
Depois de quase uma década sob o domínio implacável da patrulha ideológica, a indústria do entretenimento ensaia um retorno à sanidade. Durante anos, a chamada cultura woke impôs um ambiente de vigilância constante sobre as produções culturais, elegendo a comédia e a sátira como suas principais inimigas.
Roteiros foram higienizados, piadas foram submetidas ao crivo de comitês de sensibilidade e o medo do cancelamento paralisou Hollywood. O resultado foi um deserto criativo recheado de sermões disfarçados de entretenimento, que alienou o público e gerou prejuízos bilionários aos grandes estúdios.
Contudo, os ventos parecem mudar. O cansaço generalizado do público diante do moralismo corporativo e a necessidade urgente de bilheteria forçaram uma recalibragem no mercado. Essa perda de força do patrulhamento não se deu por um evento único, mas manifesta-se por meio de múltiplos sintomas convergentes na televisão e no cinema, provando que o puritanismo progressista perdeu o fôlego.
No streaming, criadores de prestígio começaram a cavar trincheiras contra o patrulhamento. A aclamada série Hacks, da HBO, estreou em 2021 e construiu seu sucesso justamente abrindo espaço ao ridicularizar o abismo geracional na comédia, contrastando a postura livre de uma humorista veterana com o policiamento bitolado de sua jovem roteirista da Geração Z. Embora não inteiramente satírico ao “wokismo”, o riso disso está lá.
No mesmo caminho, a antologia The White Lotus se consagrou ao destrinchar a hipocrisia das elites globais, zombando tanto do verniz politicamente correto quanto do conservadorismo fútil. Mais recentemente, o seriado Rooster, nova comédia da HBO, criada por Bill Lawrence e estrelada por Steve Carell, mergulhou sem medo no epicentro histórico do fenômeno: o ambiente universitário.
Carell interpreta Greg Russo, um autor de ficção barata que se torna escritor residente no Ludlow College para se aproximar da filha. Russo representa o homem “branco e heterossexual” comum, deslocado em um ambiente onde cada palavra é um campo minado e cada interação social é mediada por cartilhas identitárias.
O grande trunfo da série é ter acertado na dose do humor. A série não se comporta como um panfleto reacionário ou um manifesto rancoroso. Devolve ao espectador a liberdade de rir do que é simplesmente ridículo, transformando os comitês de cancelamento acadêmico e as neuroses estudantis em piadas recorrentes, expondo a fragilidade psicológica e o autoritarismo disfarçado de virtude que caracterizam a cultura woke.
O riso humaniza o conflito e desarma a arrogância dos patrulheiros morais. E o mais importante para a indústria: faz sucesso e dá lucro. O passo seguinte foi inevitável: o cinema de grande apelo comercial. Gêneros que pareciam extintos devido ao patrulhamento agora ressurgem como fortes sintomas de época.
É o caso da refilmagem de Corra que a Polícia Vem Aí!, trazendo Liam Neeson no papel que foi de Leslie Nielsen, e o aguardado retorno da franquia Todo Mundo em Pânico, que promete zombar abertamente de vacas sagradas da atualidade, como as exigências linguísticas em torno dos pronomes neutros.
Esse novo cenário ganhou contornos didáticos no mercado brasileiro, evidenciando o abismo entre o público real e as agências de marketing que ainda tentam proteger dogmas ideológicos. No cartaz oficial de divulgação de Todo Mundo em Pânico 6, uma personagem segura uma placa que ironiza diretamente a militância com o trocadilho “I’m Woke so I am Broke” (Sou Woke, logo, não lucro). Mas, no Brasil, inverteu-se o sentido original com a tradução: “Se eu lacro, eu lucro”.
A distorção gerou uma reação imediata e avassaladora nas redes sociais. Diante do boicote iminente e do ridículo público de tentar blindar o wokismo de uma piada feita pelo próprio filme, a Paramount Pictures Brasil recuou, corrigindo o cartaz para uma tradução fiel ao espírito da obra: “Eu lacro, não lucro”. O episódio serviu como uma demonstração prática de que o espectador perdeu mesmo a paciência com os filtros do politicamente correto.
O episódio também joga luz no forte componente econômico. O mercado percebeu que o moralismo não vende. Gigantes como a Disney iniciaram uma reformulação pública em suas diretrizes, prometendo abandonar narrativas divisivas em prol do entretenimento tradicional. Paralelamente, plataformas como a Netflix passaram a cancelar produções de apelo puramente ideológico e baixa audiência, como se especula que tenha sido o caso do seriado Boots.
A exaustão da cultura woke nas telas parece significar o fim do monopólio do ressentimento sobre a criatividade. O sucesso de sátiras como Rooster e o retorno das comédias escatológicas indicam que o público vem recuperando o direito de rir de tudo sem que isso signifique um crime. Hollywood e seus braços de distribuição internacional parecem redescobrir que, no teatro da vida real, o bobo da corte ainda é mais necessário (e lucrativo) do que o inquisidor.














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