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Por que o brasileiro trabalha tanto e ganha tão pouco?

Existe um paradoxo cruel na economia nacional que frustra diariamente milhões de cidadãos: embora o brasileiro seja reconhecidamente um profissional que trabalha de forma exaustiva, sua remuneração e seu poder de compra não refletem, em absoluto, esse imenso esforço.

Essa discrepância gera uma compreensível e justificada indignação social. No entanto, ao examinarmos as engrenagens da nossa economia, torna-se evidente que a culpa pelo fracasso produtivo do país não reside em uma suposta falta de dedicação do trabalhador, tampouco na ganância do setor privado. O verdadeiro algoz da nossa prosperidade é o peso esmagador de um Estado que atua como o principal obstáculo ao desenvolvimento.

Os dados globais escancaram a gravidade do nosso atraso estrutural. Segundo um levantamento recorrente da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a produtividade brasileira amarga a 94ª posição no ranking global. Isso significa que são necessários quatro trabalhadores brasileiros para gerar a exata mesma riqueza que um único trabalhador nos Estados Unidos consegue produzir no mesmo período de tempo.

Mas esse abismo produtivo não tem relação com a força física ou com a quantidade de horas empenhadas por nossos cidadãos. Ele é o reflexo direto de um ecossistema econômico meticulosamente desenhado para punir quem ousa investir, inovar e contratar.

O trabalhador americano, suíço ou alemão produz mais porque está inserido em um ambiente de negócios livre, amparado por infraestrutura de ponta e maquinário moderno. O trabalhador brasileiro, por sua vez, é obrigado a operar em um ambiente hostil, desprovido de ferramentas adequadas e asfixiado por um sistema que drena os recursos das empresas antes mesmo que elas possam pensar em modernização.

As políticas de trabalho brasileiras e as de nações desenvolvidas expõem uma diferença gritante. No mercado norte-americano, por exemplo, a dinâmica trabalhista é amplamente fundamentada na remuneração por hora e na profunda liberdade de negociação entre as partes. Impera a lógica justa e transparente de que aquele que opta por trabalhar mais, ou que entrega mais eficiência em menos tempo, tem a liberdade de maximizar seus ganhos.

A dignidade do trabalhador não é garantida por uma lei que proíbe o trabalho aos finais de semana, mas por uma economia vibrante que faça o seu salário valer a pena no supermercado

Em contrapartida, o Brasil insiste em um modelo engessado desde a década de 1940. O Estado assume o papel de tutor arrogante das relações privadas, ditando rigidamente os horários, impondo burocracias desnecessárias e limitando as possibilidades de ascensão por meio de salários fixos corroídos pela inflação.

A nossa Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) atua, na realidade, como uma âncora pesada que puxa o mercado de trabalho para o fundo. Ela cria o que os economistas chamam de “cunha fiscal” – uma fenda gigantesca entre o que o empregador gasta para manter um funcionário e o que esse trabalhador efetivamente recebe líquido em sua conta bancária.

Antes mesmo de o suor do brasileiro se converter em pão na sua mesa, o Estado já confiscou uma fatia exorbitante dessa riqueza na forma de impostos e contribuições embutidos na folha de pagamento. Esse confisco estatal reduz drasticamente a margem de manobra das empresas, impedindo que ofereçam remunerações mais atrativas.

Soma-se ao caos trabalhista o infame “Custo Brasil”. Fica praticamente impossível exigir altos níveis de competitividade global de um empresário que, segundo dados do Banco Mundial, perde, em média, 1.500 horas por ano apenas para calcular e pagar tributos em um manicômio tributário de complexidade ímpar no planeta.

Em vez de contratar engenheiros, desenvolvedores e inovadores para melhorar a produtividade de sua empresa, o empreendedor brasileiro é forçado a contratar exércitos de contadores e advogados tributaristas apenas para sobreviver à sanha arrecadatória da Receita Federal. Esse excesso de regulações drena os valiosos bilhões que, em economias abertas e maduras, seriam naturalmente revertidos em aumentos salariais reais.

Agravando essa paralisia estrutural, temos uma cultura política profundamente nociva que insiste em promover a demonização do empreendedor. A consolidação dessa “cultura da inveja”, sistematicamente alimentada por políticos para angariar capital eleitoral, trata o gerador de empregos e pagador de impostos como um explorador impiedoso, em vez de um parceiro essencial para o progresso da nação.

Esse ambiente hostil afugenta investidores, provoca fuga de cérebros e freia a geração de oportunidades. Quando o Estado pune o sucesso empresarial e taxa o capital de forma predatória, o resultado direto é a falta de empregos de qualidade.

É exatamente nesse contexto de cegueira econômica que surgem discussões rasas e populistas, como o atual debate sobre a extinção forçada da escala 6×1. Tenta-se resolver o problema real do cansaço e da baixa renda por meio de imposições estatais arbitrárias, ignorando por completo as leis básicas da economia.

Em um país com produtividade estagnada e custos operacionais altíssimos, obrigar por decreto que setores inteiros reduzam as horas de trabalho, mantendo os mesmos salários, é assinar uma sentença de morte para milhares de pequenos e médios negócios.

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O resultado de medidas artificiais como essa nunca é a melhoria da qualidade de vida, mas sim o repasse imediato de custos para os preços – inflação –, a aceleração da automação de postos de base e a explosão da informalidade, jogando o trabalhador na desproteção absoluta.

Países que verdadeiramente incentivam o desenvolvimento desfrutam de cidadãos com poder de compra pleno e uma invejável qualidade de vida justamente porque seus governos não enxergam a iniciativa privada como uma vaca leiteira a ser ordenhada até a exaustão.

A dignidade do trabalhador não é garantida por uma lei que proíbe o trabalho aos finais de semana, mas por uma economia vibrante que faça o seu salário valer a pena no supermercado.

Para que o trabalhador brasileiro possa ter a dignidade de um padrão de vida equivalente ao dos países de primeiro mundo, precisamos urgentemente mudar o eixo do debate nacional. Precisamos abandonar a crença infantil na caneta mágica do legislador e passar a exigir a desconstrução estrutural dessa gigantesca máquina burocrática.

Somente por meio da verdadeira liberdade econômica, de uma reforma tributária e administrativa implacável e do respeito institucional a quem empreende e produz, o Brasil deixará de ser a eterna promessa do futuro para se tornar a potência do presente.

Davi de Souza é assessor parlamentar na Câmara dos Deputados, diretor de Relações Institucionais do Novo Jovem e pesquisador em Ciência Política pela UnB.

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