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a ligação das facções com o Hezbollah

A decisão do governo do presidente Donald Trump de classificar as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, anunciada nesta quinta-feira (28) pelo secretário de Estado Marco Rubio, é também fruto de denúncias sobre a relação entre os dois grupos criminosos com o grupo terrorista islâmico Hezbollah, que atua no Líbano com apoio do Irã.

A classificação de PCC e CV como terroristas, que entra em vigor no próximo dia 5 de junho, coloca as facções brasileiras na mesma lista em que figuram Hamas, Al-Qaeda, Estado Islâmico e o próprio Hezbollah. A medida ocorreu após pedido feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que se reuniu primeiro com o presidente Trump no Salão Oval, ocasião em que fez o pedido para que o governo americano classificasse as facções como terroristas, e no dia seguinte com o secretário Rubio na Casa Branca, para reforçar a solicitação.

Atuação do Hezbollah na Tríplice Fronteira

Em janeiro, após a operação para capturar o então ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, o secretário Rubio mencionou que os EUA, sob o governo do presidente Trump, não iriam mais permitir que o Hemisfério Ocidental fosse base de operações para “para adversários, competidores e rivais” dos americanos.

De acordo com relatório do ano passado do think tank Rand Corporation, a região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai é apontada por autoridades americanas como um dos principais pontos de apoio do Hezbollah fora do Oriente Médio desde os anos 1990. A região reúne condições que, segundo o governo dos EUA, favorecem a atuação do grupo.

Em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, Joseph Humire, então diretor-executivo do think tank Center for a Secure Free Society, especializado em ameaças transnacionais na América Latina, e hoje subsecretário adjunto de Defesa para Assuntos de Segurança do Hemisfério Ocidental no segundo governo Trump descreveu a região em testemunho em audiência no Congresso americano como “um centro histórico de convergência entre crime e terrorismo na América do Sul”, citando “fronteiras porosas, fiscalização limitada e instituições fracas” como fatores que permitiram ao crime organizado prosperar.

O relatório do RAND reforçou essa avaliação, apontando a Tríplice Fronteira como “hub histórico” do Hezbollah na região, com uma expressiva comunidade de origem libanesa que, segundo o documento, “inclui indivíduos que simpatizam com e facilitam as operações do grupo” terrorista libanês.

Em outubro de 2024, o FinCEN, a Rede de Repressão a Crimes Financeiros do Departamento do Tesouro americano, emitiu alerta formal a instituições financeiras de todo o mundo sobre o risco de financiamento ao Hezbollah, citando a Tríplice Fronteira como uma de suas bases históricas na América Latina. Em maio do ano passado, o governo Trump anunciou recompensa de até US$ 10 milhões (R$ 50 milhões, na cotação mais recente) para quem fornecer informações que levem à interrupção dos esquemas financeiros do Hezbollah na região, pelo programa Rewards for Justice do Departamento de Estado americano.

Em agosto do ano passado, o Paraguai anunciou a criação de um centro antiterrorismo em Assunção, com 15 policiais formados pelo FBI, e uma base no lado paraguaio da Tríplice Fronteira. Na ocasião, o governo paraguaio afirmou que o país tinha declarado o Hezbollah como grupo terrorista e que o centro também atuaria contra o crime organizado, com maior articulação com os ministérios da Justiça do Brasil e da Argentina.

Em setembro de 2024, após a morte do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, em ataque israelense, autoridades do Brasil, Paraguai e Argentina realizaram reuniões de emergência sobre possíveis impactos da guerra no Líbano sobre a região. Paraguai e Argentina elevaram o nível de alerta para terrorismo à cor laranja, equivalente a risco alto numa escala de quatro níveis. Uma das reuniões tratou especificamente da possível chegada de novos membros do Hezbollah em busca de refúgio na América do Sul.

A ligação entre Hezbollah, CV e PCC

A ligação entre o Hezbollah e as facções brasileiras tem, segundo informações da Polícia Federal relatadas pelo pesquisador Diorgeres de Assis Victório em levantamento exclusivo para a Gazeta do Povo em 2023, origem em 2006, na própria Tríplice Fronteira.

O pesquisador afirmou que o PCC prometia dar proteção a presos de uma quadrilha libanesa detidos nas penitenciárias do país. Em contrapartida, segundo Victório, a aliança permitia ao PCC ganhar vantagem no tráfico de diversos mercados ilícitos com a facilitação do Hezbollah, que opera com lavagem de capitais, contrabando de cigarros e de armas num sistema corrupto que envolve polícias, políticos e aduanas. Não por acaso, avaliou o pesquisador, o PCC se tornou um dos maiores traficantes internacionais de drogas.

Antes da parceria com o PCC, foi o Comando Vermelho quem inicialmente colocou o grupo terrorista libanês no esquema criminoso brasileiro, segundo disse o pesquisador. A principal figura nessa aproximação, de acordo com Victório, foi o narcotraficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, apontado como quem estreitou os negócios entre o CV e o Hezbollah.

Em seu testemunho ao Congresso americano em 2018, Humire relatou que 11 indivíduos residentes no Brasil e no Paraguai foram sancionados pelo Departamento do Tesouro dos EUA por fornecerem apoio financeiro ao Hezbollah, e que nove deles abriram pelo menos 18 novas empresas nos dois países após as sanções. Na ocasião, ele apontou o PCC como uma das organizações criminosas da América Latina com ligações comprovadas com o grupo libanês, ao lado de Los Zetas, no México, e La Oficina de Envigado, na Colômbia.

O que muda com a designação

Com a decisão anunciada por Rubio nesta quinta, PCC e CV passarão a integrar a mesma estrutura jurídica aplicada ao Hezbollah, ao Hamas, à Al-Qaeda e ao Cartel de Sinaloa, classificado como terrorista estrangeiro no ano passado. A classificação como Organização Terrorista Estrangeira (FTO, na sigla em inglês) e como Terrorista Global Especialmente Designado (SDGT, na sigla em inglês) criminaliza qualquer forma de apoio material às facções por pessoas ou entidades sujeitas à jurisdição americana, permite o congelamento de ativos e obriga instituições financeiras americanas a reportar qualquer transação vinculada aos grupos.

A porta-voz do Departamento de Estado para assuntos do Brasil, Amanda Roberson, afirmou nesta sexta-feira (29) que a decisão foi tomada exclusivamente pelo presidente Trump e sua equipe, negando qualquer influência do senador Flávio Bolsonaro. Segundo Roberson, as classificações são uma ferramenta da lei americana para agir contra grupos que já atuam dentro dos Estados Unidos, e tanto o CV quanto o PCC já tiveram atividades identificadas em 12 estados americanos, disse ela.

O governo Lula, que em maio de 2025 havia rejeitado um pedido americano para fazer a classificação no Brasil, reagiu com críticas à decisão. Em discurso nesta sexta-feira (29), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou Flávio Bolsonaro de traidor por ter articulado o pedido junto ao governo Trump e afirmou que a medida abre caminho para uma intervenção americana no Brasil. No mês passado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou em Washington que a medida poderia afetar negativamente o mercado financeiro e o turismo no Brasil. Integrantes do Itamaraty avaliavam que a designação poderia abrir espaço para ações mais duras dos Estados Unidos no território brasileiro.

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