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como superar 50 anos de atraso no Brasil

O Brasil é um país fechado ao comércio exterior — e paga caro por isso. A abertura comercial correspondia, em 2024, a 35,6% do PIB, segundo o Banco Mundial. Era o mesmo patamar global registrado meio século antes. Mesmo entre seus parceiros na América Latina e no Caribe, há um grande atraso. Na região, esse nível foi alcançado em 1999.

Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que essa baixa participação resulta de uma escolha deliberada: o modelo de substituição de importações, adotado no final dos anos 40 e início dos anos 50. O argumento era sedutor: como indústrias modernas dependem de economias de escala e o mercado interno brasileiro era incipiente, seria necessário “blindar” as empresas locais contra a concorrência externa.

O governo utilizou tarifas elevadas e restrições quantitativas para forçar o consumo de bens produzidos internamente. No entanto, o que deveria ser uma proteção temporária converteu-se em uma reserva de mercado permanente. O resultado foi a ausência de competição, apontam os analistas.

Segundo Lia Valls, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), esse processo gerou interesses setoriais poderosos que resistem à abertura. “Você vai criando mercados cativos. Então, a indústria resiste a essa abertura”.

A proteção alimenta um ciclo de ineficiência: a falta de competição aumenta a demanda por mais proteção, tornando “mais barato ir a Brasília com o objetivo de manter ou aumentar a proteção” do que investir em novas tecnologias, afirma José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos.

A informática brasileira nos anos 80 ilustra esse mecanismo. A reserva de mercado impediu importações, gerando produtos mais caros e tecnologicamente inferiores. Como a informática perpassa a indústria de forma transversal, o atraso contaminou todos os ramos industriais, deixando o país atrasado por anos.

Barreiras visíveis e invisíveis ao comércio exterior

Além dessa armadilha institucional, o Brasil também enfrenta obstáculos não tarifários sofisticados ao tentar colocar seus produtos no exterior. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) identificou, em março, 107 obstáculos qualificados em parceria com 19 entidades do setor privado.

Alguns dos mais comuns são as medidas sanitárias e fitossanitárias e os regulamentos técnicos. China, União Europeia, México e Estados Unidos são os principais aplicadores. A dificuldade em identificar essas barreiras também impacta as exportações.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB), o isolamento comercial brasileiro não é um acidente. “O que impede o Brasil de exportar mais? É uma combinação de falta de acordos e o peso esmagador dos custos internos.”

Outro estudo da CNI, feito em parceria com o Movimento Brasil Competitivo (MBC), aponta que, em 2021, o custo Brasil gerou uma despesa adicional de R$ 1,7 trilhão às empresas. A infraestrutura deficiente, por exemplo, encarece o transporte de bens, tornando o produto nacional menos atraente no exterior.

Castro afirma que, em muitos casos, a iniciativa de buscar novos mercados parte do importador ou de parcerias internacionais que decidem investir no Brasil, em vez de o país tomar a dianteira. “Essa postura reativa limita nosso poder de negociação e a capacidade de definir os termos da nossa própria inserção global”.

A cadeia global de valor: por que o Brasil não decola?

Outro limitador ao crescimento das exportações é a dificuldade de inserção nas cadeias globais de valor. Lia Valls explica que, no Brasil, não é viável instalar uma fábrica de autopeças voltada para a exportação se o custo para importar insumos for proibitivo. É uma situação que dificulta a agregação de valor aos produtos brasileiros. Assim, as barreiras de importação acabam por prejudicar qualquer estratégia exportadora.

A China avançou muito nesse processo, criando Zonas Econômicas Especiais. No Brasil, as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) demoraram anos para sair do papel. A ZPE de Pecém (CE) — fruto de investimento sul-coreano na siderurgia — mostra que a abertura é o caminho para aumentar o valor adicionado nas exportações.

O contraste do sucesso: agronegócio e aeronáutica

Uma exceção à estagnação é a agropecuária. Enquanto a indústria se encastelava, o agronegócio provou que o Brasil pode competir globalmente. O sucesso vem das vantagens naturais e também do investimento estratégico em tecnologia.

O Brasil criou a Embrapa, adaptou cultivos ao cerrado e se tornou um dos maiores produtores do mundo. “A competitividade decorre do investimento tecnológico e da eficiência, e não de subsídios ou barreiras alfandegárias”, diz José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, comparando o agro à indústria.

Segundo Camargo, a abertura comercial é indispensável para quebrar o ciclo de estagnação industrial. Somente por meio da integração internacional o Brasil poderá elevar o bem-estar de sua população, reduzir os preços internos e garantir que o capital nacional seja remunerado pelo mérito da inovação.

A indústria aeronáutica é outro setor em que o Brasil possui expertise relativa e competitividade global. Atualmente, a Embraer é a maior fabricante de aviões comerciais regionais do mundo.

O acordo Mercosul-União Europeia: um choque de realidade

Após 25 anos de negociações, a aprovação do Acordo Mercosul-União Europeia, em janeiro de 2026, representa o primeiro esforço estrutural sério para romper o isolamento brasileiro. O tratado entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio deste ano.

A UE eliminará tarifas sobre 100% das linhas industriais e sobre a maioria dos produtos agrícolas em até dez anos. O Mercosul liberará 81% das linhas tarifárias, mas com prazos de até 15 anos para setores sensíveis. Esse acordo é um “choque positivo” que força a indústria nacional a investir em tecnologia e produtividade.

Lia Valls afirma que o impacto mais relevante não será a competição com o produto europeu, mas o acesso facilitado a máquinas e insumos intermediários mais modernos e baratos. Esse acesso “barateia o custo de produção para o setor”.

Quatro pilares para romper o isolamento

Os especialistas apontam que, para romper o isolamento comercial, é preciso um conjunto de reformas coordenadas:

  • Redução tarifária gradual e previsível: a fim de que as empresas adotem tecnologias eficientes. O acesso a máquinas e insumos mais baratos e modernos barateia o custo de produção.
  • Redução do custo Brasil e da insegurança jurídica: de modo a fortalecer agências reguladoras autônomas e técnicas. A segurança jurídica é a moeda de troca para atrair investimento estrangeiro direto (IED).
  • Investimento em infraestrutura e logística: portos modernos, ferrovias e rodovias são pré-condições para que o Brasil se torne uma plataforma exportadora competitiva.
  • Cultura exportadora e marketing de marca: para que o país deixe de exportar produtos brutos e passe a levar ao consumidor global as marcas brasileiras. Investimento em branding é essencial.

O papel do governo e a agenda de Estado

O governo deve atuar ativamente para fortalecer a abertura comercial, sugerem os analistas. Ao apostar na redução de tarifas, por exemplo, o Estado sinaliza que não garantirá lucros fáceis para indústrias obsoletas. Isso força o investimento privado em processos mais eficientes.

A fim de reduzir os impactos dessa reestruturação, Lia Valls defende que o Estado deve oferecer financiamento e requalificação para trabalhadores e empresas de setores que perderem lucratividade com a abertura.

O fim da reserva de mercado se faz necessário. Segundo Camargo, o acordo Mercosul-UE é o instrumento necessário para quebrar esse ciclo de isolamento e ineficiência.

Por fim, Castro, da AEB, é enfático: a agenda de abertura depende muito mais do governo do que do empresariado. O Brasil sofre de um isolamento diplomático-comercial que impede a escala necessária para a maioria dos segmentos industriais.

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