não necessariamente por adesão ideológica, mas por percepção de eficácia. E, às vésperas da corrida eleitoral, o que se observa é o fechamento da janela woke e o deslocamento do eixo do debate. Isso não significa que essas pautas desapareceram. Significa que perderam centralidade.

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Esse reposicionamento em escala global ocorre diante de uma classe média pressionada por impostos, juros altos e perda de poder de compra. E, apesar de parecer regressão sair do campo filosófico para o prático, isso apenas revela o que ficou evidente: faltou o básico. E, quando falta o básico, a régua se move: o que era aceitável passa a ser visto como excesso, e o essencial volta ao centro.

E a janela não se fechou por acaso. Fechou-se porque, sem entrega, nenhuma agenda se sustenta. Acordamos da ilusão de justiça social quando a realidade entrou pela janela, reposicionando o conceito: justiça social deixa de ser ideologia e volta a ser o básico – renda, segurança e comida na mesa.

Christiane Disconsi é jornalista e cientista política.

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