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Mercosul mais à direita e caos na Venezuela desafiam Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarca em Assunção, nesta terça-feira (30), para a cúpula do Mercosul diante do cenário regional mais adverso desde o início do terceiro mandato. A consolidação de governos de direita entre países do bloco reduziu a margem de articulação política do Palácio do Planalto. Paralelamente, a resposta internacional aos terremotos que devastaram a Venezuela acrescentou um novo elemento ao debate sobre a liderança regional.

Para a analista política Yolanda Tolentino, especialista em política e gestão estratégica internacional pela FAAP e UFRJ, a mudança do mapa político sul-americano reduziu a margem de articulação do presidente brasileiro. “Lula chegou ao terceiro mandato em 2023 com uma maioria regional [de esquerda]. Três anos depois, esse cenário se inverteu completamente. O Brasil deixa de falar em nome de uma maioria e passa a operar como exceção dentro do próprio Mercosul.”

Esse cenário, segundo analistas, tende a marcar as discussões da cúpula em Assunção, onde Lula encontrará interlocutores com prioridades políticas distintas das defendidas pelo Palácio do Planalto. 

No que diz respeito à tragédia na Venezuela, embora o Brasil tenha anunciado o envio de ajuda humanitária, a avaliação é de que a resposta brasileira ficou aquém da capacidade e apontam uma perda de oportunidade de afirmar sua liderança regional.

“Atualmente, a ajuda humanitária integra o conjunto de instrumentos do chamado soft power. Embora tenha como objetivo principal salvar vidas e reduzir o sofrimento, ela também comunica capacidade logística, liderança política e compromisso internacional. Quem consegue mobilizar rapidamente aeronaves, equipes de resgate, hospitais de campanha e assistência técnica demonstra liderança e fortalece sua influência diplomática”, afirma Cezar Roedel, consultor de relações internacionais.

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Participação reduzida reforça enfraquecimento 

Lula viaja para o Paraguai na manhã de terça-feira e retorna no mesmo dia para participar do lançamento do Plano Safra no Palácio do Planalto. A pauta da cúpula do Mercosul deve ser marcada por tratativas relacionadas ao avanço das negociações comerciais com parceiros externos e a modernização das regras do bloco.

O encontro ocorre em um momento de reconfiguração política na América do Sul, com a ascensão de governos de direita entre integrantes e países associados.

Três anos depois de Lula tomar posse para o terceiro mandato, as eleições de presidentes conservadores em países como Argentina, Chile, Equador e Peru reduziu a convergência política do Palácio do Planalto na América do Sul.

Yolanda Tolentino avalia que a estratégia brasileira passou a depender de negociações bilaterais em temas específicos, como infraestrutura e segurança, em vez de uma articulação baseada em convergência ideológica. Apesar disso, o presidente brasileiro não tem previsão de reuniões bilaterais na agenda.

“O Mercosul funciona por consenso. O Brasil operava num bloco em que aliados sustentavam boa parte da agenda comum. Hoje encontra resistência em temas como integração política, direitos humanos e agenda ambiental. O Mercosul torna-se cada vez mais um acordo comercial, e não o projeto político de integração regional que o Brasil sempre defendeu”, explica a analista. 

O contexto também afasta o petista de um dos pilares de seus discursos de campanha: a busca pela retomada do protagonismo global. “[Lula] está longe de qualquer protagonismo. O PT sempre vendeu a ideia de que possui uma política externa proeminente, mas não passa de uma fórmula vencida, que colocou a diplomacia em seu pior momento histórico”, avalia o consultor de relações internacionais Cezar Roedel.

Enquanto o governo Lula se senta à mesa para debater o Mercosul, o pré-candidato à Presidência senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) busca estreitar os laços com o presidente argentino. Milei, que já deixou de encontrar Lula para prestigiar o ex-presidente Jair Bolsonaro no CPac realizado em 2024, esteve com Flávio no domingo, na Argentina. Após o encontro, o argentino apostou em uma “onda azul pelas mãos de Flávio”.

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Tragédia na Venezuela tornou-se um teste de liderança regional 

A mudança na correlação política coincidiu com um dos maiores desastres naturais da história recente da América do Sul. Os terremotos que atingiram a Venezuela desencadearam uma ampla mobilização internacional e transformaram a ajuda humanitária em mais um elemento da disputa por influência regional. 

“Atualmente, a ajuda humanitária integra o conjunto de instrumentos do chamado soft power. Embora tenha como objetivo principal salvar vidas, ela também comunica capacidade logística, liderança política e compromisso internacional”, explica Cezar Roedel. 

Segundo ele, quem consegue mobilizar rapidamente aeronaves, equipes de resgate, hospitais de campanha e apoio logístico fortalece sua imagem internacional. 

“Em política internacional, tempo é um fator estratégico. A velocidade da resposta influencia a percepção sobre capacidade de liderança.” 

O governo brasileiro já enviou três voos com ajuda humanitária ao país vizinho. De acordo com o Itamaraty, os envios somam um total de 71 bombeiros, 4 especialistas da Defesa Civil, 4 técnicos da Anatel, 6 cães de busca, um hospital de campanha operado por 48 efetivos da Marinha, 100 purificadores de água e mais de 111,8 mil medicamentos e insumos médicos. A ajuda, apesar de expressiva, foi considerada aquém das capacidades do Brasil. 

O cientista político Elton Gomes pondera que o Brasil deu mostras de querer enviar ajuda rapidamente. “Mas, diante da gravidade da circunstância e do ambiente político, acabou não sendo tão célere nem enviando tantos recursos quanto poderia.” 

Segundo Gomes, a estrutura enviada pelo governo brasileiro representa uma contribuição relevante, mas poderia ter sido acompanhada de maior mobilização de pessoal. 

“O envio de equipes de resgate constrói imagem e gera capital diplomático, mas não reconstrói a capacidade de articulação institucional que o Brasil perdeu com a virada conservadora do continente. O Brasil que lidera nos escombros da Venezuela precisa ser o mesmo que consegue pautar o Mercosul. Por enquanto, são dois Brasis distintos”, afirma Yolanda Tolentino. 

Países respondem à tragédia na Venezuela em ritmos e escalas diferentes 

Diversos países pelo mundo responderam com ajuda humanitária ao caos causado pelos terremotos na Venezuela. No continente americano, destacam-se o Brasil, os Estados Unidos, a Argentina e El Salvador. Com exceção do Brasil, esses países possuem governos que não se alinham politicamente ao regime da Venezuela. 

O Brasil, por exemplo, mobilizou aeronaves KC-390 da Força Aérea Brasileira para transportar equipes de busca e salvamento, bombeiros, cães farejadores, medicamentos, kits de calamidade e um hospital de campanha modular. A operação foi ampliada com módulos complementares do hospital, além de insumos médicos suficientes para atender cerca de 1.500 pessoas durante um mês.  

Os Estados Unidos anunciaram um pacote de ajuda de US$ 150 milhões, ativaram equipes de busca e resgate urbano, força-tarefa do Departamento de Estado e apoio aéreo e logístico para transporte de suprimentos. Os americanos também suspenderam algumas sanções impostas contra o país, para facilitar a chegada de ajuda. 

Desde o dia seguinte à tragédia, o Comando Sul dos EUA (Southcom) está presente em Caracas por meio de seus militares e tem atualizado os envios e ações de socorro enviados à Venezuela. De acordo com as informações divulgadas, pelo menos 100 militares da Força Aérea e 130 membros do Corpo de Fuzileiros Navais atuam na missão. Somente na segunda-feira (29), seis aeronaves de carga C-17 Globemaster da Força Aérea dos EUA chegaram ao país.

A operação conta também com um grupo naval liderado por um navio de transporte anfíbio americano USS Fort Lauderdale, empregado como plataforma para helicópteros, coordenação das missões e apoio médico. Além disso, membros do serviço do Elemento de Resposta de Contingência (CRE, na sigla em inglês) da Força Aérea dos EUA estão gerenciando as operações de torre e solo no Aeroporto Internacional Simón Bolívar para ajudar voos humanitários internacionais a pousarem com segurança, descarregarem carga de forma organizada e levarem suprimentos críticos para as linhas de frente. 

A Argentina enviou equipes de bombeiros especializados em estruturas colapsadas, profissionais de saúde e integrantes da Defesa Civil para reforçar as operações coordenadas pelas autoridades venezuelanas e organismos internacionais. Equipamentos, medicamentos e itens como tendas e kits de cozinha, colchões e macas também forma enviados em pelo menos três voos que já chegaram à Venezuela. Argentinos também estão colaborando com assistência na reabilitação do aeroporto de Caracas, que foi danificado pelos tremores. 

Já El Salvador despachou um contingente de pelo menos 300 resgatistas das forças de busca e salvamento urbano (USAR), bombeiros, paramédicos, cães farejadores e equipamentos para operações em áreas de desabamento. Pelo menos seis voos partiram do país com 50 toneladas de ajuda humanitária para a Venezuela. 

O presidente salvadorenho Nayib Bukele tem destacado o empenho do país na situação publicando uma série de vídeos de resgates feitos pelas equipes enviadas por ele. 

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