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Ato de Trump reforça peso da segurança pública e pressiona Lula

O senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recolocou o debate sobre a segurança pública no centro da eleição à Presidência da República após a visita à Casa Branca, que culminou na classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos.

O anúncio desta quinta-feira (28) veio dois dias depois da visita do senador ao presidente Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca. Logo após o breve encontro, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro disse que havia pedido ao norte-americano a classificação das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.

Há poucas semanas, o petista foi recebido no mesmo local pelo presidente dos Estados Unidos, o que mostrou um certo pé de igualdade na relação entre Lula e Trump, em comparação com os antigos aliados da direita brasileira. No entanto, o petista teve uma postura antagônica sobre a classificação das facções como terroristas, episódio que deve ser explorado pela pré-campanha de Flávio.

Lula já havia se manifestado contra a posição da gestão Trump e o silêncio do governo petista mostra que ele sentiu o golpe. Na defensiva, o presidente brasileiro só comentou o tema no início da tarde desta sexta-feira (29) durante um evento em Sergipe, onde declarou que o CV e PCC não são “os terroristas, que o Trump quer, como o Osama bin Laden”.

Para o cientista político Samuel Oliveira, o governo não pode simplesmente rejeitar a medida sem apresentar uma resposta concreta contra o crime organizado. “Se ficar apenas no discurso, pode parecer que está fugindo do problema real”, afirma.

Além disso, na avaliação dele, Flávio Bolsonaro sai na frente na área da segurança pública ao conseguir, em Washington, aquilo que o governo Lula resistiu em fazer. “Isso permite à direita enquadrar o governo como lento, ambíguo ou excessivamente preocupado com política externa enquanto a população está preocupada com crime, medo e domínio territorial das facções”, analisa o cientista político.

Por outro lado, ele aponta que essa vitória da direita pode ter um efeito colateral, principalmente econômico e empresarial, e que Lula deve reeditar o discurso de defesa da soberania usado durante o tarifaço norte-americano. À época, o petista estava em queda livre e recuperou a popularidade após a taxação dos produtos pelos Estados Unidos.

“Quando uma candidatura brasileira parece depender de uma chancela externa, abre-se espaço para o governo reagir com a bandeira da soberania nacional. A direita ganha no tema da segurança, mas se expõe à acusação de importar a política externa americana para dentro da eleição brasileira”, pondera.

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A agenda com uma foto ao lado de Trump — reforçando a proximidade da família Bolsonaro com o líder da direita global — já havia dado certo antes do anúncio sobre a classificação do PCC e do CV, pois foi considerada uma resposta política à visita do presidente Lula.

De acordo com monitoramento do sentimento geral das menções a Flávio Bolsonaro em centenas de grupos de WhatsApp públicos monitorados pela empresa de análise de redes sociais Palver, divulgado pelo portal UOL, em cerca de três horas após a foto do senador com Trump, o sentimento do eleitorado havia mudado completamente. Foi a primeira inversão positiva para Flávio desde 12 de maio, quando seu nome foi associado ao de Vorcaro após o vazamento de um áudio.

Entre a última sexta-feira (22) e segunda-feira (25), Flávio operou com sentimento positivo entre 26% e 35%, contra a “maré” negativa que oscilava entre 45% e 52% das menções. A curva da última terça-feira (26) mostra a hora exata em que o cenário se inverteu. Às 17h, com a foto ainda não publicada, Flávio operava com 41% positivo e 51% negativo. Na hora seguinte, com a imagem circulando nos grupos, saltou para 61% positivo e 39% negativo. Às 20h, no pico do dia, fechou em 65% positivo e 35% negativo. Em três horas, o sentimento positivo subiu 22 pontos percentuais.

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Classificação do PCC e CV recoloca foco do eleitor na segurança pública

Se com a visita à Casa Branca Flávio havia, pelo menos temporariamente, “estancado a sangria”, com o anúncio da classificação das facções criminosas brasileiras como terroristas, o pré-candidato da oposição ao Palácio do Planalto surpreende o governo Lula e volta a trabalhar com a perspectiva de crescimento durante a pré-campanha.

A pauta foi mais uma vez deslocada para o campo da segurança pública, no qual a direita se sente mais à vontade que a esquerda para debater e propor medidas na área que deve ser decisiva para o voto do eleitor em outubro.

De acordo com pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril, a violência é o principal problema do Brasil para 27% dos entrevistados. A corrupção aparece em segundo lugar, com 19% das menções, seguida pelos problemas sociais (16%) e pela saúde (14%). A economia aparece com 9% no ranking de preocupações dos brasileiros, e a educação fecha a lista, com 7% das respostas.

Na série histórica da Genial/Quaest sobre o tema, a violência vem se mantendo no topo da lista das preocupações das pessoas desde o início de 2025 — o ápice ocorreu em novembro do ano passado, quando os números atingiram quase 40%.

Os efeitos eleitorais concretos da medida dos EUA, contudo, ainda são incertos e vão depender de como as campanhas de Flávio e Lula vão trabalhar a questão, assim de como o próprio governo norte-americano vai se comportar daqui para a frente.

  • Metodologia da pesquisa citada: A Quaest ouviu 2.004 pessoas em 120 municípios entre os dias 9 e 13 de abril de 2026. O nível de confiança é de 95% e a margem de erro é de 2 pontos percentuais. A pesquisa foi encomendada pela Genial Investimentos e está registrada no TSE (BR-09285/2026).

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Promotora defende revisão de lei antiterrorismo e foco nas vítimas do crime organizado

Promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e presidente do Instituto Brasileiro de Atenção Integral à Vítima (Pró-Vítima), Celeste Leite dos Santos explica que a legislação brasileira de combate ao terrorismo é inadequada aos padrões internacionais.

Segundo ela, essa defasagem legislativa enfraquece a argumentação do Estado brasileiro no sentido de que o PCC e o CV não seriam organizações terroristas. “Na prática, o nosso próprio ordenamento jurídico carece de densidade normativa para sustentar esse debate no plano internacional. Se o Brasil quer defender sua posição com credibilidade, precisa urgentemente revisar sua lei antiterrorismo para adequá-la aos parâmetros globais — não por pressão externa, mas por dever de seriedade legislativa”, argumenta a promotora em entrevista à Gazeta do Povo.

Ela ainda defende que o debate central deve estar no resultado concreto das ações das facções sobre a população que sofre com o avanço do crime organizado. “PCC e CV são responsáveis por milhares de mortes violentas, domínio territorial, recrutamento forçado de jovens e uma economia criminosa que vitimiza a população mais vulnerável. Se essa classificação internacional se traduzir em cooperação efetiva, rastreamento financeiro e desarticulação real dessas organizações, as vítimas serão beneficiadas”, opina a presidente do Pró-Vítima.

Celeste ainda ressaltou que apenas a classificação das facções como terroristas não significa combate ao crime organizado e cobrou políticas públicas como proteção a testemunhas, apoio a familiares e prevenção ao aliciamento. “Nesse sentido, é urgente e inadiável a aprovação do Estatuto da Vítima, que tramita no Senado Federal e aguarda deliberação na Comissão de Segurança Pública e em Plenário. O Brasil não pode seguir sem um marco legal que garanta direitos mínimos às vítimas de crimes violentos. Enquanto discutimos o rótulo jurídico das facções, as vítimas reais seguem sem amparo legal específico.”

Para o analista Nelson Ricardo Fernandes, consultor e analista de riscos e geopolítica, o impacto mais imediato deve ser sentido nas finanças das organizações criminosas. “Poderá ocorrer o desligamento dessas organizações do sistema financeiro internacional, de suas empresas e ligações com outros agentes. Todos poderão sofrer com sanções”, afirma. A reclassificação do PCC e do CV como organizações terroristas internacionais aconteceu no mesmo dia em que foi deflagrada a segunda fase da operação Carbono Oculto, que em 2025 desvendou as ligações bilionárias do PCC com o mercado financeiro da Faria Lima, em São Paulo.

A Carbono Oculto revelou que cerca de mil postos de combustíveis vinculados à organização movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Uma única fintech, operando como banco paralelo, movimentou R$ 46 bilhões no mesmo período. Nesta quinta-feira, a segunda fase, batizada de Fluxo Oculto, demonstra que, mesmo após a megaoperação em agosto do ano passado, a organização criminosa criou novas estruturas: seis fintechs foram descobertas, movimentando mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025.

“O crime organizado não apenas diversificou suas fontes de receita como desenvolveu capacidade de recomposição típica de corporações legítimas”, alerta a promotora Celeste Leite dos Santos.

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