
A prisão de Jair Bolsonaro produziu na direita brasileira um fenômeno clássico da política: a neutralização do líder carismático abre vácuo de poder, disputa sucessória e fragmentação. Bolsonaro foi declarado inelegível pelo TSE até 2030 e, em 2025, passou da prisão domiciliar para a execução de pena de 27 anos.
Mas a fragmentação da direita brasileira vai muito além dos partidos, que são estruturalmente fragmentados por causa do presidencialismo de coalizão e da ausência histórica de identidade ideológica consistente. O que se fragmentou agora foi algo mais profundo: a unidade emocional, cultural e política construída em torno de uma liderança conservadora comum.
Em ciência política, fragmentação é a perda do centro decisório comum. Quando o grupo depende mais do carisma do líder do que de instituições partidárias sólidas, a retirada desse líder produz facções, disputas internas e competição por legitimidade. Weber explicaria isso como falha na “rotinização do carisma”: ninguém herda automaticamente a autoridade simbólica do chefe.
A imagem bíblica é poderosa: “ferido o pastor, as ovelhas se dispersam”. Teologicamente, em Zacarias e nos Evangelhos, o pastor ferido revela a fragilidade do rebanho. Politicamente, o líder neutralizado revela a fragilidade de um campo que se organizou em torno de uma voz, de um nome e de uma identidade afetiva.
Sem pacificação interna, o campo conservador corre o risco de transformar a ferida do líder em guerra de herdeiros políticos. E esse tipo de guerra quase sempre beneficia o adversário
Desde 2019, o inquérito das fake news se tornou o marco dessa intenção fragmentadora por parte dos adversários políticos da direita. Aberto por Dias Toffoli para apurar supostas ameaças ao STF, com Alexandre de Moraes na relatoria, o procedimento consolidou um modelo de concentração de poderes raramente visto em democracias liberais. A partir dele vieram bloqueios de perfis, prisões preventivas extensas, buscas, remoções de conteúdo e restrições políticas que atingiram majoritariamente lideranças conservadoras.
É aqui que entra a juristocracia. Ran Hirschl popularizou o conceito para descrever a transferência de poder das instâncias políticas eleitas para tribunais constitucionais. No Brasil, a crítica crescente é que o STF deixou de atuar apenas como árbitro constitucional e passou a exercer protagonismo político direto em temas eleitorais, institucionais e de liberdade de expressão.
Esse processo parece claramente inspirado em estratégias históricas de neutralização de adversários utilizadas por movimentos marxistas ao longo do século XX. Antonio Gramsci defendia a ocupação progressiva das instituições culturais, jurídicas e educacionais como forma de construção de hegemonia. Em vez da tomada revolucionária clássica, a disputa passaria a ocorrer pelo controle das estruturas capazes de definir legitimidade social, moral e política.
O Foro de São Paulo tornou-se uma das principais articulações continentais dessa estratégia, que usa vários instrumentos e, mais recentemente, a juristocracia. Criado em 1990 por Lula e Fidel Castro, o Foro reuniu partidos e movimentos de esquerda latino-americanos, incluindo grupos ligados a regimes autoritários como Cuba, Venezuela e Nicarágua. Em vários desses países, opositores sofreram cassações, censura, perseguições judiciais, exílio político e concentração progressiva de poder estatal.
No Brasil, o fenômeno assume outra forma. Não existe partido único nem supressão formal das eleições. O que cresce é a percepção de neutralização institucional da oposição conservadora por meio de investigações amplas, censura indireta, restrições de alcance, decisões monocráticas concentradas e uso crescente do aparato judicial como instrumento de contenção política. É o “lawfare” em escala estrutural.
O resultado político, porém, é visível: a direita se dividiu. Tarcísio, Ratinho, Zema, Caiado, Michelle, Eduardo e Flávio passaram a aparecer como alternativas ou polos de pressão. O problema é que nenhum nome substitui automaticamente Bolsonaro, porque o bolsonarismo nasceu menos como partido e mais como identificação direta com o líder e seus valores.
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A imprensa internacional já leu esse quadro como fratura sucessória. The Economist descreveu a direita brasileira como dividida após a prisão de Bolsonaro; a Reuters noticiou Flávio Bolsonaro como possível candidato presidencial, mas também registrou desgaste político após o caso Banco Master.
A despeito desse cenário, Flávio Bolsonaro tenta ocupar o espaço de herdeiro político viável. A reunião dele com Donald Trump no Salão Oval, em 26 de maio de 2026, foi apresentada como gesto de projeção internacional, envolvendo temas como crime organizado, tarifas e minerais críticos.
A questão central para a direita, todavia, não é escolher um nome. É reconstruir a unidade. Sem pacificação interna, o campo conservador corre o risco de transformar a ferida do líder em guerra de herdeiros políticos. E esse tipo de guerra quase sempre beneficia o adversário.
Flávio, se pretende liderar esse campo, terá de fazer mais do que reivindicar sobrenome. Terá de pacificar governadores, a própria família, a bancada, a militância e o eleitor comum. Porque pastor ferido dispersa o rebanho; mas liderança madura reúne as ovelhas antes que o lobo faça a festa.
Zizi Martins é advogada pública e analista política. Pós-doutora em política, comportamento e mídia, doutora em Educação, mestre em Direito e especialista em Gestão Pública.















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