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Caso Master impulsiona propostas de reforma do STF

A contaminação do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo escândalo do Banco Master estimulou, nas últimas semanas, pré-candidatos à Presidência e seus partidos a defender, com mais ênfase, uma reforma do Judiciário com mudanças no funcionamento da própria Corte. A maioria deles ainda não apresentou propostas fechadas e concretas, mas sim linhas gerais do que pretendem apoiar ou ainda projetos de lei já em andamento que podem ajudar a impulsionar caso se elejam.

Os principais temas em debate são a diminuição do mandato dos ministros, medidas para evitar conflitos de interesses (pois parte dos ministros possui familiares que exercem a advocacia e operações empresariais) e o fim das decisões monocráticas (quando só um ministro decide sobre um processo, sem submeter temas ao colegiado).

Entre os pré-candidatos à eleição, o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), tem sido um dos mais vocais. Ele defende impeachment de ministros e propõe que novos indicados sejam mais capacitados. Já Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, apoia mudanças no Judiciário mas tem evitado entrar em choque com o STF.

Diante das repercussões negativas do escândalo do Master, o PT também passou a defender reformas. O partido foi o último a se manifestar sobre o tema, mas sem detalhar muito suas propostas. O pré-candidato Ronaldo Caiado (União Brasil), não defende mudanças, mas o diálogo com o STF.

Uma pesquisa da Genial/Quast divulgada nesta semana apontou que 10% dos entrevistados acham que o STF e o Judiciário foram os mais afetados negativamente pelo escândalo do Master. Essas instituições ficaram em terceiro lugar no ranking de percepção negativa, atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva 11% e dos pesquisados que disseram que todos (governo Lula, STF, ex-governo Bolsonaro, Banco Central e Congresso) foram afetados pelo escândalo (46%).

A pesquisa não captou impactos da divulgação na quarta-feira (13) de um áudio enviado por Flávio Bolsonaro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro pedindo dinheiro para a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro.

A pesquisa Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 8 e 11 de maio. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-03598/2026.

PT propõe reforma, mas não detalha proposta

A iniciativa mais recente de discutir o STF partiu do PT, que aprovou no final de abril, em seu 8º Congresso Nacional, manifesto com a defesa de “Reforma do Poder Judiciário, visando à democratização, mecanismos de autocorreção e fortalecimento do Estado de Direito”. O documento, no entanto, não detalha o que propõe o partido.

No evento, o atual presidente do partido, Edinho Silva, disse que uma reforma deve ser conduzida pelo próprio Judiciário.  “Penso que essa deva ser uma iniciativa fundamental do próprio Poder Judiciário”.

Diretrizes mais consolidadas foram formalizadas pelo senador Rogério Carvalho (PT-SE) em março, quando propôs a instalação de uma comissão no Senado para discutir a elaboração de uma proposta. No pedido, ele afirma que uma reforma deve tratar de três questões:

  1. definição de “padrões éticos externos, claros e vinculantes” para ministros das cortes superiores (STF, STJ, TSE, TST, STM), com novas definições de impedimento e suspeição, quando parentes atuam nos tribunais;
  2. fim da aposentadoria compulsória como modalidade de punição – em linha com o que decidiu, em março, o ministro Flávio Dino;
  3. redução dos gastos com o sistema de justiça, especialmente no corte de penduricalhos – o que o STF também tem tentado coibir neste ano.

Dentro do STF, a proposta de um código de conduta, defendido pelo atual presidente da Corte, Edson Fachin, enfrenta resistência do grupo formado por Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Flávio Dino, que dizem que o momento não é o ideal.

O temor é de que a proposta realce ainda mais as relações suspeitas de Moraes e Toffoli com o dono do Master, Daniel Vorcaro, sobretudo nas campanhas eleitorais para o Senado, em que pré-candidatos de direita reforçarão a defesa de impeachment dos ministros.

A percepção de que o STF virou tema eleitoral levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu vice, Geraldo Alckmin, a defender mandatos fixos para ministros, em declarações recentes.

Trata-se de uma ideia antiga da esquerda e que recentemente passou a ter apoio de parte da direita no Congresso. O argumento é de que a composição do tribunal se renovaria com mais frequência e, assim, ficaria mais próxima da formação dos poderes Executivo e Legislativo, que escolhem e aprovam os nomes.

PL de Flávio Bolsonaro já apoia propostas em andamento

Pré-candidato do PL à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro tem evitado falar do STF e do Judiciário. Sua defesa mais eloquente por mudanças foi em Porto Alegre, em abril, durante o Fórum da Liberdade. Diante da plateia de direita, disse que uma reforma será “inevitável” em 2027; evitou, contudo, sinalizar envolvimento direto na pauta.

“Qualquer governo que se inicia a partir de 27 vai ter que fazer uma reforma do Judiciário sim. Não faltam propostas legislativas que tratem disso, seja discutindo tempo de mandato de ministro do Supremo, seja discutindo a impossibilidade de, por decisões monocráticas, leis ou atos que são aprovados no Congresso Nacional sejam revogados sem que seja pelo plenário [do Supremo Tribunal Federal]”.

Na atual legislatura, PL e Novo, os principais partidos de direita, já têm se mobilizado no Congresso para limitar as competências e poderes do STF.

Em 2023, ambos se empenharam na aprovação, no Senado, de uma proposta de emenda à Constituição (PEC 8/2021), de autoria do senador Oriovisto Guimarães (ex-Novo, hoje no PSDB-PR), que praticamente acaba com as decisões monocráticas.

Em 2024, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou o parecer favorável à PEC do deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) contra as decisões monocráticas. Desde então, deputados do PL têm cobrado do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), a instalação de uma comissão especial, onde deve ser apreciada antes da votação no plenário.

Nesta semana, a oposição fez novo apelo pelo avanço da proposta após a decisão monocrática de Alexandre de Moraes que suspendeu a aplicação da nova lei da dosimetria para os crimes do 8 de janeiro de 2023. Flávio classificou a decisão de Moraes sobre a dosimetria como “estranha”, após pesar por alguns segundos qual adjetivo usaria.

Outra proposta de peso encampada pela direita é o PL 3640/2023, aprovado na Câmara em dezembro do ano passado e que reduz substancialmente a capacidade de o STF criar “normas provisórias”, em julgamentos que derrubam leis por inconstitucionalidade.

A mesma proposição impede que, nessas ações, o tribunal também determine que o governo adote “medidas estruturantes” para cumprir as decisões da Corte. Esses mecanismos, desenvolvidos pelo próprio STF, representam, na prática, formas de legislar e governar, substituindo Legislativo e Executivo.

O projeto de lei foi enviado ao Senado em dezembro, mas até o momento o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), não deu andamento.

A prioridade do PL é eleger uma bancada de mais de 20 senadores nas eleições deste ano para brigar pela presidência da Casa em 2027, não só para avançar com as propostas, mas também para abrir processos de impeachment contra ministros, a começar por Alexandre de Moraes.

O nome mais falado dentro do partido para o posto de presidente do Senado é o senador Rogério Marinho (PL-RN). Em entrevista recente, ele defendeu uma reforma que impeça o STF de invadir a competência dos outros poderes, que impeça parentes de ministros de advogarem na Corte e que estabeleça mandatos fixos para os magistrados.

“É evidente que nós precisamos discutir com a sociedade, com o próprio colegiado e com o novo Parlamento uma reforma judiciária que estabeleça de novo os limites entre os poderes, a separação entre os poderes e o equilíbrio da democracia. Nós não podemos, por exemplo, aceitar que estamos há sete anos com um inquérito interminável aberto de ofício, onde inclusive o princípio do juiz natural foi desconhecido, foi entregue a um magistrado que hoje virou um xerife no Brasil. Um inquérito que cabe tudo”, afirmou o senador ao canal do jornalista Cláudio Dantas.

O que propõem Zema, Caiado, Aldo e Renan Santos para o Judiciário

Outros pré-candidatos à Presidência têm lançado ideias diferentes, mas sempre na direção de maior contenção do poder do STF. Romeu Zema, do Novo, defende que só possam ser indicados para a Corte quem tiver mais de 60 anos.

Isso, segundo ele, levaria ao tribunal pessoas mais experientes, com carreiras consolidadas e que, além disso, ficariam no tribunal por no máximo 15 anos, uma vez que aos 75 a saída é obrigatória. Zema também defende que parte dos indicados venha da própria magistratura ou do Ministério Público. Em paralelo, ele vem defendendo o impeachment de ministros, como Gilmar Mendes, que pediu a inclusão de seu nome no inquérito das Fake News por divulgar vídeos satíricos do STF.

Ronaldo Caiado, do União Brasil, não apresentou ideias concretas de mudanças. No Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, disse, no entanto, que como presidente, teria “autoridade” para dialogar com o STF para conter excessos e equilibrar novamente a relação com o Executivo e o Legislativo.

No mesmo evento, em abril, Aldo Rebelo, da Democracia Cristã, afirmou que atuaria, principalmente, para reduzir poderes do Judiciário, do Ministério Público e de órgãos como Ibama, ICMBio e Funai, para destravar obras que dependem de licenciamento ambiental. Segundo ele, sob influência de ONGs estrangeiras, essas instituições estão “interditando” investimentos em infraestrutura e desenvolvimento no interior do país.

Renan Santos, da Missão, diz que, se eleito, vai convencer o Congresso e o STF a implementar no país, por meio de nova legislação, a doutrina do “direito penal do inimigo”, com regras processuais bem mais rígidas para integrantes do crime organizado, que passarão a ser equiparados a terroristas.

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