
Na eleição presidencial de 2022, a direita recebeu mais votos do que em qualquer outra eleição da história do país. E perdeu.
Quatro anos depois, esse bloco político chega ao jogo com o mesmo potencial para vencer, porém mais dividido do que gostaria de admitir. Existem vários grupos fáceis de reconhecer — e sem um líder ou projeto capaz de organizar todos eles.
A pergunta já não é se a direita tem votos para ganhar. É como pode parar de desperdiçá-los brigando com ela mesma.
Mas a disputa de 2026 também pode definir o futuro do campo conservador no país.
Cada corrente vê saídas diferentes para os grandes fracassos do Brasil. Da violência fora de controle à economia travada, da infraestrutura precária à diplomacia aliada de ditaduras sanguinárias.
Algumas delas acreditam que a única saída é o confronto direto com o “sistema”. Outras apostam em gestão e pragmatismo. Há quem defenda ampliar o diálogo. E há quem nisso justamente o começo de todos os problemas.
A seguir, organizamos a direita brasileira em cinco grupos relativamente bem definidos. Todos eles, de alguma forma, tentam responder à mesma pergunta: o que fazer com o legado de Jair Bolsonaro — preso, inelegível, e ainda assim a figura de maior influência sobre o campo conservador. As respostas vão da lealdade incondicional a ele (ou a seu principal herdeiro, Flávio Bolsonaro) ou a rejeição absoluta do bolsonarismo.
Nenhuma dessas correntes está completamente certa ou errada. E nenhuma delas parece forte o suficiente para ganhar sozinha.
O bolsonarismo linha-dura
Para esse núcleo do bolsonarismo, o maior risco da direita não é perder para o PT, mas virar uma versão diluída de si mesma. Qualquer tentativa de moderação pode ser lida como um indício de fraqueza.
Hoje, esse grupo prega o apoio incondicional a Flávio Bolsonaro e permanece em estado constante de vigilância contra “traidores”, sejam eles reais ou imaginários.
Principais figuras
Flávio Bolsonaro
Flávio, escolhido candidato à Presidência pelo pai, hoje aparece em empate técnico com Lula em cenários de segundo turno. Ele tenta equilibrar duas necessidades opostas: manter a militância bolsonarista mobilizada, mas sem carregar toda a rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro fora dela.
Eduardo Bolsonaro
Com o mandato de deputado federal cassado, o “filho 03” atua a partir dos EUA, onde articula uma pressão internacional sobre o Judiciário brasileiro com aliados ligados ao trumpismo. Mas sua força dentro do Brasil está na base bolsonarista. Eduardo é quem fala “na lata” o que outros pensam duas vezes antes de dizer.
Carlos Bolsonaro
O mais discreto da família, Carlos continua sendo um dos principais estrategistas digitais do grupo. Ele vai concorrer ao Senado por Santa Catarina, estado visto como um terreno mais seguro para o sobrenome Bolsonaro. Sua mudança para o Sul, no entanto, criou conflitos com lideranças do PL catarinense e levou à reorganização de algumas alianças locais.
Kim Paim
O influenciador baiano trabalha como uma espécie de fiscal de conduta dentro do núcleo mais duro do bolsonarismo. Da Austrália, onde vive, ele critica diariamente nomes da direita que acredita terem se afastado, em algum momento, das posições do grupo. Paim talvez não eleja candidatos, mas pode desgastar figuras em atrito com a própria base.
Paulo Figueiredo
Baseado nos EUA, o influenciador defende a tese de que um governo de direita deve ter uma identidade mais definida, e não um perfil técnico — uma crítica direta a Tarcísio de Freitas e a outros nomes do bloco mais voltados à gestão. Figueiredo também trabalha pela aproximação entre o bolsonarismo e a ala conservadora americana ligada a Donald Trump, ao lado de Eduardo Bolsonaro.
Allan dos Santos
Fundador do site Terça Livre, ele completa o núcleo do bolsonarismo “raiz” nos Estados Unidos. Sempre estridente, Allan é um dos nomes que mais contribuem para o ambiente de cobrança interna que marca esse grupo.
Outros nomes: Gustavo Gayer, Mário Frias, Filipe Barros, Gil Diniz.
O bolsonarismo crítico
Esta corrente é formada por figuras que têm em Jair Bolsonaro seu líder maior, mas que ao mesmo tempo são vistas como não-confiáveis pelos integrantes do grupo anterior.
Nesse grupo, a atuação é menos personalista e mais emocional, religiosa e baseada em valores. Há um forte apelo evangélico, com destaque para temas de família e costumes, além de uma presença feminina importante para mobilizar a base.
Algumas de suas lideranças buscam um tom mais moderado, para não se fechar dentro da própria bolha. E o antipetismo é o ponto onde todos se encontram, mas não o que define tudo.
Principais figuras
Nikolas Ferreira
Aos 29 anos, o deputado mineiro já é visto por muitos como um presidenciável natural para 2030, mas a regra de idade o deixa fora desse ciclo — ele só poderia concorrer à Presidência em 2034. Neste ano, o parlamentar deve disputar a reeleição à Câmara.
Nikolas virou, sozinho, a maior máquina de comunicação da direita. E, hoje em dia, conseguir alcance nas redes conta tanto quanto ter um partido forte por trás. Ele faz uma política voltada para as redes, que a esquerda ainda não conseguiu compreender direito. Talvez o nome mais influente desse grupo, ele andou batendo boca publicamente com Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e Kim Paim. Entretanto, Nikolas continua apoiando a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Michelle Bolsonaro
Michelle é hoje um dos nomes que mais carrega a ideia de continuidade da herança de Bolsonaro. No entanto, com a definição de Flávio como candidato a presidente pelo PL, ela saiu da disputa e passou a ser cotada para o Senado pelo Distrito Federal.
Mesmo fora da cabeça de chapa, a ex-primeira-dama continua sendo uma das figuras mais fortes do bolsonarismo, especialmente entre evangélicos e mulheres conservadoras. Ela já disse que o seu relacionamento com Eduardo e Carlos Bolsonaro não é dos melhores.
Tarcísio de Freitas
Até pouco tempo, Tarcísio era o presidenciável mais forte da direita. Só deixou de ser quando o entorno de Bolsonaro decidiu que a vaga seria de Flávio.
O governador de São Paulo acabou seguindo o caminho mais seguro: disputar a reeleição e preservar seu capital político para 2030. Governar o estado mais rico do país, longe da guerra de Brasília, pode acabar sendo uma vantagem para ele até lá.
Silas Malafaia
Malafaia não precisa disputar eleição para ter influência sobre ela, ainda que tenha defendido o nome de Michelle como candidata. Mesmo assim, seu apoio (ou rejeição) pode pesar muito mais do que qualquer pesquisa.
Damares Alves
A senadora é mais um símbolo do conservadorismo do que uma candidata para concorrer à Presidência no futuro. Sua rejeição fora da direita não a enfraquece dentro dela. Pelo contrário: principalmente para o eleitorado evangélico feminino, isso funciona como um sinal de autenticidade.
Sergio Moro
Depois de trocar o União Brasil pelo PL, Moro levou seu capital eleitoral anticorrupção para o projeto de Flávio Bolsonaro. Mas o senador, que lidera as pesquisas para o governo do Paraná, aparece como uma figura mais independente nesse grupo.
Rodrigo Constantino
Radicado nos EUA, o comentarista e influenciador defende um conservadorismo mais próximo do liberalismo econômico — posição que muitas vezes o coloca em atrito com setores mais fechados do bolsonarismo.
Outros nomes: Ana Campagnolo, Carol De Toni, Hamilton Mourão.
MBL / Partido Missão
O MBL (Movimento Brasil Livre) ajudou a impulsionar o antipetismo que abriu caminho para Jair Bolsonaro em 2018. O problema é que Bolsonaro acabou ocupando um espaço imaginado pelo próprio movimento.
O Partido Missão, oficializado pelo TSE em 2025, nasceu justamente dessa tentativa de construir uma direita alternativa ao bolsonarismo sem abandonar o antipetismo. Não é pouca coisa: formalizar um partido no Brasil exige 547 mil assinaturas — e o MBL conseguiu.
Mas o Missão de 2026 não é o MBL de 2015. O grupo ainda adota uma linguagem juvenil e “urbana”, porém se afastou do liberalismo econômico original e agora aposta pesado no tema da segurança pública (inspirado nas políticas de Nayib Bukele em El Salvador).
Principais figuras
Renan Santos
Renan é um dos fundadores do MBL e candidato presidencial do Missão. Com um discurso de rejeição frontal tanto a Lula quanto a Bolsonaro, ele vem crescendo entre os eleitores mais novos, mas esbarra num obstáculo básico: grande parte dos brasileiros simplesmente não sabe quem ele é.
Kim Kataguiri
Deputado federal desde os 23 anos, Kim é o principal quadro institucional do grupo. Ele representa a tentativa do Missão de parecer menos um movimento de internet e mais uma força uma política organizada.
Arthur do Val (“Mamãe Falei”)
Arthur teve o mandato de deputado estadual cassado depois do vazamento de áudios com falas suas consideradas controversas sobre mulheres ucranianas, em 2022. Ficou inelegível por oito anos, mas não sumiu. O eterno “Mamãe Falei” segue ativo nas redes e ganhou novos seguidores por vencer debates com opositores no YouTube.
Outros nomes: Guto Zacarias, Amanda Vettorazzo.
O Partido NOVO
O Novo nasceu prometendo ser diferente da velha política: sem dinheiro público, sem coligações e sem políticos com problemas na Justiça. Mas cresceu pouco e decidiu mudar.
A partir de 2018, o partido aceitou recursos públicos, fez alianças, flexibilizou regras internas e se aproximou do bolsonarismo. Ficou eleitoralmente mais competitivo — mas, para os críticos, deixou de lado o que o tornava inovador. A sigla ainda não decidiu se vai lançar candidato próprio à Presidência ou apoiar Flávio Bolsonaro.
Principais nomes
Romeu Zema
O ex-governador de Minas Gerais é o nome mais forte do NOVO nas urnas, e também o que mais ilustra o dilema do partido. Em 2026, ele trocou o perfil de gestor liberal e discreto por um discurso mais próximo do eleitor conservador tradicional, incluindo uma postura mais dura em relação ao STF.
Hoje Zema está cotado tanto para a Presidência pelo NOVO quanto para vice de Flávio Bolsonaro. Disputado pelos dois lados, sem talvez pertencer realmente a nenhum deles, o mineiro é o retrato de um momento de transição — para ele, seu partido e a própria direita brasileira. Na última semana, ele criticou Flávio Bolsonaro sobre sua ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro, o que pode ter reduzido as chances de uma possível aliança entre os dois candidatos.
Deltan Dallagnol
Herói da Lava Jato e pré-candidato ao Senado pelo Paraná, Deltan é um dos símbolos da mudança de rota do NOVO . A legenda, que antes não aceitava nomes com histórico judicial, acabou flexibilizando a regra para recebê-lo, depois da cassação de seu mandato de deputado pelo TSE em 2023.
A decisão dividiu opiniões, mas o que prevaleceu foi a projeção nacional e a trajetória anticorrupção do ex-procurador — que, para seus apoiadores, foi vítima de uma injustiça na perda do cargo.
Marcel van Hattem
O deputado gaúcho é a figura mais combativa do NOVO— e também uma das vozes mais contundentes da direita no geral. Em Brasília, ele aproximou o partido de pautas mais políticas, especialmente nas críticas ao STF.
Ricardo Salles
Ex-ministro de governo Bolsonaro e pré-candidato ao Senado por São Paulo, Salles virou uma das principais apostas da legenda para melhorar seu desempenho nas urnas. Salles não vem da tradição liberal clássica do NOVO, mas tem uma trajetória própria e reforça a abertura do partido para perfis mais variados dentro da direita. Tem batido de frente com o grupo de Eduardo Bolsonaro, a quem ele acusa de ter cedido aos interesses do Centrão.
Outro nomes: Eduardo Girão, Adriana Ventura.
A direita pragmática regional
Aqui aparece um dos dilemas da política brasileira mais recente: nomes que conseguem uma ótima avaliação em suas regiões nem sempre convertem isso em força nacional.
Administrar um estado exige negociação, acordos e entrega de resultados. Mas, nas disputas para presidente, parte dos eleitores tende a dar mais valor para posições firmes e discursos de enfrentamento.
No cenário atual, os principais nomes desse campo se destacam justamente por um conservadorismo moderado e um discurso voltado à gestão. Ainda assim, esses políticos devem ter um papel importante em 2026 — seja como concorrentes ou na formação de alianças no segundo turno (quando os apoios passam a pesar mais do que as próprias candidaturas).
Principais figuras
Ronaldo Caiado
O governador de Goiás é um nome forte do agronegócio e tem bons números para mostrar em uma área sensível: a da segurança pública. Sua candidatura presidencial pelo PSD de Gilberto Kassab parece pequena hoje, mas pode ganhar espaço conforme o cenário se desenrola até outubro (com possíveis desistências, rearranjos e outros fatos novos ao longo da campanha).
Ratinho Junior
O governador do Paraná, com alta aprovação regional, chegou a ser visto como um nome viável para a Presidência pelo mesmo PSD. Ele acabou recuando diante da pressão do bolsonarismo para fechar apoio a Flávio, mas não saiu enfraquecido dessa articulação.
Ratinho está à frente da bancada paranaense, uma das maiores do país, e tem influência em centenas de prefeituras. Esse capital político o mantém como uma peça importante em qualquer composição futura de governo.
Tereza Cristina
Ex-ministra da Agricultura de Bolsonaro, Tereza é uma das provas de que o governo anterior entregou resultados positivos em meio à crise trazida pela pandemia. No Senado, ela tem trânsito entre diferentes campos políticos e é vista como um nome com boa capacidade de articulação. Por isso mesmo, hoje é cotada como possível vice na chapa de Flávio Bolsonaro.
Outros nomes: Esperidião Amim, Jorginho Mello, ACM Neto

















Leave a Reply