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O poder do sorriso: como viver dias afáveis

Quando o Brasil marca um gol, a reação da maioria das pessoas é soltar um grito de alegria, levantar-se num salto da cadeira ou do sofá, balançar os punhos cerrados assim, na altura do rosto, e então procurar os olhos de quem está do lado – comemoramos juntos, nos abraçamos. Também os jogadores fazem isso, ou mais. É um ápice de eufórica alegria.

Na sequência, quando segue o jogo, nós voltamos à nossa posição inicial, guardando ainda, é claro, o calor daquele triunfo, para acompanharmos o tempo restante da partida. Se pudéssemos fazer um gráfico da emoção e da expressão da alegria durante o jogo, veríamos uma montanha-russa: altos picos de contentamento e vibração, talvez contra outros de decepção, quando nossa seleção toma um gol, ou perde um gol (ou tem um gol injustamente anulado, hunf!).

Nossa vida, porém, corre de maneira mais homogênea. A passagem das semanas e dos dias, e dos vários momentos dentro de um mesmo dia – desde que acordamos, em tudo o que fazemos, nos trajetos pelos quais nos deslocamos, até a hora em que, com a graça de Deus, nos deitamos novamente –, formaria um gráfico muito mais uniforme, com raros picos de alegria. Isso torna as nossas alegrias e as nossas dificuldades, nossos vícios e virtudes, às vezes diluídos e difíceis de captar. O bem e o mal que fazemos raramente são chamativos como um gol. Por isso há virtudes cuja presença costuma passar despercebida, ainda que sua ausência seja sensível. Quando faltam, tornam os ambientes pesados, ásperos e desconfortáveis; quando existem, criam uma atmosfera tão natural que poucos se dão conta de seu valor.

Existe uma, esquecida, da qual me parece que ninguém fala; ou, pior ainda, fala, mas que é mencionada em contextos um pouco pobres – montagens de gosto duvidoso, que circulam no WhatsApp… Refiro-me à afabilidade, aquela que tem seu símbolo máximo no sorriso. Essa virtude, elegante e valiosa, pertence àquela categoria de bens silenciosos. Ela não chama atenção para si mesma, não se exibe nem busca reconhecimento. Contudo, é uma das forças mais eficazes na construção de uma convivência verdadeiramente salutar, como nos ambientes de trabalho e outros grupos nos quais nos inserimos, e, mais importante ainda, no nosso lar.

A autêntica afabilidade não procura conquistar favores nem despertar admiração. Sua origem está no reconhecimento sincero da dignidade do outro

Nossa época, especialmente os últimos anos, e após o lockdown de 2020, vem assistindo à troca das relações interpessoais por interações digitais, o que acarreta novos padrões de comportamento, e numa crescente dificuldade de relacionamento. As pessoas se cruzam nas ruas, nos escritórios, nos meios de transporte – e até dentro das próprias casas! – sem realmente se encontrarem. Multiplicam-se os meios de comunicação, enquanto escasseiam os gestos simples que tornam possível a comunhão entre os homens. Talvez por isso a chamada afabilidade seja hoje mais necessária do que nunca.

Quando se fala em cortesia, gentileza ou delicadeza, muitos imaginam imediatamente uma forma de artificialidade social: sorrisos forçados, elogios interesseiros, atenções calculadas. E a experiência cotidiana fornece, de fato, inúmeros exemplos desse comportamento. Há quem seja cordial apenas enquanto espera obter alguma vantagem; há quem transforme a simpatia em estratégia. Há quem use a amabilidade como instrumento de ascensão social ou profissional. Mas essa não é a verdadeira virtude a que quero me referir, não, mas somente uma caricatura dela.

A autêntica afabilidade nasce de uma disposição interior muito diferente. Ela não procura conquistar favores nem despertar admiração. Sua origem está no reconhecimento sincero da dignidade do outro. O homem afável não trata bem as pessoas porque espera algo delas; trata-as bem porque reconhece nelas algo precioso. Reconhece que, por trás de cada rosto, existe uma história; que, por trás de cada nome, existe uma alma. E a afabilidade consiste precisamente em agir como quem sabe disso. Em seu sentido mais profundo, a afabilidade é a capacidade de acolher os outros com benevolência espontânea. É a disposição de tornar-se acessível: é a arte de fazer com que as pessoas sintam que sua presença vale, que ela importa.

Talvez pareça pouco, mas não é, é muito. Isto porque uma das maiores necessidades humanas é não exatamente ser admirado, mas ser reconhecido. Todos desejamos, de alguma forma, que alguém perceba nossa existência e a considere valiosa. É uma abertura de diálogo, de presença. Por isso a indiferença fere mais profundamente do que muitas agressões explícitas, e ser ignorado é uma das experiências mais dolorosas da condição humana.

E é então que gestos simples podem adquirir um alcance extraordinário: um cumprimento sincero, um olhar atento, uma palavra cordial que não era obrigatória – um sorriso oferecido sem cálculo. Pequenas manifestações de humanidade que muitas vezes mudam inteiramente o tom de uma conversa, de uma reunião ou mesmo de um dia inteiro, um sorriso que pode confortar e regular o humor dos nossos filhos outra vez.

Costuma-se dizer que “o sorriso é a distância mais curta entre duas pessoas”. A imagem é feliz. Antes mesmo das palavras, o sorriso comunica receptividade, acolhimento. Ele diz silenciosamente: “Você não é um estranho para mim”. Não elimina todas as diferenças que possam existir entre duas pessoas, evidentemente; mas recorda algo mais importante do que essas diferenças: a humanidade compartilhada entre todos nós.

Naturalmente, nem todo sorriso possui esse significado, e nem todo sorriso é expressão ou símbolo da verdadeira afabilidade. Existe o sorriso da ironia, da superioridade e até o do desprezo. Existe o sorriso usado como máscara, que esconde ressentimento. Mas o que importa, e que, se estivermos atentos, todos sabemos reconhecer, é aquele sorriso raro que nasce da alegria de encontrar outro ser humano. Esse sorriso não depende de intimidade prévia; não exige amizade consolidada: surge da simples percepção de que o outro é alguém semelhante a mim, alguém que também conhece alegrias e sofrimentos, esperanças e fracassos, medos e sonhos. A verdadeira cordialidade nasce exatamente dessa percepção.

A palavra cordialidade – que o pensador Sérgio Buarque de Holanda usou para descrever o brasileiro, como o “homem cordial”, em seu famoso livro Raízes do Brasil – conserva uma riqueza que vale a pena recordar. Sua origem remete ao coração. Ser cordial não significa apenas observar regras externas de educação: significa envolver o coração na relação. Significa dirigir-se ao outro como pessoa, e não como objeto, função ou obstáculo.

Antes mesmo das palavras, o sorriso comunica receptividade, acolhimento. Ele diz silenciosamente: “Você não é um estranho para mim”

Há pessoas que falam conosco enquanto parecem olhar através de nós. Esperam apenas a oportunidade de voltar a falar de si mesmas. Outras, ao contrário, possuem o raro dom de nos fazer sentir presentes. Quando conversam, escutam mesmo. Quando perguntam, interessam-se realmente pela resposta, e seu pensamento é verdadeiramente transformado pelo que ouviram. Quer dizer, estão num efetivo diálogo, que é conduzido a quatro mãos, para um resultado imprevisível, e não para algo previamente pensado, como seria uma palestra. Quando estão conosco, essas pessoas nos fazem perceber que nossa presença tem valor. E talvez essa seja uma das formas mais elevadas da delicadeza: conceder atenção. Num mundo saturado de distrações, prestar atenção tornou-se um ato de verdadeira generosidade.

Mas atenção: a afabilidade, para ser ela mesma, não depende apenas da maneira como vemos os outros; ela exige também uma certa reconciliação conosco mesmos.

Pessoas excessivamente preocupadas com a própria imagem tendem a tornar-se rígidas. Quem vive constantemente na defensiva acaba interpretando tudo como ameaça, e sobretudo quem se leva demasiadamente a sério encontra dificuldade para sorrir. Existe uma relação profunda entre a serenidade interior, um humor saudável, e a capacidade de acolher os demais. O bom humor autêntico não é fruto da ausência de problemas, mas surge, sim, da capacidade de relativizá-los, de ajustar suas proporções. É a arte perdida de não transformar cada contratempo numa tragédia, ou de fazer tempestade em copo d’água. É a disposição de aceitar as limitações próprias e alheias sem perder a paz.

Muitos dos conflitos cotidianos nascem precisamente da incapacidade de suportar pequenas contrariedades. Uma palavra mal colocada, um atraso, um esquecimento, uma divergência mínima tornam-se motivo de irritação permanente. Por quê? O que se espera da vida, afinal? Que todos nos sirvam e agradem, que tudo vá bem? Quem meteu essa ideia leviana em nossa cabeça? E, aos poucos, instala-se uma espécie de amargura habitual que obscurece a convivência. A afabilidade, mãe do bom humor, é justamente o que age na direção oposta. Ela ilumina os ambientes, suaviza as relações, torna mais leve o peso inevitável da vida comum.

Não resolve todos os problemas humanos, é claro. Ela não é capaz de eliminar injustiças nem sofrimentos. O sorriso não é “mágico”, como sugerem alguns gifs bregas. Mas ele é capaz de criar o clima necessário para que os homens possam enfrentar juntos essas dificuldades. No fundo, a afabilidade é uma forma discreta de caridade.

Essa sabedoria, essa capacidade de sorrir nas situações, de cultivar a tranquilidade do ambiente e das relações, e especialmente a capacidade de rir de si mesmo, de olhar para si mesmo sem uma solenidade excessiva, ela raramente aparece nos cursos de liderança ou nos manuais de desenvolvimento pessoal. Ela pode dar uma impressão de fraqueza, alguns devem pensar. E, no entanto, ela exerce enorme influência sobre a qualidade das relações humanas.

Estamos acostumados a associar responsabilidade com gravidade, autoridade com rigidez, importância com um certo ar de seriedade permanente. Imaginamos que pessoas investidas de funções relevantes devam exibir continuamente uma aparência austera para serem respeitadas. A realidade, porém, costuma ensinar o contrário. As pessoas que mais inspiram confiança raramente são aquelas que parecem preocupadas em demonstrar sua importância. Ao contrário, frequentemente encontramos nelas uma surpreendente liberdade interior. Conhecem suas responsabilidades, mas não transformam a própria pessoa no centro do universo. Exercem suas funções com firmeza, mas sem teatralidade. Sabem o peso de suas decisões, mas conservam a capacidade de sorrir.

Talvez porque tenham compreendido uma verdade simples: possuir limites não é uma falha moral. É apenas uma característica da condição humana.

Há uma diferença profunda entre levar a própria vida e o próprio trabalho a sério e levar-se demasiadamente a sério

Grande parte dos sofrimentos desnecessários nasce da dificuldade de aceitar esse fato elementar. Queremos parecer mais inteligentes do que somos, mais competentes do que realmente somos, mais seguros do que efetivamente nos sentimos. Construímos uma imagem idealizada de nós mesmos – e depois gastamos enorme energia tentando sustentá-la diante dos outros. Isso cansa e, ademais, como diziam os antigos, “faz mal para a cabeça”. Toda crítica parece uma ameaça. Todo erro se transforma numa catástrofe. Toda falha exige uma justificativa imediata. Como consequência, o diálogo se torna difícil, a convivência se empobrece e a espontaneidade desaparece.

Há uma diferença profunda entre levar a própria vida e o próprio trabalho a sério e levar-se demasiadamente a sério. Quem se leva excessivamente a sério vive em permanente estado de defesa. Precisa proteger sua reputação, preservar sua imagem, justificar seus equívocos, explicar cada fracasso. Pouco a pouco, torna-se incapaz de reconhecer com naturalidade aquilo que todos os demais já perceberam: que é um ser humano como qualquer outro. Por isso existe algo de profundamente desarmante numa pessoa capaz de admitir seus erros com serenidade.

Quando alguém reconhece uma falha sem buscar culpados, sem apresentar longas explicações e sem dramatizar o acontecimento, produz um efeito curioso sobre os que o cercam. Em vez de perder autoridade, frequentemente a fortalece. Em vez de diminuir sua credibilidade, aumenta-a. A razão é simples: a sinceridade inspira confiança. Todo mundo erra, afinal, e todos sabemos disso. O que desperta desconfiança não é o erro em si, mas a tentativa de escondê-lo sob camadas de justificativas. O esforço exagerado para parecer impecável costuma revelar exatamente o contrário daquilo que pretende demonstrar. Por isso, uma das formas mais refinadas de humildade consiste em conservar a capacidade de rir de si mesmo.

Não se trata de autodepreciação nem de desprezo por si mesmo, e nem tem a ver com rebaixar-se na sua própria dignidade, muito menos com baixa autoestima, com autossabotagem… Nada disso. Trata-se de algo muito mais simples e saudável: reconhecer que a vida humana possui inevitavelmente uma dimensão cômica. Todos acumulamos pequenas incoerências, esquecimentos, distrações, exageros e equívocos. Aceitá-los com bom humor não nos diminui. Pelo contrário, torna-nos mais livres! A autoironia é uma espécie de antídoto contra a vaidade. Ela impede que nos tornemos prisioneiros da própria imagem. Permite-nos observar nossas limitações sem desespero, e nossos sucessos sem arrogância. É uma forma de realismo acompanhada de benevolência.

As pessoas maduras não ignoram seus defeitos, mas também não vivem obcecadas por eles. Não passam o tempo contemplando a própria imagem, seja para admirar-se, seja para condenar-se

Talvez por isso as pessoas verdadeiramente agradáveis costumem possuir essa qualidade. São capazes de contar histórias em que não aparecem apenas como heróis e bonzões. Não sentem necessidade de vencer todas as discussões. Não se apressam em corrigir cada observação desfavorável que recebem. Conseguem rir junto com os outros quando se tornam objeto de uma brincadeira inocente. Essa leveza produz um efeito social extraordinário, deixa o ambiente… afável.

Quando alguém admite a própria imperfeição, cria espaço para que os demais façam o mesmo. O ambiente se torna menos tenso, as pessoas sentem-se mais livres para expressar opiniões, formular perguntas e até discordar. O diálogo floresce porque desaparece o medo constante de errar. Ora, nas famílias, essa virtude possui um valor ainda maior. Quantos conflitos cotidianos poderiam ser resolvidos se houvesse mais capacidade de sorrir juntos! Muitas tensões domésticas sobrevivem apenas porque cada participante insiste em defender sua posição até o último detalhe. Ninguém deseja ceder. Ninguém deseja reconhecer exageros. Ninguém aceita a possibilidade de ter reagido de forma desproporcional. Bastaria, às vezes, uma observação bem-humorada – uma piadinha de bom gosto – para desfazer o nó. Não o humor cruel que humilha, é claro! E nem a ironia que fere. Essas coisas são gasolina jogada na chama de uma discussão. Mas sim aquele humor afetuoso que permite enxergar as situações sob uma luz mais ampla e mais humana. O orgulho prefere a solenidade afetada; e a verdade é amiga da humildade. E a verdade, bem, é que somos todos bastante frágeis.

O núcleo mais profundo do senso de humor não está na piada, nem na leveza superficial do comportamento, mas numa forma de lucidez sobre si mesmo. É o ponto em que a pessoa deixa de se tomar como medida de todas as coisas e passa a se reconhecer como parte de um todo maior, limitado e, por isso mesmo, humano. São Thomas More exprime isso com precisão espiritual ao sugerir que certas tentações não se combatem apenas com esforço dramático, mas com um gesto de desativação interior: o desprezo sereno. Há pensamentos e impulsos que perdem força quando deixam de ser tratados como absolutamente importantes. A ironia, nesse sentido, não é fuga, mas desarme. Há, aliás, uma oração tradicional atribuída a Thomas More, que pede a Deus não apenas alegria, mas uma alma livre de inquietações centradas no próprio eu. Antes mesmo do riso, pede-se a libertação de um tipo de interioridade fechada, continuamente ocupada consigo mesma. O humor, nesse sentido, não é um adorno da vida espiritual, mas um efeito colateral da humildade. E também C. S. Lewis, ao retomar esse imaginário em suas Cartas de um diabo a seu aprendiz, transforma essa intuição numa verdadeira pedagogia espiritual: o orgulho não suporta ser ridicularizado. Ele precisa de solenidade para sobreviver. Quando perde o palco, perde também o domínio.

Talvez uma das características mais marcantes das pessoas maduras seja justamente essa reconciliação com a própria imperfeição. Elas não ignoram seus defeitos, mas também não vivem obcecadas por eles. Não passam o tempo contemplando a própria imagem, seja para admirar-se, seja para condenar-se. Simplesmente seguem adiante. E assim se vai longe! Adiante e adiante, sempre sorrindo.

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