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Henry Borel e a morte da Justiça

Escrevo estas palavras com o coração nas mãos e noto que ele está dilacerado. Arrisco-me a dizer: hoje, no Brasil, quem não se escandalizou depois da sentença da juíza provavelmente não tem um coração para ser feito em pedaços. A pessoa que aceita uma injustiça tão grande já não possui coração, mas apenas um pedaço de carne que bombeia sangue.

Fico pensando nos algozes de Henry. O caso do tal Dr. Jairinho é nefasto: trata-se evidentemente de um psicopata capaz de qualquer coisa, um demônio sem qualquer escrúpulo ou limite moral (não me espanta que estivesse em um cargo público, afinal os psicopatas estão em maioria nesses ambientes).

Mas o que falar de Monique? E a sua frieza, a sua astúcia, a sua exibição de “empatia”, com os dedos em forma de coração? Ao entrar naquele tribunal, ela sabia muito bem que poderia contar com a sororidade da magistrada. E não se decepcionou.

Henry nem sequer era capaz de explicar a si mesmo o que estava acontecendo; seus gritos não eram ouvidos. Como é possível minimizar a cumplicidade com essa abominação?

À mulher que fez coraçãozinho com a mão, eu oponho a mulher que fazia selfie na delegacia quando foi presa. Aquela imagem na delegacia é uma espécie de anti-Pietà: exatamente o contrário do que pertence à essência da maternidade essa mesma maternidade que vem sendo atacada por todos os lados, a ponto de se cancelar a palavra “mãe”, substituindo-a por “pessoa que gesta”.

O nome Henry etimologicamente significa “proteção do lar”. Que cruel ironia ele ter encontrado em casa uma câmara de torturas! Para uma criança de 4 anos, o sofrimento é indizível. Henry nem sequer era capaz de explicar a si mesmo o que estava acontecendo; seus gritos não eram ouvidos. Como é possível minimizar a cumplicidade com essa abominação?  

A verdade é que o nosso país perdeu a alma. A bondade e a compaixão se tornaram objetos de escárnio; a justiça foi substituída por uma combinação de vingança contra os inimigos e de falsa misericórdia com os aliados. O crime sem castigo e o castigo sem crime se impõem como leis absolutas e inquestionáveis da religião política e da mentalidade revolucionária.

Não existe perdão para quem não perdoa e há muito tempo a Justiça brasileira deixou de se arrepender e de pedir perdão por seus atos abomináveis. Inocentes são condenados a longos anos de prisão, quando não à morte como Henry, e criminosos são libertados e exaltados como campeões da justiça social. A inversão ontológica da realidade se tornou a norma universal; quem ousar questioná-la e enxergar as coisas pelo são é considerado inimigo público.

E essa inversão não se limita ao Brasil: no fim de dezembro, na Inglaterra, um jovem com o mesmo nome do menino brasileiro foi algemado por policiais depois de ser esfaqueado por um sikh. Henry Nowak morreu aos 20 anos, de mãos algemadas. Seu assassino alegou ter sido vítima de racismo, assim como a juíza brasileira alegou “misoginia” para colocar Monique em liberdade.

O homem, dizia Chesterton, é o único animal capaz de agir como um santo ou como um demônio. Mas, quando a Justiça decide ser “angelical”, o demônio dá pulos de alegria. Afinal, ele também é um anjo.

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